Organicismo, diferente de determinismo

Ciclo neste mundo é o que não falta. Das estações, circadiano, de Krebs, menstrual… A lista é imensa, sem falar nos ciclos mais pessoais — caso da minha barba, que só viceja no inverno, já que num verão saariano como este que assola o Rio de Janeiro é impossível cultivar pelos no rosto e ao mesmo tempo conseguir manter alguma “dignidade sudorípara”…

Mas volto aos ciclos mais gerais, deixando as particularidades (metidas a engraçadinhas) para outra ocasião. E no que realmente me interessa discutir, diria que qualquer um é capaz de notar como a apreciação organicista/fisicalista dos fenômenos humanos anda bem mais em alta do que a perspectiva cultural na abordagem desses mesmos fenômenos. (Em outras palavras, o velho debate sobre “natureza vs. cultura” segue vivo, mas os apóstolos da primeira andam pensando que já ganharam o jogo…) Trata-se de um ciclo, como disse acima, mas que no momento não mostra sinais de arrefecimento, não a ponto de favorecer a uma nova mudança… Vale dizer que os avanços científico-tecnológicos deram um empurrãozinho, é claro, além de destacar o ocaso das instituições que (supostamente) zelavam pela moral e pela esfera dita “espiritual” — assunto de que já tratei três posts atrás, não custando lembrar que procurei me diferenciar dos catastrofistas, dos saudosistas e dos reacionários de plantão, que pintam o passado de rosa, falam das tradições como se dogmas fossem e sobretudo arrotam, com suas lógicas simplistas, o quanto o mundo estaria perdido…

Dizia o quê mesmo? Ah, sobre o “ciclo organicista”, essa insistência dos tempos atuais em se falar sobre determinantes biológicos, onde se busca no corpo as “causas” para tudo, e onde, como “efeito colateral”, oferecem-se “terapias” psicofarmacológicas, algumas para doenças que sequer se conhece direito — mas cujo substrato orgânico nem se põe em dúvida, quando muito se diz: “já já o encontraremos!”. E aqui retomo um texto que citei no tal post, da autoria de Rogerio Lopes Azize:

É inegável o lugar de destaque que o cérebro ocupa no imaginário contemporâneo ocidental. Parece-me ser o órgão do corpo humano a respeito do qual há mais excitação na mídia e no discurso leigo, talvez devido à profusão de notícias e às representações que têm o cérebro e as doenças que o podem acometer como centro. Especialmente entre as classes médias e altas urbanas, com maior acesso aos serviços de saúde de ponta em termos tecnológicos, vemos reproduzida a vertente neurológica e psiquiátrica — com a primeira tendendo a englobar a segunda — do fisicalismo reducionista que caracteriza a biomedicina ocidental. Acredita-se estar no cérebro o lugar da mente, da consciência, da memória, das doenças do mundo psi; a idéia de que o cérebro é condição suficiente para a existência do que entendemos como “indivíduo” parece ter entrado para o mundo dos fatos científicos, que repetimos cotidianamente quando falamos sobre os estados de saúde/doença mental.
Na multiplicação de discursos sobre o cérebro e as doenças a ele associadas, alguns temas aparecem com maior preeminência, caso da depressão e da ansiedade; estas doenças, nos termos da leitura biomédica contemporânea que se faz delas, surgem com uma roupagem que pouco tem em comum com as explicações de ordem psicanalítica ou com a leitura do sistema humoral (Cairus 1999).
[…] [C]om diferentes vocabulários, autores remetem ao surgimento de um “sujeito cerebral” (Ehrenberg 2004; Vidal 2005), figura que ganharia força no final do século XX, acompanhada de uma profusão de discursos sobre neurotransmissores e sua conexão com a saúde mental, tecnologias de visualização do cérebro e um borrar das fronteiras entre cérebro, o órgão, e idéias menos materializáveis, como a de mente.
A medicalização de doenças como “depressão” e “ansiedade” tem suscitado um debate interdisciplinar que tenta dar conta das conexões entre o espraiamento desse fenômeno e os valores centrais que animam a cultura ocidental. Os transtornos de humor e de ansiedade têm sido motivo de discussões que envolvem as ciências sociais, a filosofia e a medicina, em virtude das transformações que ocorreram após o lançamento do Prozac, o mais conhecido dos inibidores seletivos da recaptação de serotonina — ISRSs: o número de diagnósticos dessas doenças aumentou em progressão geométrica, a ponto de a depressão ser candidata à “doença do século XXI”; livros e artigos propõem-se a discutir se um grande percentual dos usuários está realmente clinicamente depressivo ou ansioso, ou se estaríamos fazendo uso dessa tecnologia enquanto
enhancement, melhoria de si, não necessariamente tratando estados patológicos. (p.7-8)

Lendo o que o Azize escreve, tenho logo vontade de apelar para vários comprimidos de ISRSs, pois o baixo astral que esse quadro suscita é imenso. Mas por outro lado, essa mesma tendência organicista, onde se fala em “sujeitos cerebrais”, presta-se a novos debates um pouco menos reducionistas do que poderiam parecer. Um deles muito me chamou a atenção, e é descrito por Francisco Ortega, em seu artigo “O sujeito cerebral e o movimento da neurodiversidade” (Mana v.14 n.2, Rio de Janeiro out. 2008). Nesse artigo, Ortega analisa o movimento da “neurodiversidade” — termo cunhado em 1999 pela socióloga australiana e portadora da síndrome de Asperger Judy Singer —, um movimento que considera

[…] que o autismo não é uma doença a ser tratada, mas uma diferença humana, a qual deve ser respeitada como outras diferenças. O movimento da “neurodiversidade” deve ser inserido em um marco sociocultural e histórico mais amplo que incorpore o impacto crescente no imaginário cultural dos saberes e das práticas neurocientíficas com o paradigma do sujeito cerebral e a expansão da neurocultura. No contexto do sujeito cerebral, o cérebro responde por tudo o que outrora costumávamos atribuir à pessoa e vem se tornando um critério biossocial de agrupamento fundamental. O artigo mostra como uma ideologia solipsista, reducionista e cientificista – o sujeito cerebral – pode servir de base para a formação de identidade e de redes de sociabilidade e comunidade. (p. 509) (Grifos meus)

Páginas antes o autor já dissera que

Os indivíduos autodenominados “neurodiversos” consideram-se “neurologicamente diferentes”, ou “neuroatípicos”. Pessoas diagnosticadas com autismo, e mais especificamente portadores de formas mais brandas do transtorno — os chamados autistas de “alto funcionamento” — freqüentemente diagnosticados com a síndrome de Asperger, são a força motriz por trás do movimento. Para eles, o autismo não é uma doença, mas uma parte constitutiva do que eles são. Procurar uma cura implica assumir que o autismo é uma doença, não uma “nova categoria de diferença humana”, usando a expressão de Singer (1999:63). (p. 477) (Grifos meus)

O que destaco sobre esse assunto é, por um lado, o fato de que o movimento em questão segue em rota de colisão com associações que buscam a cura para o autismo — tais como a AMA (Associação de Amigos de Autistas) e a AUMA (Associação de Amigos da Criança Autista) —, já que estas últimas, obviamente, não reconhecem algo como uma “identidade autista” tal como defendem os ativistas em prol da neurodiversidade — considerado um grupo “anti-cura”, por princípio. E, por outro, de que o mundo se mostra bem mais complexo do que antes: por mais que essa tendência ao organicismo apresente, como em boa parte dos determinismos, diversos aspectos negativos — discuti algo a respeito por ocasião da publicação de uma pesquisa sobre o “cérebro dos gays”, comentada inicialmente por Marcelo Leite, e com interessantes desdobramentos e novas elaborações feitas pelo Catatau —, tal organicismo não leva a uma única resposta. O exemplo é justamente o desses dois grupos, com posicionamentos antagônicos, mas ambos apoiando-se na ideia do cerebralismo do autismo! Ou seja, temos todo um substrato político e cultural complexo, multifacetado e de interesses diversos fazendo uso do que seria uma mesma base biológica sobre o autismo. E por substrato político e cultural quero dizer tanto os interesses que os diferentes grupos querem impor ao Estado — em forma de verbas para pesquisa, custos de tratamentos diversos, testes genéticos etc. —, quanto à influência de movimentos diversos — como o feminismo e o movimento em prol dos direitos dos gays e lésbicas, por exemplo —, cujos resultados serviram como estímulo e exemplo quanto ao modus operandi com que os defensores da neurodiversidade deveriam empregar.

Trocando em miúdos: o biológico não “ganhou” do cultural, já que falar em “guerra” é mostrar-se míope diante da riqueza e das inúmeras possibilidades frente às descobertas no campo das ciências em geral — e não apenas das ciências biológicas, por mais que estas andem com o rei na barriga —; ao mesmo tempo, o determinismo que muitos supõem está mais em suas ideias preconcebidas e de cunho moral do que em seus cérebros…

Portanto, muitos vivas para a complexidade!

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14 respostas para Organicismo, diferente de determinismo

  1. + É impressionante a quantidade de pesquisas oficiais tentando nos provar que é o nosso dna a nos predispor a quase qualquer coisa que mate, seja ilegal ou engorde no planeta.

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    • Ricardo C. disse:

      Verdade, Jåµë§! É que no fundo no fundo, boa parte da humanidade quer é um conjunto de certezas ditas científicas que confirmem suas crenças morais…

      Bom vê-lo por aqui, meu caro!

      P.S. Por alguma estranha razão, o anti-spam te achou suspeito, assim como ao nosso amigo Monsores. Já puxei as orelhas do bicho, creio que a partir de agora vcs dois recuperaram definitivamente o legítimo direito de ir e vir neste blog!

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  2. Monsores disse:

    Ótimo post, Ricardo. Tomei a liberdade de enviar o link para alguns amigos.

    Esses dias ainda conversava com um deles sobre essa banalização do tarja preta.

    Aconteceu que um conhecido me chamou para conversar esses dias e me contou todos os seus principais problemas. Não esperava que o fizesse porque essa é a visão que eu tinha dele: um conhecido.

    Depois de me contá-los todos, sugeri um terapeuta, o que ele prontamente respondeu que “não tem tempo para isso. Prefiro tomar umas bagas”.

    Algumas pessoas realmente acham que anti-depressivos, metanfetaminas, etc são o “psicólogo encapsulado” (o que corrobora com aquela minha idéia no e-mail que eu te mandei). Uni-vos!

    Ainda, não tenho conhecimento técnico específico para falar, mas me parece tão natural que um “autista altamente funcional”, ou com baixo nível de autismo – síndrome de arspenger baixa, enfim, chegue a conclusão exposta. Pelo que já estudei a respeito da síndrome, é exatamente a linha de pensamento que eles costumam adotar para todas as coisas. Anyway, melhor do que choramingar pelos cantos…

    O problema nessa linha de pensamento, creio, é que justamente esse grupo poderia ser objeto de pesquisa para ajudar aqueles que não são altamente funcionais e que sofrem (?) com a síndrome em estágio elevado, como o Rain Man.

    Por ora é só. Teu post dá assunto pra mais de metro.

    Grande abraço!

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    • Ricardo C. disse:

      Essa história de “não tenho tempo” combina à perfeição com os tempos atuais, com todo um estilo de vida pautado pelo imediatismo hedonista e pela diuturna busca da felicidade, para o qual a indústria farmacêutica e uma série de especialistas de todo tipo oferecem mil e uma soluções…

      Há muito o que discutir, meu amigo, e ainda pensar sobre que tipo de critérios norteiam as noções de doença e normalidade, assunto velho e que segue merecendo atenção redobrada!

      Grande abraço pra vc também!

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  3. Monsores disse:

    E depois desse comentário mal escrito pacas, vou trabalhar hehehe

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  4. Darwinista disse:

    Assunto complexo. Muitas coisas surgiram, muito apropriadamente, no meu cérebro, mas ainda não consegui organizá-las. Vou ler mais umas duas vezes o post pra elaborar.

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    • Ricardo C. disse:

      Darw, dê uma lida nos artigos, creio que eles dão muito mais conta do assunto do que este post. Ah, depois venha dizer o que pensou sobre o assunto, que eu bem quero saber!
      Abs

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  5. Nhé! disse:

    Mas o que faz uma pessoa procurar ajuda médica (ou ajuda ao balcão da farmácia) é uma questão cultural, creio eu.

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  6. Ricardo C. disse:

    Principalmente no que diz respeito à automedicação, Nhé, prática em que somos campeões!

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  7. El Torero disse:

    De trás de meu balcão de farmácia vejo qualquer tristeza transformada em depressão, e uma angústia normal e inerente ao ser humano é síndrome do panico. Em 10 minutos de consulta, pacientes saem do consultório e atracam na farmácia com suas receitas de controle especial, que tratam seu desajuste de neurotransmissores, se os há, mas nem relam nos reais problemas…

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    • Ricardo C. disse:

      El Torero, atrás do balcão da tua farmácia vejo alguém que dá crédito ao que aprendeu da própria vida, da própria história e do convívio com as pessoas tanto quanto dos livros e do saber vindo de especialistas. Quisera que mais gente fizesse o mesmo que você…

      Bom tê-lo por aqui, meu caro!

      Abs

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  8. E um influencia o outro, tenho certeza (eu e minhas teorias, hahah Eh, eh q ainda ñ fui ler a respeito, mas acho q o comportamento social pode levar a mudanças físicas c o tempo)!!!

    Tem um filme lindo sobre um casal portador (?) d asperger… Pena eu ñ lembrar nadica de nada, mas assim… Lindo.

    Uma participante do America’s next Top Model aih tb a tinha.

    Saco isso de compartimentar tudo, neh?!

    Abração

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    • Ricardo C. disse:

      Pra começar, Gabriela, bem-vinda. E a tua tese lembra Lamarck, que por sinal parece que começou a ser reabilitado (veja este post que o Marcelo Leite, colunista de ciências da Folha de SP, escreveu tempos atrás).
      Queria mesmo era saber que filme é esse…
      E sobre esse hábito de se compartimentar tudo, estou com você: um saco!

      Abraço

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  9. Pingback: Uma réplica pobre de quem bloga cada vez mais devagar | Ágora com dazibao no meio

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