Divagar é preciso

Há tempos não viajo. Creio que por conta disso me veio à lembrança o filme The Truman Show, e uma cena em particular. Truman, já certo de que algo muito estranho acontece em sua vida, “sai do script” e entra de supetão num edifício, dirigindo-se ao elevador. Como as portas se fecham antes que pudesse entrar, ele se dirige ao seguinte. Mais do que depressa, um funcionário da portaria vai em sua direção e Truman se vira para ouvi-lo perguntar “oi, posso ajudar?”, ao que responde “é, eu tenho um encontro na empresa Gable (ou coisa parecida); e enquanto o funcionário rebate que é “impossível!” ele se vira na direção do elevador, mas… espanto, o elevador não está lá! Só algumas pessoas, pegas de surpresa, que rapidamente tratam de colocar “no devido lugar” o que pareceria as paredes do elevador…

Na adolescência, a questão do que seria esse mundo que percebemos como sólido, estável, constante, enfim, real, costumava intrigar-me. Afinal de contas, qual seria a nossa participação pessoal na configuração do mundo? Isso porque recordo, por exemplo, de alguém ter dito que um touro não enxergaria a cor vermelha, e que, nas touradas, na verdade ele seria atraído pelo movimento da capa. (Ah, se alguém quiser corrigir a informação, sinta-se à vontade. Não creio que seja tão relevante para mim, por isso não vou conferir se é verdadeira…) Em todo caso, parece que o mundo visto por um touro seria mesmo outro. E no nosso próprio (e humano) caso, contamos com aquelas velhas leis de organização da Gestalt, entre elas o fechamento, que mostra como acrescentamos a uma figura partes que “faltam”, de maneira que ela faça sentido para nós. Não sei por que cargas d’água, mas naquela época eu fiquei com uma imagem na cabeça, provavelmente fruto de alguma aula de física na escola que se misturou com os meus devaneios. Nessa imagem, todos nós enxergamos o tal mundo estável, organizado, com objetos próximos e distantes, suas fronteiras bem demarcadas etc., como sói acontecer. Mas e se isso só acontecesse diante de nós? E se diferentemente do que ocorre, nós conseguíssemos virar de costas numa velocidade cem vezes maior do que o comum? Numa proporção bem mais complexa do que o que ocorreu com o personagem de Jim Carrey, será que não conseguiríamos ver, nem que fosse de relance, um universo de puro caos que num átimo se organizaria para mostrar-se do jeito que o vemos cotidianamente? Será que, no fundo, somos todos um bando de Trumans?

É, há tempos que não viajo.

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15 respostas para Divagar é preciso

  1. Monsores disse:

    Took the red pill?

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  2. Colafina disse:

    Báh!
    Essa foi da boa…
    Se não sobrou nada, manda pelo menos a receita…

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    • Ricardo C. disse:

      Como você é mais adepto do que é natural, orgânico, tenho duas:
      1) ayahuasca (mais fácil de conseguir, embora seja preciso prepará-la); e
      2) peiote (de preferência comê-lo verde)

      Depois conte pra gente se somos ou não somos um bando de Trumans, tá?

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  3. Luiz disse:

    Só para constar: The Truman Show é muito menos reconhecido do que deveria.

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    • Ricardo C. disse:

      Sou da mesma opinião que você, Luiz. Acontece que é um filme com todos os elementos do cinemão comercial, daí que as pessoas não percebem filigranas, subtextos e discussões que o roteiro levanta, né?

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  4. confetti* disse:

    the truman show ? divagou mesmo rc…

    viajando com vc, me pergunto : pq ali no “traffic feed” eu estou acessando de
    “Sourcieux-les-mines, Rhone-Alpes” ? na verdade, estou com o mesmo dell, no joelho, esparramada no mesmo canapé de sempre, em paris …rhone alpes é la pros lados de lyon…isso aqui ta parecendo um elevadorr…

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    • Ricardo C. disse:

      Vc acha que Truman Show não tem qualidades para além de um filme pipoca, Confs? Ou é a questão da viagem mesmo, sobre ser maluquice essa associação que fiz?

      Por outro lado, esse traffic feed nunca me pareceu muito confiável mesmo, fica só de pinduricalho.

      Bjs, querida, bom resto de domingo pra vc!

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      • Colafina disse:

        E bota “…nunca me pareceu muito confiável mesmo, …” nisso!
        Já tive instalado simultaneamente os 3 ‘traffics’ iguais aos seus, e lembro de um mesmo acesso aparecer num deles como sendo de Portland, noutro como sendo de Edmonds (nos Esteites) e no terceiro como sendo de Vancouver (Canadá). Pela origem do acesso, e como tínhamos amigos morando por lá, o local correto provavelmente seria Madras, perto de Portland.
        Realmente, uns penduricalhos bonitinhos… mas ordinários! 🙂

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      • Ricardo C. disse:

        No máximo vale pelo país, né? 😛

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  5. Nhé! disse:

    Incrível. Esse filme passou no domingo, 31. Eu vi justamente essa cena! Tá, vi um pouco mais além… hehe!
    E fiquei remoendo esse tema. Ontem, segunda, 1, estava lendo um debate sobre tratamento de esgoto (não vou me alongar sobre o esgoto), mas um dos debatedores estava propondo um exercício de imaginação.
    Sei lá, eu vi uma ponte nos temas, imaginei a cidade do trumam, onde tudo funcionava tão bem e o esgoto… enfim… do quê se tratava o post mesmo?
    🙂

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  6. confetti* disse:

    rc, pelo contrario, eu curti demais “truman show” ! ja revi varias vezes, tenho o dvd, ja estou naquela fase de tirar o som e ir so curtindo o jogo de ator de jim carey, como ele reduziu a velocidade de seu corpo em cena, ele que nao parava de se mexer bruscamente, de dar breaks, de virar a cabeça em todas as direçoes…resultado das comédias loucas de seu começo de carreira ;

    ele continuou na “contençao” corporal em “eternal sunshine of the spotless mind”…esse cara é um ator que cresce à cada filme, amadurece, se adapta…gosto, muitissimo

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    • Ricardo C. disse:

      Que bom que eu tinha entendido errado, Confetti, porque a minha opinião é muito parecida com a sua. Pena que as oportunidades para papéis mais sérios sejam poucas, né?

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  7. confetti* disse:

    rc, fiquei surpresa quando vi que vc nao tinha entendido meu primeiro coment sobre “truman show”…alias, esses ultimas dias tenho sido mal-interpretada inumeras vezes ! acho que preciso rever minha comunicaçao escrita…pois quando me parece ter expressado claramente alguma coisa, ela volta como um boomerang ! talvez seja minha distancia da lingua portuguesa, as vezes “escrevo” com “estrutura” de frase francesa e deve mesmo ficar incompreensivel…

    quando chego ao brasil, preciso sempre de alguns dias pra “adaptar minha linguagem” e conseguir comunicar normalmente com as pessoas; veja so essa anecdota : em janeiro ultimo estive varias vezes em farmacias dai, tentando comprar um “hidratante para os olhos”…me propunham cremes e quando eu falava em colirio me olhavam como um ovni : “colirio hidratante” ??? ai eu falava em “lagrimas artificiais”, entao o pessoal quase me expulsava do recinto ! kkk*
    bref, eu so queria comprar o “lacrima plus”, aquele colirio lubrificante…mas essa palavra eu so lembrei semanas depois….

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