Fora da nova ordem mundial**

Aguardei essa foto por mais de uma eternidade. E só depois que chegou comecei a processar parte do que pensara quando soube da história em torno dela.

Para começar, a dúvida sobre ser um ponto ou um acento agudo aquilo que aparecia em cima do “i” de Francis, o único que assinou sua carteira de identidade. E a confissão de ter tido um certo pudor ao ver sua assinatura, o éfe com jeito de tê, a ligeira inclinação das letras para a esquerda. (Será que ele é destro?) Pode que não se importasse de ver sua letra exposta por aqui, mas se eu estivesse em seu lugar, garanto que me importaria. Nesse caso, melhor não deixá-la à mostra. Por outro lado, me chateia não saber como se chama o senhor que aparenta ser mais velho. Tem algo de descortês falar de alguém sem sequer poder chamá-lo pelo nome. O que sinto, porém, é totalmente irrelevante. Vale é a história deles.

Antes de mais nada, a foto com essas duas cédulas de identidade circula mundo afora desde o ano de 2005, se não me falha a memória. É por isso que me atrevo a reproduzi-las aqui. Conheço quem as retratou e sou muito amigo daquele que as mostrou pela primeira vez em público, num congresso internacional de medicina. (E bato demoradas palmas para ambos.) Porque mesmo que eu não tenha dito nada ainda, a esta altura do campeonato duvido que alguém não tenha notado que o Francis com ou sem acento no “i” e o senhor que aparenta ser mais velho têm algo em comum, e fica no pescoço, do lado direito: trata-se de um cateter venoso central, um acesso temporário para a hemodiálise que em algum momento de suas vidas ambos descobriram precisar. (Tentei dar mais destaque nos 3X4 aí ao lado.)

Sim, são dois sujeitos com insuficiência renal crônica; e não, este não é um post sobre a doença, pelo menos não especificamente sobre ela. Estatísticas sobre sua incidência, diagnóstico, tratamento, taxas de mortalidade e aspectos correlatos  ficam de fora, devo avisar. Em compensação, ainda há o que dizer sobre os dois cidadãos dessas fotos. E cortando o clima, vou logo avisando: a pista está na frase anterior, na maneira como os nomeei.

As cédulas de identidade são de Sergipe. É mais um dado que ambos têm em comum, mas não o último. Baixa renda e analfabetismo — funcional, no caso do Francis com ou sem acento no “i” — são outros dois. Mas em meio a tanta restrição, o que haveria de positivo a destacar?

Cidadãos, eu disse. Pode que muitos não os vejam assim, mas aqueles que pensam desse jeito que se danem. A cidadania de ambos é reconhecida como tal pelo Estado: à raiz da doença eles passaram a ter identidade, CPF, e o Sistema Único de Saúde sabe bem quem são. Seu tratamento é custeado por todos nós, inclusive pelos que olham para eles com desdém. E aqui vai outro não: nenhum dos dois recebe esmolas, favores ou coisa que o valha, nem mesmo precisam dizer obrigado, embora sempre o tenham feito, nem que fosse por educação.

Poderia se dizer que foi por mau gosto do destino, só que seria hipocrisia pôr nos ombros dele as consequências desse nosso arranjo social perversamente excludente e iníquo. Mas o que vale é que mesmo pelo avesso, fruto de uma doença crônica, estes dois saíram da margem e enfim receberam o que sempre lhes foi de direito. É isso o que verdadeiramente importa.

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Da história que me contaram, esboço a cena. Ela se dá num congresso internacional de medicina, mais especificamente sobre nefrologia. Médicos, representantes da indústria farmacêutica e fabricantes de equipamentos hospitalares reunidos em uma ampla sala de conferências, discutindo em torno a números sobre pacientes, formas de tratamento, políticas locais e globais de saúde, e também sobre os valores astronômicos envolvidos, em dólar, euros e reais. E entre tantas palestras cheias de estatísticas, nomes de novos equipamentos e técnicas para terapias renais substitutivas, uma simples foto, no meio da apresentação em PowerPoint de um médico de país emergente, silencia a plateia. Os milhões de dólares em contratos para novos medicamentos e máquinas de última geração ficam inadvertidamente em segundo plano. E todos, eu disse todos, dão-se conta daqueles dois senhores, com seus catéteres à mostra, como dizendo-lhes “com licença, nós estamos aqui, sim, e agora queiram fazer o favor de nos respeitar”. E todos, ou quase todos, mesmo que por um instante, re-humanizam-se.

A minha imaginação tem muito de piegas, concordo. Mas desentorte a boca, vá, que essa indiferença no rosto te envelhece (e envilece), além de não assentar contigo — se essa for a tua expressão agora. Pois o Francis com ou sem acento no “i”, que nunca ouvirá falar deste texto, até onde sei está muito bem, obrigado, tocando sua vida cidadã. Pena não poder dizer o mesmo do senhor que aparenta ser mais velho, pois ouvi dizer que  faleceu, não sei a causa. Mas o certo é que antes do seu passamento viveu dignamente, tão cidadão quanto o Francis, você ou eu. E vale dizer que a minha pieguice e a minha tristeza, o sarcasmo e o desdém de alguns e mesmo a caridade de outros não tiveram sequer um pingo de participação nisso.

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Para terminar, logo depois de ler os parágrafos anteriores, um bom amigo me disse: “Sinceramente, não entendi onde esse seu texto quis chegar…”. Assumo como minha a dificuldade de me fazer entender, e respondo de maneira sucinta: que no meio de um tratamento médico, sem que ninguém tivesse pensado a respeito, houve inclusão social, resgate de cidadania; que o fato ocorreu sem que fosse favor, esmola ou qualquer tipo de caridade por parte dos bem-nascidos; e que isso é muito, muito bom!

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** Do refrão da música “Fora de Ordem”, de Caetano Veloso.

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8 respostas para Fora da nova ordem mundial**

  1. Diego Viana disse:

    Ricardo, você me fez lembrar de duas coisas, a primeira sendo aquelas tantas, muitas músicas plutôt antigas, que mencionam o “nao tenho documento, não tenho endereço”, e que retratam um Brasil ainda claudicante na tentativa de civilizar-se… e a segunda, o fato de que ATÉ HOJE o Estado não tenha se tornado capaz de integrar todos os brasileiros, nem que seja “no mercado”, mas na própria existência… sem contar que, nas nossas capitais, ainda existem uns 20% dos domicílios que simplesmente não têm endereço registrado, o carteiro não pode chegar, nem o médico, nem ninguém (normalmente, as pessoas reclamariam que a polícia não consegue chegar, mas se o médico conseguisse, a polícia provavelmente nem precisaria querer…).

    E, no entanto, como você mostra neste post, é tão simples…

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    • Ricardo C. disse:

      Uma sucessão de eventos, Diego, onde um simples documento faz uma diferença danada nas relações entre diferentes atores sociais. E sem desmerecer qualquer iniciativa sincera de ajuda ao próximo, de caridade e tb de filantropia, penso que há algo de perverso nelas, pois involuntária ou voluntariamente elas perpetuam esse estado de coisas, essa dissimetria, essa relação senhor-escravo ou incluídos-excluídos, onde os primeiros precisam eternamente dos segundos como sua razão de ser…

      O que aprecio nessa história é justamente como essas relações se rompem e como a inclusão é de todos, o respeito substitui o favor, a pena/piedade e a caridade, voltando ao seu devido lugar.

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  2. confetti* disse:

    fiquei meio sem saber o que dizer…
    mas fel na mamadeira é otimo !

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    • Ricardo C. disse:

      Por mais antenada que vc seja, Confetti*, algumas questões tão ligadas à injustiça social só nos são claras quando a gente as vê mais perto.

      Se bem que quando se está perto demais e sobreutdo por muito tempo, a gente acaba parando de perceber, né? 😦

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  3. El Torero disse:

    Isto aí Ricardo, é como se acostumasse, de tão calejado de ver pobreza que estamos.

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  4. Ricardo C. disse:

    Torero, tem razão. Criamos casca pra nos defender, e depois de um tempo deixamos de enxergar. O problema é quando junto com a casca solidificam-se preconceitos, fobias etc., contribuindo para manter tudo igual: contrastes sociais em níveis pornográficos!

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  5. Kleyton disse:

    Sua sensibilidade sensibiliza.
    Parabéns!

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