Sem dúvida nenhuma

Anos atrás, tive a oportunidade de acompanhar de perto o caso de um paciente que foi submetido a um transplante de coração e que acabou falecendo dois meses depois da cirurgia — por complicações que pouco importam para o que gostaria de discutir. Recordo que a cirurgia ocorreu não muitas horas depois de se ter notícias de um doador compatível, e que do ponto de vista técnico, tudo correu muito bem, tão bem que o paciente chegou a sair da UTI e foi para um quarto individual, começou a exercitar-se e chegou a fazer planos para o futuro, algo que nos últimos meses via como proibido… Mas já estou me alongando, deixe eu voltar ao que me interessa, e que neste exemplo diz respeito não ao paciente que conheci, mas ao doador, de quem o transplantado e seus parentes próximos nada sabiam e nem tampouco vieram a saber. Parte desse desconhecimento se deve ao fato da cirurgia ter ocorrido fora do Brasil — apenas porque o paciente não vivia aqui, embora fosse brasileiro. O máximo que seus parentes e eu soubemos sobre o doador é que tratara-se de uma mulher, com vinte e poucos anos, que falecera de acidente de automóvel. Dizia o protocolo que mesmo essa simples e genérica informação deveria seguir sigilosa. Só que ao conversar com os parentes do paciente, um dos médicos — o que fora buscar o coração no lugar onde ocorrera o acidente — acabou deixando escapar, enquanto lamentava o falecimento de uma pessoa de quem passou a considerar-se amigo ao longo dos meses de sua internação no hospital.

Tempos depois, acompanhei mais de uma vez, aqui no Brasil, notícias em torno a transplantes ocorridos depois de alguma tragédia: uma morte por acidente, uma vítima de assassinato e casos semelhantes, casos estes em que os familiares tiveram a grandeza de doar os órgãos do morto. Mas com um aspecto “ruidoso”: os receptores desses órgãos sendo mostrados em rede nacional de televisão, com sua gratidão tornada pública, muitas vezes em encontros com os parentes do doador,  “patrocinados” pelos tais canais de tevê e com uma trilha ao fundo dando o tom obrigatoriamente lacrimogêneo,  tendo como efeito “involuntário” muitos e “inocentes” pontos a mais de audiência.1

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[Mudo então de cenário.]

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Dentre as inúmeras notícias que li logo que sobre do desastre com o voo 447, uma que não mudou foi a de que a companhia de aviação só divulgará uma lista de passageiros depois que conseguir entrar em contato com parentes de todos eles. (Há uma previsão de que a lista saia amanhã, 3 de junho.) Em alguns noticiários essa informação vem acrescida de que se trata daquilo que a legislação francesa determina, embora eu não saiba se isso procede. Em todo caso, o que me chamou a atenção foi ver imagens de familiares dos passageiros sendo levados a uma área reservada no aeroporto francês, protegida por um cordão de isolamento bastante amplo e com policiais garantindo que ele permanecesse de fato reservado. Já no aeroporto Tom Jobim, no Rio de Janeiro, a situação era diferente. Dezenas de representantes de todos os meios de comunicação engalfinhando-se para contatar os parentes que apareciam no aeroporto, formando um verdadeiro “corredor polonês” por onde esses fragilizados parentes teriam que passar. Enquanto isso, a companhia aérea providenciava acomodações em um hotel para atender os familiares dos passageiros (inclusive com médicos e psicológicos) — o que não é nenhum favor, apenas o procedimento esperado em situações como essa.

Ainda quanto à forma como a notícia vem sendo tratada, na manhã de hoje, além das esperadas reportagens com os habituais passageiros que afirmam ter “renascido” ao não embarcar nesse voo por um motivo ou outro, não se fizeram esperar novas entrevistas, estas com parentes dos passageiros neste ou naquele programa matutino, com a apresentação de fotos de alguns dos desaparecidos — parte das fotos provavelmente fornecida pelos próprios familiares, diga-se de passagem — e o ar consternado dos entrevistadores, como sói acontecer. Além disso, a cada momento a lista não oficial com os nomes dos passageiros aumenta, mini-currículos colados a alguns deles, tudo em nome da necessidade de se fazer a informação vir a público.

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[Vou para outro canto, mais uma vez.]

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Dias atrás acompanhei uma discussão em torno da decisão do presidente Barack Obama de não tornar públicas cerca de duas mil fotos de “…cenas de abusos de prisioneiros tanto no Iraque quanto no Afeganistão, entre 2002 e 2004. Por conta, seu governo vem sendo alvo de pesadas críticas por falta de transparência” (Pedro Doria, Weblog). Penso que alguns já têm claro que tais fotos devem ser divulgadas, por entender que

…há um poder que as imagens têm que nenhum texto é capaz de simular. Apenas imagens como estas são capazes de expor a população dos EUA – e do mundo – aos horrores praticados nos porões da guerra. Jane Mayer apud Pedro Doria, op. cit.)

E em parte como eles, acredito tratar-se de um contraponto consistente, que deva ser discutido e até valer neste caso em particular (e em muitos outros que a ele se assemelham), apesar da espetacularização e do caráter perverso que vem no bojo da divulgação dessas fotos.

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[E agora, tento costurar um pouco as coisas. Um pouco, pois a linha não é muita.]

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Temos: a notícia; a verdade; a transparência; o justo; a valorização do humano. E, por outro lado: o espetáculo; o gozo, um gozo perverso; o lucro com a dor alheia (que quase dá no mesmo); o império da desumanização.

Há no entanto, uma imperiosa e incessante necessidade: a de distinguir uns dos outros, especialmente quando se vê o vil e a barbárie travestidos de “defesa da liberdade” ou qualquer outra expressão de forte apelo ético-moral — a má-fé em sua melhor forma, estejam certos disso.

Da minha parte, só queria se valorizasse uma premissa: o respeito, em especial o respeito à dor alheia. E se para isso ela precisar permanecer distante do público, que seja. Saber apenas que o doador é homem ou mulher; que entre os passageiros do voo 447 havia 58 brasileiros, 61 franceses, 26 alemães, 9 chineses, 9 italianos, 6 suíços, 5 britânicos, 5 libaneses, 4 húngaros, 3 eslovacos, 3 noruegueses, 3 irlandeses, 2 marroquinos, 2 espanhóis, 2 americanos, 2 poloneses, 1 russo, 1 belga, 1 romeno, 1 croata, 1 gambiano, 1 islandês, 1 filipino, 1 sueco, 1 turco, 1 argentino, 1 austríaco, 1 canadense, 1 sul-africano, 1 dinamarquês, 1 estoniano, 1 holandês, já é mais do que o suficiente, especialmente para aqueles não diretamente envolvidos. E mesmo em casos como os dos X, Y, Z abusos contra tais e quais homens e mulheres na prisão de Abu Ghraib, que a eles ao menos seja dado o direito à preservação de sua imagem, aquela mesma que já foi devidamente jogada no esgoto junto com sua dignidade.

Essa é a minha posição. E quanto a ela, nada de dúvidas.

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______________
1 Soube de uma recente reportagem de televisão que mostrou a dura rotina de pacientes à espera de órgãos que lhes salvariam a vida. Trata-se de uma situação completamente diferente da que descrevi, já que envolve o explícito interesse dos próprios pacientes em promover a doação de órgãos, sabedores que são sobre o desconhecimento e os preconceitos em relação ao tema. Não vejo nisso exploração hipócrita e cínica da matéria. Para marcar posição sobre isso, afirmo que caso eu mesmo fosse um paciente à espera de transplante, possivelmente topasse abrir mão da minha (caríssima) privacidade se avaliasse positivamente os benefícios pessoais e coletivos de uma atitude dessas.

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19 respostas para Sem dúvida nenhuma

  1. Nat disse:

    Perfeito, Ricardo. Concordo plenamente, sem dúvida nenhuma.

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  2. confetti* disse:

    rc,

    eu ja diria ” todas as duvidas sao permitidas”…nunca tenho certeza
    de como abordar a notícia; a verdade; a transparência; o justo; a valorização do humano; o espetáculo; o gozo, um gozo perverso; o lucro com a dor alheia (que quase dá no mesmo); o império da desumanização….

    a unica coisa sobre a qual nao tenho absolumente duvida, é o respeito…et encore…

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    • Ricardo C. disse:

      Confetti, dúvidas sinceras, que incitam à reflexão, são importantíssimas, e disso tb não tenho dúvidas! 😉

      No verdade, pensamos igual. Isso pq a questão sobre o respeito não é posta em dúvida por nenhum de nós dois. Os exemplos que levantei avaliam um pouco o quanto ele acaba posto de lado, às vezes até com boas intenções por parte dos envolvidos. Mas isso não basta, é preciso não deixar essa premissa de lado.

      As diferenças culturais entre Brasil e França não constituem problema. São isso, diferenças, e às vezes elas podem ser úteis para enxergar uma situação por ângulos incomuns para nós. Na questão do sigilo em relação às vítimas desse acidente, por exemplo, encaro o jeito francês de maneira muito mais positiva do que a forma como tratamos disso no Brasil, mesmo com o risco de que alguns aspectos (que talvez devessem tornar-se públicos) acabem também sendo escondidos sob o manto do respeito. Avaliar as dúvidas em relação a isso é importante, diria que fundamental.

      Beijos

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  3. Pax disse:

    Caro Ricardo,

    Monsores, o bom Monsores, colocou alhures uma questão: “qual o limite da crueldade”. Fiquei com meus botões curioso por entender mais. Comecei pela definição de crueldade, do próprio verbete, que é: “Característica ou condição do que é cruel; prazer em derramar sangue, causar dor” – dicionário Houaiss.

    E aí me lembrei que já havia lido um pouco sobre isso, pra variar, orelhadas por aí das minhas andanças…

    E fui googar. Claro. Alhures coloquei algumas das passagens que achei. Aqui coloco algumas delas e outra. Enfim, somos cruéis. Gostamos de sangue. Infelizmente é uma verdade. Ok, também não concordo, mas…

    Alguns pontos para olharmos no espelho da humanidade:

    “Muita gente seria capaz de matar um homem para se apoderar da gordura do morto e untar com elas as botas.”

    (Schopenhauer, Dores do mundo. Ed.: Edições e publicações Brasil)

    “ver sofrer; faz bem; fazer sofrer melhor ainda: ai está um duro princípio, mas um principio fundamental antigo, poderoso, humano, demasiadamente humano”

    (Nietzsche – Crepúsculo dos Ídolos. São Paulo: Escala)

    “Desde os primórdios, o Homem procurou meios de criar artifícios para o agrupamento. Entre eles estão a música, as artes e a religião, utilizadas em momentos festivos. Os momentos de festa possuem várias conotações: desde a comemoração pelas colheitas até o ato de tripudiar o inimigo derrotado. A festa ocorre, portanto não só porque o Homem é capaz de se alegrar, mas como recurso ou meio para significar algo. Festeja-se a colheita bem sucedida, e isso dá alegria pela certeza da fartura, ou o inimigo vencido, pela certeza de não ter sido derrotado. Uma demonstração da festa como comemoração pela derrota do inimigo pode ser lida nos contos 22 e 23 da Ilíada (HOMERO, [1980?]), quando Aquiles arrasta o corpo de Heitor e clama pela glória de ter morto o príncipe dos troianos.”

    http://www.webartigos.com/articles/13429/1/uma-antropologia-da-cultura-ii-o-homem-que-realidade-e-essa/pagina1.html

    Ou seja, o Coliseu continua. Tão simples quanto isso.

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    • Ricardo C. disse:

      Civilização ou barbárie… No fundo ambas estão em constante tensão, e não há “pureza” em nenhuma delas, nem tampouco a possibilidade de alguma “sair vitoriosa”. Mas ainda assim avançamos bastante, e como espécie somos capazes de reorientar pulsões mais destrutivas e o gozo com o sofrimento alheio. Isso faz diferença! O nosso ceticismo deve funcionar como “ferramenta civilizatória”, e não como um grande ” que se foda, basta que eu goze e pouco me interessa o resto”. É nessa perspectiva que escrevi o post, correndo o risco de soar moralista, no pior sentido da palavra.

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    • Ricardo C. disse:

      Faltou um P.S.: o teu trabalho com o PolíticAética segue a mesma direção dos meus argumentos, Pax! 😉

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  4. Pax disse:

    Não achei o teu post moralista, pelo contrário, achei que foi em direção à essa constatação antropológica do prazer na crueldade.

    E concordo que já andamos um bocado nesse “ordenamento”.

    Mas falta um outro bocado. Basta ver que a indústria da guerra está sempre em alta, que a pedofilia existe, que o racismo idem, enfim, andamos, mas o caminho é longo e duvidoso.

    Somos cruéis, paramos pra ver o corpo destroçado por um atropelamento… os jornais vendem como água quando cai um avião no meio do Atlântico. É uma dura realidade estudada pelos filósofos, antropólogos, psicólogos etc.

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  5. Monsores disse:

    Bem, senhores, lá vou eu com o velho papo da falta de tempo.
    Fazer o que, é a minha vida.

    Ricardo e Pax, gostaria de discutir mais sobre esse assunto com vocês. Concordo plenamente com seu post, Ricardo. Inclusive registrei isso lá no PD. E Pax, me desculpe. Duplamente. Por não ter avançado na discussão lá no tópico do Pandorama e por não poder alongá-lo aqui também. Seus acréscimos foram ótimos.

    O bom da internet é que as coisas ficam registradas. Volto assim que essa minha vida maluca permitir.

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    • Pax disse:

      O Ricardo vai me perdoar, mas essa não pode passar assim, em branco,

      Monsores, titica quando a gente mexe, fede. Quando fede, a gente lembra. E quando lembra a gente pode pensar em falar de “abandono de amizade”.

      Então, caro Monsores, melhor não mexer no assunto.

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    • Ricardo C. disse:

      André, seguindo os passos do Pax, não tem desculpa. Te vira, meu camarada, faça o favor de alimentar as amizades com as tuas ponderações, viu?

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      • Monsores disse:

        Meu amigos Pax e Ricardo, perdoem-me.
        Faço o melhor que posso, acreditem.

        Nenhuma crise nunca abalou tão fortemente as estruturas por aqui. De tão preocupado, tenso, e cansado que estou, nunca consigo discutir um argumento sem esquecer de escrever um monte de coisas. Fica fraco, sem sentido, irrelevante.

        Talvez vocês se lembrem que ano passado eu dizia que esse ano ia tirar o pé do freio. Só não contava com seis meses de grande prejuízo financeiro.

        Foda, senhores. Foda.

        Abração

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  6. Aline disse:

    Concordo, concordo.
    Senti esse espetáculo da dor em todas as tragédias dos últimos anos, nas quais a participação da mídia me deixa cada vez mais enojada. O assassinato da Eloá, ano passado, foi absurdo. E agora esse, com a romantização das biografias das vítimas e a celebração do alívio e da sorte das quase vítimas. Acho que nos falta maturidade mesmo, pra lidar com a morte e a dor alheia.

    abraço

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    • Ricardo C. disse:

      Isso para mim é pornografia, Aline, naquela acepção antiga — vulgar e negativa — que o termo costumava carregar. Tanto quanto as vidas que se foram, isso me entristece, deveras me entristece.

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  7. Nhé! disse:

    No caso das vítimas de acidentes ou pessoas que faleceram e tiveram seus órgãos doados, essa exposição da situação, às vezes penso que alguns familiares estão tentando apenas homenagear seus entes queridos. Não sei, acho que no calor da situação, aquele momento em que não se aceita a morte, alguns apenas querem falar “olha, morreu, mas tinha tantos sonhos…” uma tentativa desesperado por manter vivo quem já se foi.
    É triste.
    Mas eu não compactuo com essas atitudes. Não me sinto no direito de invadir a vida dos outros e nem ter a vida invadida por eles dessa maneira.

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    • Ricardo C. disse:

      Nhé!, estou certo de que se trata, quase sempre, de tentativas de lidar com a dor, que serão boa parte das vezes tentativas atabalhoadas, em condições extremas, portanto compreensíveis, como vc sugere. A questão é que esse direito deve ser de mão dupla, e que a tentativa, por parte dos que perderam alguém, de estender a vida do morto através da relação com o vivo que recebeu seu órgão não pode ser imposta aos transplantados, e muito menos tratada como regra, no máximo como exceção. A regra deve seguir sendo que os diretamente envolvidos tenham direito de escolha, e não que esse direito lhes seja vedado…

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  8. São Obama tá errado. Se prevalecesse essa mentalidade na Segunda Guerra Mundial, não teria havido um filme ou livro sequer sobre o Holocausto e a privacidade e o respeito dos nazistas é que teria sido preservada.

    Em Guantánamo e Abu Graibe é a mesma coisa: tem que mostrar o soldado americano, o capitão América, o combatente da liberdade, o defensor do estilo de vida americano, a Liga da Justiça e os X-Men enfiando cacetete no ânus dos outros e tirando fotos e filmando tudo para fazer upload na internet, porque o que São Obama não quer mostrar todo mundo já viu nos YouTubes e BitTorrents da vida, graças a Deus que inventaram a internet e o internauta.

    No caso do avião, essa palhaçada tem o único objetivo de desviar a atenção do jornalista do trabalho que ele deveria estar fazendo. O editor pede o nome das vítimas, a foto posada, o gás lacrimogêneo. Enquanto o panaca sai atrás dessas besteiras, a companhia aérea, a companhia de seguros, o fabricante do firmware, e todo mundo que tem responsabilidade no desastre vão tendo todo o tempo e a privacidade do mundo para ocultar provas, corromper testemunhos, elaborar uma versão tão falsa quanto convincente sob a forma de nota oficial.

    Ou você já esqueceu do caso daquele avião da TAM que passou da pista?

    Finalmente, quanto ao doador de órgãos, não se esqueça de que somos uma nação de quase 200 milhões de telespectadores de telenovelas… E isso basta para compreender todo o resto.

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    • Ricardo C. disse:

      Alexis, vamos lá:

      1) as fotos de Abu Graib: vivemos em tempos onde o explícito é a regra, e esconder seja lá o que for é a exceção. Não há conflito que não seja filmado, gravado, fotografado, e há convenções que tratam disso. Claro que guerras anteriores deram o pontapé inicial para essas convenções, e a 2ª GM e a guerra do Vietnã foram muito importantes para tal — além do surgimento de cortes internacionais para crimes de guerra, que antes não existiam. A questão de Abu Graib, para a qual não tenho posição definida, terá esse material fotográfico anexado aos processos, é claro, e deveria ser objeto de análise por essas cortes internacionais tb. Mas sua divulgação ao grande público não me parece tão fundamental como nos casos das duas guerras que citei, justamente porque o contexto histórico é outro e, do ponto de vista prático, não fará a diferença que fez a universalização das imagens atrozes da 2ª GM e do Vietnã. Resumindo: assim como no caso dos parentes de passageiros do voo 447, que tiveram o direito de vetar a divulgação dos nomes dos mesmos, penso que quem sofreu os abusos deveria ao menos ter o direito de vetar a publicação de imagens de seus corpos vitimados por abusos. Defendo um princípio, não uma regra draconiana, absolutista.

      2) No caso do desastre do Airbus da Air France, pelo menos nas cortes europeias, o processo de indenização não tardará como aqui — leia-se desastres da TAM (Fokker e Airbus) e da Gol —, e a questão da atribuição de responsabilidades — fabricantes do avião, de aviônicos, de turbinas, órgãos de aviação, companhia aérea etc. — não atrapalhará o grosso dessas indenizações, que estão vinculadas às companhias de seguros, até onde sei. E mais do que esconder, interessa encontrar as razões do acidente, sob pena de afetar todo o setor de aviação civil, o que seria muito mais oneroso do que identificar o que ocorreu com esse único desastre. É evidente que tem gente se borrando de medo e doida para que o seu setor não seja o culpado, mas mesmo assim, as discussões no mundo inteiro — há fóruns especializados fervilhando neste momento — seguramente impedirão que as coisas permaneçam em segredo. Como vc mesmo disse, “graças a Deus que inventaram a internet e o internauta”.

      3) Já falei claramente sobre a questão dos doadores e receptores de órgãos. Na nota de rodapé, fiz menção a reportagem com pessoas à espera de órgãos no Brasil, e nada tenho contra isso, sobretudo porque esses pacientes certamente foram voluntários para tais matérias. O que não pode, repito, não pode acontecer é forçar uma relação entre parentes do doador e pacientes transplantados, e muito menos torná-la pública. Isso é circo de horrores, gera consequências dramáticas para as partes. O público? Ora, há muitas outras matérias e campanhas mais eficazes para aumentar as doações sem a necessidade de expor os que receberam um órgão e agora querem viver a sua vida em paz. Claro, se quiserem tornar público o seu drama, ponham-se de acordo receptores (e família) e familiares dos doadores, depois é só chamar a produção do Fantástico.

      É isso.

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