Crianças

Lembrei de uma história. Corria o ano de 1985 e eu com 21 anos, estudando psicologia no México. Na universidade, uma das tarefas que recebemos na disciplina (que suponho fosse) “psicologia do desenvolvimento” consistiu em visitar uma escola para observar uma turma de crianças, nem lembro com que objetivo. Éramos três colegas observando uma turma de moleques na faixa de 5, 6 anos, numa escola de classe-média/alta. Ao final da aula, todas elas vieram conversar com a gente, fazendo mil perguntas e falando de si também, todas ao mesmo tempo (ô estresse!). Foi quando, no meio da algazarra, um menino me perguntou por que eu usava brinco. [Imagine, trinta anos atrás, um rapaz usando brinco num país conservador como era o México…!] Pois bem, decidi inventar uma história, mas tratando que  soasse o mais crível possível. A conversa foi mais ou menos assim:

— Bom, crianças, vocês querem mesmo saber por que eu uso brinco?
Quereeemoos!!
— Então primeiro vou fazer uma pergunta: vocês já viram filmes de piratas?
Viiimoos!!
— E vocês gostam desses filmes?
Gostaaamoos!!
— E já repararam que os piratas usam umas argolonas nas orelhas?
Reparaaamoos!!
— Pois é, eu também gosto muito de filmes de piratas, mas tanto, que até queria ser um deles. Só que como não existem mais desses piratas por aí, resolvi pelo menos colocar um brinco parecido com o deles, mas bem menor, já que eu não posso ser um pirata de verdade…
Ah booom!!

A justificativa para o brinco pareceu ter colado, já que as crianças não tocaram mais no tema e continuaram perto de mim, conversando sobre outros assuntos, o que me fez ficar satisfeito com o meu desempenho. Foi quando aquele menino que me perguntara sobre o brinco virou-se e disse:

Ricardo, sábado é a minha festa de aniversário, queria que você fosse…
— Poxa, que legal, claro que vou…
… só não pode ir de brinco, porque meu pai diz que é coisa de mulher.

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35 respostas para Crianças

  1. camilalpav disse:

    Ricardo, já disse e repito: coisa mais fofa o registro que você fez da fala das crianças, em itálico e com as vogais estendidas!! Puta sacada mesmo, fiquei com invejinha até. 🙂 Beijos!

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  2. lu disse:

    hahaha, que post fofo. a gente acha que criança é inocente, mas parece que antes mesmo de aprender o nome elas já internalizam normas… o problema é conseguir problematizá-las depois! uma criança não aprender preconceito deve ser tão possível quanto trancar uma gaveta e jogar a chave dentro. casca é ensinar a eles que o mundo não precisa ser assim.
    beijo beijo

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    • Ricardo C. disse:

      Eu ia contar essa história lá no teu post, mas achei que dava para esticá-la um pouco e pôr aqui “em casa”. E tem razão, é bem difícil lidar com a questão das normas, ainda mais pq criança tem lá suas vontades, e algumas aparecem bem cedo mesmo. O pior é que nem sempre são posições semelhantes às dos pais, por mais que estes se considerem “esclarecidos”, críticos etc…

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  3. André Egg disse:

    Pois digo que muita gente ensina essas bobagens aos filhos. Não necessariamente os pais.

    Tenho uma menina de 5 e um menino de 2 anos. De vez em quando eles vem com as divisões de “menino não faz isso” ou “menina não faz aquilo”. Dá um trabalhão ficar desconstruindo esses preconceitos estúpidos.

    Digo pra eles que eles tem que ficar melhores que os pais, nunca mais conservadores, he,he,he.

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  4. Colafina disse:

    Humpf! Crianças… báh!
    Três crianças? Báh! Báh! Báh!

    ou:

    “Filhos? Melhor não tê-los!
    Mas se não tê-los, como sabê-lo?”

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  5. Darwinista disse:

    Se eu não me engano, porque já faz um certo tempo, o pessoal da igreja que eu frequentava dizia que o brinco era um sinal usado pelos escravos, e usavam isso como argumentos pros meninos não usarem. Coisa doida.

    Nunca usei porque nunca gostei, mas obviamente não vejo nada demais. E felizmente, aos poucos, essa bobagem de “coisa de mulher” e “coisa de homem” vai acabando.

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    • Ricardo C. disse:

      No México, Darw, lá nos 80’s do século passado, ainda tinha uma conversa de que quem usasse na orelha esquerda seria roqueiro, e quem usasse na direita seria gay.
      [O meu brinco era na esquerda, mas se antes de furar a orelha tivesse sabido dessa bobagem, provavelmente teria usado na direita, apenas para provocar — coisa que a idade permitia…]

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  6. Nat disse:

    Eu tenho um amigo que quando chegou aos 30 entrou numa crise daquelas absolutamente desnecessárias, mas importantes (hehehe) e depois de discursos intermináveis sobre mudanças e revoluções, resolveu colocar um brinco.

    Ontem ele fez 40, fui encontrá-lo e, surpresa minha, ele resolveu tirar o brinco.

    Daí eu perguntei pq ele fez tanto estardalhaço 10 anos antes com o brinco e de repente o tirou assim, sem sofrer. Aí ele me disse que o brinco, assim como outros objetos que a gente usa, só servia para ostentar um estado de espírito. Segundo ele, agora aos 40, ele não precisa mostrar nada pra ninguém.

    Mas eu sei, com certeza, que o estado de espírito permanece lá dentro ;- )

    Bjs,
    Nat

    p.s.: Não tenho aparecido muito aqui, mas vc sabe que eu leio (por feed) e amo tudo que vc escreve.

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    • Ricardo C. disse:

      Meio velho pra essas coisas esse seu amigo, não Nat? Terá posto um piercing nos “países baixos”? 😛

      P.S. De vez em quando manifeste-se, menina. E aproveito pra te dar os parabéns pela formatura!

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  7. Monsores disse:

    Ricardo, sendo objetivo.

    1. Eu continuo achando que brinco é coisa de mulher;
    2. O post é divertidíssimo;
    3. Gosto quando você fala de sua vida, principalmente do passado, em outros países;
    4. Seu blog está lento.

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    • Ricardo C. disse:

      1. Hahaha!
      2. Eu me diverti escrevendo, para não variar.
      3. Não se acostume, faço isso em doses homeopáticas e com muita ficção no meio.
      4. Culpa do post do Bukowski, suspeito…

      Grande abraço!

      P.S. Já se acostumou com a cafeteira nova?

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  8. Luiz disse:

    E o cara ainda veio me dizer que EU era um manancial de histórias…
    Olha só quem fala…

    Quanto a brincos, nunca tive realmente vontade, mas ainda os prefiro ao invés de tatuagens. Alguns sobrinhos usam, e eu perguntei se o herdeiro adolescente queria usar, mas ele disse não. Bastava o cabelão passando dos ombros…

    E quanto a crianças, bem, a de 4 anos tem uma percepção fina aliada a uma língua pra lá de ferina. Aliás, como a esmagadora maioria das crianças dessa idade…

    Abraços.

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    • Ricardo C. disse:

      Nunca tive interesse por tatuagens, embora hoje em dia até aprecie uma ou outra (mas é Uma ou Outra mesmo!!) no corpo dos outros. É que por mais que os seus donos queiram, as tatuagens não envelhecem do mesmo jeito que as pessoas e os seus corpos. Elas não apenas ficam “no passado”, como tb muitas vezes simplesmente perdem o sentido que as originou. E como aprecio as mudanças, a passagem do tempo, prefiro as marcas que a própria vida deixa em nossos corpos — incluindo cicatrizes…

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  9. Monsores disse:

    Ricardo,

    Estou me acostumando ainda. Queria que o café ficasse mais forte. Não consigo :/

    A propósito, não é por causa do post do Bukowski, é por causa dos banners do OPS. Já verifiquei aqui.

    Qualquer coisa, sabe que pode contar.

    Abraço

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    • Ricardo C. disse:

      André, em relação à cafeteira, coisas:

      1. faça sempre ristreto — paciência, vc vai ter que tomar mais xícaras por dia;
      2. Suponho que ela tenha vindo com 3 filtros metálicos para usar dentro do suporte. Use o que tem menos furos.

      A outra coisa é experimentar marcas diferentes. No próprio Sto. Grão eles tem cafés mais encorpados, só não sei se tb em sachê. Dê uma olhada.

      Por último, vou falar com o administrador do OPS! pra falar do peso dos banners. Obrigado pela dica!

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  10. Nhé! disse:

    kkkkk…. crianças!!
    kkkkk…. pais!!

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  11. gugaalayon disse:

    Belo poste, Fernandinho!

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  12. confetti* disse:

    ei rc…viajou na pascoa ?

    feliz volta ! :))

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  13. Monsores disse:

    Quinta vez, eu disse quinta! que venho aqui e não tem post novo.
    Ricardo, mãos a obra! Ou você acha que pode ficar tanto tempo sem postar?

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  14. confetti* disse:

    rc, saudades de vc ! ontem o agua tava instavel…vc notou ou foi minha conexao ? vou te ligar pra fazer umas fofocas…ta onde ?

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  15. Sidney Mirandão disse:

    Salve, seu Ricardo!

    Pergunta pós-post: Você foi à festa? De brinco ou sem brinco?

    ps: sumi por motivo de força maior (ou de fórceps na danada da tese). Mas tenho sempre lido seus excelentes posts. Abraço.

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    • Ricardo C. disse:

      Grande Sidney, bom ver você por aqui depois de tanto tempo ausente! (E tomara que os impasses da tese tenham sido solucionados!)

      E a resposta é não, não fui à festa. Acho que o menino era carioca, desses que dizem “aparece lá em casa”, mas não te dão o endereço, ou “me liga”, mas não te dizem o número de telefone, hehehe!

      Abração

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  16. confetti* disse:

    sidnê !! tou com saudades de você ! pinte….

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