Estratégias mal-sucedidas

Corria o ano de 2004. Estava eu em meu antigo consultório, e os clientes da manhã já tinham acabado. Era meio-dia, e como ainda faltava cerca de duas horas para a entrevista que teria com um possível orientador de doutorado, resolvi que não iria sem forrar o estômago. (Saco vazio não para em pé, dizia o meu avô.) Ao sair para almoçar, achei por bem guardar a minha pasta no porta-malas do carro, dentro dela um exemplar da minha dissertação de mestrado e a simpática câmera fotográfica que comprara do meu cunhado — preço de irmão, ele é mesmo muito gente boa. Ao voltar, percebi que a porta do carro estava aberta, e o banco de trás tinha sido rebatido. Sim, minha pasta tinha sido roubada, e com ela se foram a dissertação e a entrevista, sem falar na câmera.

Não sei de onde tirei a ideia, mas no dia seguinte, ao estacionar o carro no mesmo lugar, resolvi pendurar um “anúncio”. Dizia mais ou menos assim:

Por favor,
ofereço valor em dinheiro
pelos objetos que você levou.
Ligue para o número XXXX-XXXX.
Ricardo

Nunca obtive resposta. E enquanto me enchia de dúvidas sobre os aspectos éticos e estéticos do meu anúncio — “será que faltou um ‘atenciosamente‘ antes do meu nome?”, ou “e se o ladrão achou que eu não fui humilde o suficiente?” —, um livro com título estranho devia estar no sereno, decerto nalgum lixão, enquanto um amigo do alheio fotografava às pencas com minha saudosa Kodakzinha…

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4 respostas para Estratégias mal-sucedidas

  1. Sabe o que teria funcionado? Ter ido à Polícia, mas nem precisaria registrar queixa. Era só informar que estaria dando uma recompensa caso os pertences fossem achados. Em um ou dois dias teria teus bens de volta, já que a polícia sabe direitinho “quem é quem” em cada região de criminalidade. Existem exceções, mas…

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    • Ricardo C. disse:

      Rafael, a polícia naquela área não costuma se coçar por pouca coisa. Digo isso porque na mesma rua vários carros já foram roubados — inteiros, não apenas os objetos em seu interior… 😦

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  2. Nhé! disse:

    Ricardo, vc acha mesmo que um ladrão entenderia esse recado? Vc tinha que ter escrito na linguagem deles: “Compro de volta o que vc levou pelo preço de loja.”

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