Poemínimo platoníssimo (e mentiras seminais)

Zizi,
nunca mais te vi.
Como crer
que não te esqueci?

[De um velho álbum do início da década de 70, século passado.]

Sete anos atrás, li A Marca Humana, de Philip Roth — livro que neste momento pousa sobre minha barriga, apoiado no notebook, enquanto digito a palavra “digito”. E como haveria de ser, o segredo carregado durante cinquenta anos pelo personagem central do romance, Coleman Silk, um velho professor judeu de letras clássicas da fictícia Faculdade Athena, perturbou-me. [É um segredo conhecido por todos os que já se informaram sobre o livro ou viram sua (regular) adaptação ao cinema. Mas se você não quer saber, pare a leitura por aqui, por favor.]

Daí a pergunta:

Como alguém seria capaz de inventar não apenas uma nova identidade, mas conseguir, nesse empreendimento, deixar de ser negro e passar a ser judeu?

Lendo esse excepcional livro vê-se a surpreendente naturalidade com que tudo se encaixa. A invenção dessa persona , as felizes coincidências que o ajudam a sustentá-la, tudo é plausível. E o controle de Coleman Silk sobre as inúmeras variáveis ao redor de sua mentira também impressiona. (Há uma circunstância, que se repete três vezes em sua vida de casado, sobre a qual não tem poder de decisão. Mas mesmo esta lhe foi favorável…) A velha carta de uma ex-namorada que ele lê para o amigo, e cujo conteúdo nada revela sobre o seu segredo — óbvio, Ricardo, caso contrário ele não a leria! —, é também um bom exemplo. (Aliás, omitir, distorcer levemente, apagar dados difíceis de encaixar em nossas biografias é muito mais fácil do que inventar sentimentos que nos são estranhos. Por outro lado, tornar próprias as experiências alheias tampouco é tão difícil assim — o que depois de um tempo, de tanto repetidas, tornam-se verdade, como diria Goebbels.)

Mas precisaria relê-lo — o que hoje, dezenove de março de dois mil e nove, sei que não vou fazer — para sanar uma dúvida. Porque depois de grudar a foto lá de cima, e de escrever esse, er, poema tatibitate, uma curiosidade me assaltou: existe, no universo que Coleman Silk inventou para si, alguma falsa memória de uma paixão infantil? Teria ele inventado uma lembrança dessas? Será que ele guardaria numa caixa de sapatos algumas folhas amareladas com garatujas, em forma de poemas ingênuos, inventadas para ratificar essa “verdade inventada”? Se alguém estiver lendo o livro ou tiver uma memória aguçada, conte que memória teria sido, e em que página da edição brasileira ela se encontra, por favor…

Por último e por tabela, pergunto: e você, saberia (ou sabe) mentir assim?

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12 respostas para Poemínimo platoníssimo (e mentiras seminais)

  1. Esse Apture é o que há, hein?

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  2. Monsores disse:

    Ricardo, eu sou um avacalhado, você sabe.

    Esse post em que comento, não li. Os outros dois, li duas vezes cada assim que você os postou. Acontece que eu ainda estou pensando bastante nas coisas que você escreveu.

    Comento pra saber de você, deixar um abraço. Parece que fica faltando alguma coisa quando leio seus textos e não comento, sabe como é? É como se estivesse em débito.

    Apesar de você nunca deixar muito espaço para comentar. Não entenda mal, a limitação é minha.

    Grande abraço,
    do teu amigo André – o outro André.

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    • Ricardo C. disse:

      @André, meu outro amigo, não se preocupe tanto com isso. Sei que vc é dos que costuma se interessar pelas coisas que cometo, digo escrevo, e isso é mais do que o que eu poderia desejar!
      Eu estou bem, e você?

      Abração!

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  3. confetti* disse:

    “mentira seminal” é quando o carinha finge que goza e nao goza ?

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  4. confetti* disse:

    isso porque leio “zizi” e so penso em bite, dick, caralho…kkk

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  5. confetti* disse:

    eu minto pra caramba
    vivo relendo roth, aquelas dobrinhas que a gente faz na pagina pra se lembrar
    mas francamente
    nao consegui entender o tema desse post !

    bem, vamos almoçar rc ?

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  6. confetti* disse:

    rc, as crianças francesas dizem “zizi”…c’est très mignon, n’est ce pas ?

    também pode rolar na boca de um adulto; putz que horror e nem tive intençao de fazer um jogo de palavras idiota…
    (engoli uma salada tao rapido que entalou e estou variando…rs)

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  7. confetti* disse:

    semana que vem entramos em horario de verao, estaremos com 5 hrs + que ai…por enquanto so 4…

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