Joia

Já comentei em outro post a respeito do livro “Tabu do Corpo“, do José Carlos Rodrigues, e devo reconhecer que ele é um manancial de explicações para o que às vezes é (ou às vezes eu) deveras estranho. Então começo pelo fim, isto é, por citações do Tabu:

Não há, praticamente, sociedade que não fira de alguma forma o corpo de seus membros, havendo inclusive preferências que podem ser estranhas à primeira vista. Por que a coincidência largamente difundida no espaço e no tempo, da preferência pelas partes genitais? — perfurando ritualmente a uretra, na base do pênis, para controlar a fecundação (discisão da uretra); furando o prepúcio e introduzindo algum objeto que impossibilite as relações sexuais; ou costurando as paredes da vulva de forma a reduzir o orifício vaginal (infibulação); praticando a excisão do clitóris, ou procedendo à labiotomia; abrindo parcial ou totalmente a parte inferior da uretra peniana, de forma a fazer com que homens e mulheres assumam a mesma posição ao urinar;1 distendendo os lábios por meio de manipulação e outros métodos; escarificando-os de modo a colarem-se durante a cicatrização; praticando a circuncisão; a castração total ou unilateral; ou o desvirginamento ritual…Todas essas intervenções da comunidade sobre o sexo são maneiras de ela tentar controlar — agindo sobre o órgão — uma função cujo exercício deve responder pela própria continuidade da existência do grupo humano. Não têm, portanto, importância maior que a sociológica. Nesse ponto, a reprodução da espécie e a persistência das tradições sociais se encontram, e o sexo se transforma em um bom objeto para materializar os sentimentos da comunidade acerca de sua sobrevivência.

Portanto, nenhuma prática se realiza sobre o corpo, sem que tenha, a suportá-la, um sentido genérico ou específico. Não há razões para supor que as pessoas a elas se submetam a contragosto ou sem conformidade intelectual: aqui todos concordaram que o ladrão devesse ter a mão amputada; ali, que as mulheres que ultrajaram o marido devessem ter o nariz cortado; acolá, que os homens, diferentemente dos animais ou dos seres impuros, deveriam ser circuncidados, ou que as mulheres deveriam ter os lábios vulvares distendidos, para poderem ser consideradas belas e desejadas sexualmente como boas parceiras. Pelo contrário, essas ocasiões são normalmente aguardadas pela comunidade com uma certa ansiedade e recebidas, mesmo pelos seus pacientes, com alegria, já que significam a possibilidade de uma situação de dignidade maior, o ingresso em uma classe privilegiada, ou o restabelecimento da ordem das coisas.

[…]

É claro que as explicações utilitárias e instrumentais não bastam para nos fazer compreender a permanência e a difusão dessas práticas. Explicar, por exemplo, a circuncisão, por razões higiênicas, pela aversão ao cheiro do esmegma, pela necessidade de combater a inflamação prepucial, a fimose, o desenvolvimento da resistência da mucosa da glande, é produzir racionalizações que se destinam a legitimar uma prática sem dúvida muito anterior ao argumento. A origem dessas práticas é social, não havendo outro fundamento: são signos de pertinência ao grupo e de concordância com os seus princípios. (pp. 63-5)

Que os eventuais leitores deste post não pensem, a partir deste trecho, que o livro José Carlos Rodrigues relativiza a questão da MGF/E (Mutilação Genital Feminina/Excisão). Sua obra é um estudo antropológico, não um libelo a favor ou contra as práticas sobre o corpo perpetradas pelas diferentes culturas, não cabendo esse tipo de acusação. E de minha parte, vou logo avisando que sou totalmente a favor das campanhas contra a MGF/E. Dito isso, posso voltar ao meu estranhamento sobre certas práticas corporais, que com as facilidades da internet passaram a ser de domínio público. Refiro-me a um tipo de adorno de que só há poucos dias tive notícia: Joias Anais.2

É fato que a citação do livro trata de diferentes intervenções sobre o corpo, boa parte delas ligada à genitália, e todas com um forte apelo à questão da própria continuidade/existência/identidade das comunidades onde elas são praticadas. É fato, também, que a inventividade humana quanto à busca de novas formas de prazer com/para o corpo é inesgotável — e cada um que gerencie as suas preferências. Mas não sei bem em que dimensão comunitária essas peças se inserem — desculpem o involuntário trocadilho — e confesso que me é difícil reconhecer-lhes qualidades estéticas, ou mesmo a efetiva praticidade no uso de uma ou outra.3

Sim, considero-as de gosto duvidoso, admito. E talvez parte do “defeito” da minha visão sobre elas esteja na frase que aparece no último parágrafo da citação do Tabu do Corpo: “[…] as explicações utilitárias e instrumentais não bastam para nos fazer compreender a permanência e a difusão dessas práticas.” Mas sei também que reconhecer alguns dos próprios limites é parte do amadurecimento de cada um.

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______________

1. Há boatos de que alguns vereadores e deputados estaduais do Rio de Janeiro andam pensando em legislar sobre a matéria, na tentativa de lidar com o hábito de muitos cidadãos cariocas, especialmente durante o reinado momesco. Mas por enquanto seguem assim, boatos.
2. Não sei se o “mitológico e maldito livro do Luiz Biajoni” alude ao tema. Quem tiver lido sinta-se à vontade para comentar.
3. As três últimas fotos são de peças do joalheiro Julian Snelling. Creio, porém, que nome do seu sítio ofenderá um ou outro cinéfilo mais conservador: Rosebuds.

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10 respostas para Joia

  1. Biajoni disse:

    hmmm, não há citações desse tipo de coisa em SEXO ANAL, mas que é interessante isso, ah é.
    :>)

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  2. Darwinista disse:

    Será, e aqui vai um grande chute, que a existência desses artefatos não tem a ver com a necessidade de chocar mais e mais?

    A gente vai se dessensibilizando. Ver as fotos de alguém que tornou a língua bífida, que implanta chifres de silicone ou se pendura por ganchos que perfuram a pele pode nos chocar na primeira, na segunda, talvez até na terceira vez que olhamos. Mas depois a gente se acostuma.

    E aí, os adeptos podem pensar: “O que eu posso fazer mais pra chocar essa gente? Já sei! Vou colocar um relógio no ânus!”

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    • Ricardo C. disse:

      As modificações corporais são tão antigas quanto a humanidade, e quase sempre associadas ao sentido de pertencimento a alguma coletividade. O dado que suspeito seja mais recente é o do discurso da importância do indivíduo, mas que paradoxalmente precisa do coletivo para ser ratificado, nem que seja por essa necessidade de chocar de que vc fala, Darw. Vale então dizer que o impacto sobre os demais costuma mesmo ser um forte indicador de individualidade, do quão singular se é — e associado a isso, o quanto eu tenho poder sobre quem sou, nem que seja um poder sobre o meu corpo. Reitero que é preciso sempre que alguém veja essas intervenções. Se não for para julgá-las, ao menos que seja para dizer que horas são no “relógio anal” que o outro está usando, uma vez que há olhos que não conseguem ver… (Tá bom, esse final foi péssimo, mas paciência, nem todo dia se consegue ser elegante…)

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    • gugaalayon disse:

      desde que não seja uma bombarelógio ele vai ter que andar pelado ou com o despertador ligado pra chocar alguém. ahaha
      Mas concordo com seu chute.
      abç

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  3. confetti* disse:

    tatoos, escarificaçoes, piercing, circuncisao…em algumas sociedades nao sao considerados violencia…

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    • Ricardo C. disse:

      Sim, Confetti, mesmo a mutilação genital feminina é encarada de maneira positiva em certos grupos. Aliás, esse é um dos pontos onde vejo benefícios na globalização (acho que por aí se usa mais o termo “mundialização”, não é?). Globalizar direitos humanos (que não equivalem à “pax americana”) é uma evolução, diria que uma conquista para todos nós. A campanha contra a MGF/E são um exemplo disso.

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