Amigo

.

.

[Arte: Sizenando, um presente e tanto!]

.

Além de laço de cadarço, só conhecia nó cego. Foram quatro, um para cada mão e pé, todos bem firmes na cadeira. Deu tremedeira, um cagaço danado de algo sair errado, então resolveu checar. Todos corados, ufa!, bom não ter que afrouxar. E a mordaça, a respiração vai bem? Parece que sim. Pingou uma gota de descongestionante em cada narina, só para garantir.

Matutou tudo durante três meses, o monólogo inclusive. E o danado até ritmo tinha. (Na cabeça dele, pelo menos.) Quebrá-lo por questões que ele chamaria de técnicas seria uma frustração do cão, imagine só aquela trabalheira inteira no lixo. (A tripa enrolou só de pensar.) Aliás, daquilo tudo, só descobrir o endereço do amigo é que foi fácil. A grana da viagem não, essa veio suada. Empréstimo a pagar em doze parcelas, a gerente do banco jogo duríssimo. (Quase boa, essa gerente; boa, só se negasse.) A passagem, também à prestação. Parte do dinheiro, que nem era tanto, virou um mapa detalhado do Eixample, três diárias no hostal mais fuleiro que pôde achar, sete metros de corda, comida em lata, uma cafeteira elétrica e vários litros de água mineral (com gás).

Tentou cochilar algumas vezes. Mas e o medo do amigo acordar de repente naquele quarto estranho, preso numa cadeira dessas bem pesadas e metidas à besta, veludo e taxinhas douradas nos braços, e ainda por cima descobrindo no susto que era ele o seu captor? Queria estar inteiro, receava não dar conta de fazer tudo funcionar de acordo. Mas o café estava ali para isso mesmo, meio litro bem forte e ele estaria tinindo.

Esperou clarear.

— Calma, não se assuste — frase idiota, porém eficaz, pelo menos por encerrar os gemidos e diminuir os inúteis esforços do preso para soltar-se daquela cadeira; e, por outro lado, para que começasse logo a entender que merda era aquela. — Não fique tentando sair, você só vai é se machucar. Guenta aí que eu já volto, vou pegar um café pra gente. Fiz bem forte, mas se quiser eu ponho um pouco d’água no seu.

Os olhos do preso desesbugalharam um pouco, meio por conta de perceber, no absurdo da cena, tratar-se do Nestor, nove anos depois de tê-lo visto pela última vez; e que provavelmente dali a algumas horas, assim que o filho da puta terminasse de se explicar, daria uma porrada bem dada nele. Uns três socos, no mínimo, o terceiro só por conta do guenta aí que eu já volto.

— Vou te dar um copo d’água primeiro, faz um tempão que você não bebe nada. Vou tirar a mordaça… pronto. Só não perca tempo tentando gritar. A gente tá longe de tudo, não tem ninguém aqui pra ouvir. Vai o café? Devagar… tá quente… assim. Mais tarde eu faço outro, não aguento ficar muito tempo sem tomar uma xícara. É, imaginei que você não falaria nada, nisso não mudou tanto assim. Melhor pra mim, não tô muito contente de tapar a sua boca só pra garantir que vai ouvir até o fim o que eu vou dizer. Mesmo assim vou pôr a mordaça mais um pouco, pelo menos no começo, posso?  …  Bom, pra início de conversa, desculpe. Mas não pense que vou ficar pedindo de novo, foi só por conta desse jeito que arrumei de você me ouvir. Meio radical, concordo, ou radical e meio, tá escrito isso na sua testa. Tudo bem, fique puto à vontade, direito seu. Mas entender eu sei que vai.  …  Anos, cara, anos que você sumiu. Éramos irmãos, porra, você não tinha esse direito. E nem dá pra comparar, o meu caso era diferente. Eu não podia mais ficar por lá, você sabe, eles não iam renovar mais o meu visto, era mais do que certo. E você e a Leila organizaram aquela puta festa de despedida, lembra? Me pegaram de surpresa, eu não esperava de jeito nenhum.  …  Acho que demorei uns dois ou três meses até me aprumar e a gente voltar a ter notícias um do outro, não foi? A merda é que ligação internacional era caro pra burro, além de nenhum de nós ter lá muito saco pra escrever. Pré-internet era foda, difícil de lembrar como era a vida da gente sem ela… exceto pra você, claro, que nem a porra de um e-mail quer ter, vá ser tecnofóbico assim na casa do caralho! Mas até que a gente se falou algumas vezes, e quando não era por você, dava pra acompanhar um pouco pelo resto do povo: a Sílvia, o Chico, o Luis e a Leila. Aliás, principalmente a Leila. Turma boa, a nossa, só quando consegui passar de novo uns dias por lá é que vi a falta danada que eu sentia de todos.  …  Você sabe que eu vou falar da Leila, né? Não, não ficou tudo cem por cento resolvido. Naquela viagem só nos encontramos dois dias depois que cheguei, e eu tava tão eufórico que nem te ouvi direito quando contou que tinha trepado com ela. Tá certo, eu também não ia saber o que dizer se estivesse no teu lugar, mas agora isso não importa. Tenho certeza que, enquanto você contava as tuas putarias, viu direitinho que aquilo tava me incomodando, mesmo eu tentando disfarçar por trás daqueles “e aí, como foi, conta, ela é tudo aquilo que a gente imaginava?, onde vocês treparam?, cacete!, em cima da mesa da sala dos professores?!, vocês são foda!, a sacana me viu e nem disse nada” …  E do meu jeito Polyanna, ainda pensei “tudo bem, eu fui embora mesmo”, e que pelo menos ela deu foi pra você. Nas duas semanas que passei na tua terra a Leila tava tão, mas tão radiante, que toda aquela felicidade acabou baixando um pouco o meu ciúme. Eu nem sabia muito bem o que estava sentindo, essa é a verdade. Só imaginava vocês fodendo em cima da mesa da sala dos professores, ela com a saia levantada e calcinha no calcanhar, clichê total, você tapava a boca da Leila, ela gemia pra cacete e o pessoal da limpeza quase pra chegar. Eu também ficaria nervoso. Imaginação é um troço escroto mesmo, não para na hora que a gente quer… e as pernas dela enroscadas na tua cintura, uma sandália caída no chão depois da quarta ou quinta enfiada, e o gosto, ah!, e o cheiro!, foi foda, cara, foi foda ouvir que você só lavou os dedos no dia seguinte, só pra continuar sentindo, e ainda fez o gesto. Mas eu disfarcei; mal, mas disfarcei.

Botou as mãos na altura dos rins e levantou a cabeça, olhos fechados, alongando o máximo que podia. Não demorou a perceber o sadismo do seu gesto, o outro lá, horas na mesma posição.

— Vou afrouxar um pouco as tuas mãos, mas não tenta fazer nada não, tá? Entenda, não tô aqui de brincadeira, esse trabalho todo não foi à toa. Agora estique e encolha os dedos. Vai formigar um pouco, já já passa. … Bom, de volta ao assunto. Depois de uns meses vocês começaram a namorar, a Sílvia me contou. Foi ali que a ficha caiu. Aquilo que eu senti não foi ciúme não, cara. Foi inveja, inveja e raiva. Raiva porque me faltou culhão pra tentar alguma coisa com a Leila na época em que a gente se conheceu; e inveja de saber que você tinha esse culhão.  …  Mas torci, meu irmão, torci pra cacete pra que vocês fossem logo morar juntos, casassem, tivessem uma penca de filhos, tudo pra tirar o peso da minha covardia, acreditar que os dois teriam juntado os trapos mesmo, e que nada que eu fizesse mudaria o rumo das coisas. A distância ajudou, não nego, foi bem mais fácil com esse tempão sem nenhum de nós três se falar. Mas calhou de eu saber, sei lá por quem, que você tinha ido embora. Tem ideia do que isso queria dizer pra mim, hein?, hein?! Puta que pariu, cara, sem a Leila?!

Respirou fundo, três vezes, três também os círculos que deu ao redor da cadeira, fazendo hora para que as veias do pescoço parassem de corcovear. Foi até o banheiro e pegou os dois copos em cima da pia, dividindo por igual o que sobrara de uma das garrafas de água mineral. Enquanto abaixava a mordaça, perguntou ao amigo se queria.

— Me solta, preciso mijar.

— Agora não.

— Me solta, caralho, não tô mais aguentando!

— Então mije nas calças.

— Por quê? Por que você está fazendo isso?!

— Mije.

Aos poucos a calça mudou de cor e uma poça se formou embaixo da cadeira. Não muito grande, por certo; a maior parte o veludo segurou.

— Vambora, tome logo a água. Tá quente aqui, não quero que você desidrate.

Abriu a boca, mas não disse nada. Deixou que a água oferecida escorresse garganta adentro, cara de derrota. (Cuidadoso, o Nestor. Não deixou derramar uma só gota no amigo.) Seu captor bebeu do outro copo, em pé, diante dele. Depois virou-se, apontando para a parede às suas costas: — Pode marcar naquele relógio. Mais dez, no máximo quinze minutos, termino — disse, a perna direita da calça escurecida, como que restabelecendo um equilíbrio perdido, e a poça no carpete três vezes maior.

— Voltei pra tua terra outra vez. Vi a Leila, outra vez. … Ouvi a versão dela. A única, pois de você, zero. Eu lá, cheio de saudade, feliz da vida, doido pra saber de todo mundo, e ela me solta, do nada: “Quer saber, Nestor, a minha história com ele nunca rolou, ele não quis”. Gravei o que ela falou, meu velho, tá tudo aqui — dois toques secos na testa —, aquela conversa fodeu tudo. Não vou tentar imitar a voz dela, mas agora faz de conta que sou a Leila e que você sou eu, sentado na minha frente, e eu, Leila, te digo: “Me apaixonei de verdade, Nestor, mas nada do que eu fizesse dava conta do rancor dele, só podia ser rancor. Ele nunca deixou que eu chegasse perto. E o tom, Nestor, e as caras que ele fazia. Era como se dissesse o tempo todo que eu nunca o entenderia, como se eu fosse uma burguesinha filhinha de papai e ele um proletário injustiçado, sozinho no mundo, e que o que eu sentia por ele era pena, só podia ser, e que ele me odiava por isso. Tudo com o olhar, Nestor, tudo com o silêncio. Nem demorou muito pra eu murchar, me sentir feia, burra, além de tudo uma escrota. E claro que a culpa era minha, só não sabia direito de quê.”

Parou na Leila. Baixou a cabeça, olhos fixos na mão direita, fechada. Tremia. Outra vez a raiva. Precisava livrar-se dela, podia estragar tudo. Voltou-se para o amigo, estranhando-lhe os olhos. Pareciam alheios. Ou indiferentes. Talvez altivos, não dava para ver direito. Indefiníveis, no fim das contas. Incômodos. Sim, incômodos. (Bosta.)

— Você pisou na bola com ela, feio, e eu embarquei. Fiquei puto contigo, tinha tudo pra ser diferente. Mas não era nada disso, eu é que não tinha entendido nada. Bastou um dado, unzinho só e tudo mudou. Sabe o que a Leila falou no fim da conversa? “Preciso te dizer uma coisa, Nestor, uma coisa que a Sílvia me contou. Assim que ele soube que você vinha pra cá, parece que surtou, ficou repetindo puta que pariu, o Nestor vai ficar com a Leila, ele não pode!, ele não pode!!”

Tirou-lhe a mordaça e sentou no chão, encostado na parede. O relógio acima, à direita, fazia a hora correr devagar. Exausto, vinte anos mais velho, dobrou as pernas, os braços apoiados nos joelhos, a mão direita displicente. A cabeça do amigo começou a fazer movimentos circulares, os dedos das mãos repetindo aquele encolhe e estica, a circulação de volta. Algumas caretas, a língua por fim solta, quieta por opção. Os dois suspiraram ao mesmo tempo, quase um sinal de trégua. Sorriram cansados.

— Pelos velhos tempos — disse Nestor ainda com os dentes à mostra, logo acanhados por mais outro olhar indefinível. — Tempos mortos. Morreram com teu “ele não pode!, ele não pode!!”

Olhou para o relógio, ainda tinha seis minutos dos quinze programados.

— Você não queria a Leila. Você quis o que eu queria; você quis porque eu queria. A razão mais antiga, o motivo mais primário e mais babaca da humanidade, e era você, eu não queria acreditar, não podia ser você. A minha vida, cara, você queria era viver a minha vida, e resolveu começar pela Leila. A merda é que pra isso eu tinha que lutar, você precisava que eu também batalhasse. Porque ficar com ela sem briga fazia tudo virar esmola, vamo lá, pessoal!, vamo dar logo dois por cento de abono pra esse porra de proletariozinho injustiçado! … Você não ia aguentar, e não aguentou mesmo. Largou a Leila, abandonou tudo e veio parar aqui. … Ainda não entendeu nada?, não sacou a ironia? Então vou te explicar: eu nunca lutaria contigo. Nunca. Você lá, obcecado, querendo o meu lugar… mas eu já tinha entregado tudo, nada daquilo me pertencia, eu não era nada, eu era um nada, toda a minha vida era alugada, eu simplesmente tava ali de favor. Tudo era teu, cara, há muito tempo, entendeu agora? Eu é que queria ser você, porra, eu!

Levantou-se, foi até o quarto e voltou com uma mochila. Sentou novamente, abriu o fecho ecler e olhou para dentro dela por uns dez segundos, se tanto. De lá tirou uma pistola, pôs ao lado da perna direita. Os olhos do amigo fixaram-se nela, tensos, mas nem com a arma ele soltou um ai.

— Tô cansado.

Pega a pistola e fica outra vez de pé, perto da cadeira.

— Você queria a minha vida — balança a arma —, mas ela era sua faz tempo — desata o nó de um dos braços —, bastava viver e pronto. Eu assistiria a tudo, feliz, pois seria você, cara, você! — agora o outro. — Por que jogou tudo fora? Por que simplesmente não tomou posse? Por quê?! — o amigo ainda sentado, ainda em silêncio. — Nove anos, cara, nove anos no limbo. Vim pegar de volta.

Um tiro só, dois minutos antes.

.

Sobrava um resto de carga na bateria. Código do país, da cidade, oito números, triiim, triiim, triiim. — Alô? É, Leila, sou eu mesmo. … Muito tempo, eu sei. … Preciso te dizer… sim, é sobre o Nestor.

Anúncios
Esse post foi publicado em literatices e escrivinhações e marcado . Guardar link permanente.

Uma resposta para Amigo

  1. Pingback: Amigo | Ágora com dazibao no meio

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s