Desconfortos

É carnaval. E ontem, enquanto voltava para casa pelas ruas do Centro do Rio, depois de (quase) divertir-me no bloco Cordão do Boi Tatá, foi impossível deixar de notar o forte e onipresente cheiro de urina das ruas da cidade, vários graus acima do… forte e onipresente cheiro de urina das ruas da cidade. Aliás, assunto velho, do tempo do Império, objeto de inúmeras reportagens e mesmo de um documentário. Mas não é disso que quero falar. Ou melhor, isso é parte do que quero abordar.

Com frequência flagro-me desconfortável, para não dizer irritado, com um sem-número de questões cotidianas, ligadas à vida em sociedade. (Claro está que me refiro à minha vida em sociedade, situada cá no Rio de Janeiro, não sendo de bom tom generalizar, embora talvez o faça…) Com algumas dessas questões já brinquei neste blog, e de outras até falei sério. Mas como hoje me deu vontade de ampliar o leque, mãos à obra, e jogarei algumas frases soltas, ainda que semi-conectadas:

– Grita-se, muito. Mas não por algum surto de surdez coletiva.

– Impreca-se. Contra tudo e todos. (É de rogar pragas que falo, não de pedir benesses.)

– Grassa a intolerância. Até contra os intolerantes.

– Reivindica-se a rodo. (Quem dera se tratasse só de direitos…)

– Delicadeza? Pouca, e boa parte apenas nas frases do Profeta Gentileza. Cortesia? Já ouvi falar sobre, mas a cada dia que passa parece tratar-se de lenda. A palavra empenhada? Ora, não me faça rir, isso parece papo de otários!

– Consumismo desembestado; individualismo e narcisismo elevados à quinquagésima potência. E ao corpo? Tudo.

– “Crise moral, crise de valores!”, bradam alguns, em decibéis acima do que a legislação permite. “Crise religiosa!”, acreditam outros, deixando isso claro de maneira ainda mais estridente. “Crise do Estado!”, sugerem terceiros, enquanto quartos dizem “que bom, menos Estado!”…

Tenho certeza de que você já ouviu muita gente falar de coisas do gênero. Não? Pois eu já! E, para ser sincero, devo dizer que parte dessas queixas já saiu de minha boca… Será porque envelheci? Terei me transformado em um saudosista contumaz? Um moralista raivoso? Um defensor das tradições, como se estas fossem atemporais e trouxessem dentro de si “A luz”, “Os valores ideais” e “A retificação dos desvarios da contemporaneidade”?

Mil vezes não!

Mas… como te convencer disso?!

Tempos atrás, quando comecei a alinhavar algumas das observações aí de cima sobre o cotidiano que me cerca, já vira nelas não apenas o tom queixoso, mas um potencial moralizador (no mau sentido da palavra) que decerto poderia ombrear-se aos discursos mais reacionários da atualidade. Isso me fez recuar, embora seguisse insatisfeito com o que vejo em meu entorno. (Sem contar a constelação de queixas e de sofrimento que se avoluma nos consultórios dos meus colegas, parte dela com um conteúdo bastante assemelhado…) Foi nesse contexto que encontrei um livro, “O Vestígio e a Aura” (Garamond, 2005, em sua quinta reimpressão), de um pensador que muito admiro: o psicanalista Jurandir Freire Costa. E já na introdução encontrei não só parte da descrição que fiz lá em cima, mas também o contraponto em relação àqueles que porventura se identificassem com o que eu disse, mas uma identificação num tom catastrofista e defensor de uma espécie de culto a “valores tradicionais” com o qual definitivamente não me alinho!

É verdade que a “destradicionalização” referida por muitos — e por mim também — tem lá suas consequências negativas, algumas dignas de nota. Mas apoiar-se nelas, e a partir disso acabar acreditando num passado diáfano, de pouquíssimas mazelas, apenas porque as instituições que encarnavam a aura do Bem e indicavam o certo, o ideal etc. ainda não tinham entrado em crise, é quase como acreditar em duendes. (Desculpem-me os que acreditam, mas aqui na vizinhança os únicos duendes de que tenho notícia são de louça.) Passo a palavra ao Jurandir Freire Costa:

Penso que existe algo de verdadeiro na constatação de que a ética cotidiana baseada no trabalho, na família e na religião vem sendo abalada pela moral do espetáculo. Os ideais de felicidade sensorial e da vida como entretenimento corroeram a credibilidade das instituições que davam suporte à moral tradicional. (…)
Aceitar isso, contudo, não é o mesmo que vaticinar a “perdição do mundo”. Suspeito dessa retórica, e por bons motivos. A experiência civilizatória burguesa, desde o começo, é assombrada por fantasmas do gênero. O século XIX, em especial, foi pródigo em prenúncios de desastres. Naquele período, uma legião de críticos invectivou contra a velocidade do progresso tecnológico; contra o nivelamento por baixo da moralidade das massas e das elites; contra a mixórdia das visões de mundo filosóficas, estéticas, políticas ou espirituais em competição etc. (…) (id., p. 12-3) (Grifos meus)

Nada de novo sob o sol, não? Século dezenove, século vinte e um, e dá-lhe “eterno retorno”! Quanto a mim, já deu para notar que tenho lá os meus queixumes, e que de fato gostaria de menos decibéis e mais cortesia nas falas, de mais respeito entre as pessoas (pelo simples fato de serem pessoas, independente de serem, ou não, admiráveis em seus feitos e características), entre outras coisas. Afirmo, porém, que não tenho uma visão edulcorada do que já foi a vida em sociedade há trinta anos, por exemplo, pois tampouco posso esquecer que nesse então vivíamos cá no Brasil uma ditadura, digna desse nome indigno. Ao mesmo tempo, se afirmasse que havia uma maior mobilização da sociedade civil em prol dos menos assistidos, das minorias e de seus direitos, e outras questões assemelhadas, estaria não apenas faltando com a verdade, como também desmerecendo o trabalho de inúmeros grupos com legítima e efetiva participação nessas questões nos dias de hoje, talvez até com mais eficácia e alcance do que muitos no tal passado recente que mencionei. (Afinal de contas, trinta anos não é nada, verdade?) É por isso que vale a pena reforçar o fato de que refletir sobre a (…) destradicionalização não é dotar o passado da aura que o magnifica, nem reduzir o presente às ruínas do que passou. Os valores, tradicionais ou não, são deste mundo” (ibid., p. 20), e como “entes vivos”, transformam-se, queiram os “tradicionalistas” ou não.

Mas não posso fingir que não escrevi aquelas frases, e, entre elas, sobre o narcisismo, o consumismo e o culto ao corpo em proporções difíceis de calcular. Estes, porém, apesar de me incomodarem tanto por seus excessos quanto por virem sendo operacionalizados com enorme “eficácia” pelo marketing corporativo — do qual fazem parte a medicina, os laboratórios farmacêuticos, o setor de “fitness”, entre outros —, não devem ser taxados de mero sintoma da crise de valores mencionada anteriormente. Se deixarmos de olhar tão (psico)patologicamente para essas questões, encontraremos que o que antes era público — e regido por instituições (Igreja, Estado etc.) — não desapareceu, mas deslocou-se para a esfera do privado. E que isso não resultou, como supõem os catastrofistas,

(…) em rebaixamento da consciência crítica ou dos padrões éticos pessoais e coletivos. A moral tradicional (…) apenas deslocou o seu centro irradiador das instituições impessoais para a comunicação pessoal multiforme, variada e renovada. Em última instância, os preceitos morais dominantes permanecem os mesmos, modelados, é claro, pelo colorido da atualidade. (ibid., p. 15) (Grifos meus)

Suspeito que esse deslocamento para a “comunicação pessoal multiforme, variada e renovada” talvez tenha diminuído a visibilidade dos padrões éticos e da consciência crítica, mas também noto que outras transformações se deram no meio do caminho. Nesse sentido, compartilho a hipótese do autor (Costa), quando diz, ainda a propósito da força normativa que as instituições (família, trabalho, Igreja, Estado) perderam, que

(…) o lugar do universal, do incontestável, passou a ser ocupado pelo mito cientificista. (…)
As formas de vida, antes referendadas por valores religiosos, éticos ou políticos, passaram a se legitimar no plano do debate científico. O que era medido por critérios pertencentes à esfera dos ideais morais passou a ser avaliado por métodos de controle e validação experimentais. (…) Agora, o bom ou o Bem também são definidos pela distância ou proximidade da “qualidade de vida”, que tem como referentes privilegiados o corpo e a espécie. (ibid., p. 190) (Grifos meus)*

E dessa maneira, temos todo um aparato conceitual e tecnológico que legitima esses critérios, onde o fisicalismo se vê cada vez mais na crista da onda, temos o cérebro como ator principal, lugar da mente, da consciência e da própria noção de indivíduo, fazendo de nós verdadeiros “sujeitos cerebrais”, como diz o antropólogo Rogerio Lopes Azize**

….. — Beleza.

….. — Beleza? Como assim?

….. — É, beleza mesmo. Acontece que a conversa ficou muito séria, acadêmica demais para este blog, então resolvi estampar esse “beleza” aí.

….. — Mas então de que jeito você pretende terminar o assunto, já que falou, falou e deixou tudo em aberto?

….. — Ora, é simples. O “beleza” fica por conta da última citação do Jurandir, somada ao papo do Azize e à nota de rodapé falando do Wilber. São uma beleza mesmo! E em relação a mim, mesmo deixando as coisas em aberto como você disse, continuo acreditando realmente em tudo isso que escrevi, e torcendo para pelo menos ter conseguido me livrar da pecha de reacionário e saudosista. Ficarei feliz com isso.

….. — Mais alguma coisa?

….. — Sim. Acontece que o Jurandir, mais uma vez na introdução do livro que citei, diz outras coisas sobre “a medida ética do interesse pelo corpo”.

….. — Ahn?

….. — É que ele falou um montão de coisas, e eu mesmo mencionei o culto ao corpo como uma delas. Só não comentei direito sobre o fato do autor não considerar propriamente um problema o dedicar-se ao cuidado de si por meio do cuidado do corpo, e que na realidade a tal medida ética do interesse sobre o corpo estaria (…) na significação que os cuidados assumem” (p. 20). Deixe que ele mesmo fale, garanto que ficará mais claro:

Se o interesse pelo corpo começa e termina nele, caímos na corpolatria, forma de ascese humanamente pobre e socialmente fútil. Se, ao contrário, o interesse toma a direção centrífuga, volta-se para a ação pessoal criativa e amplia os horizontes de interaçao com os outros, não vejo em quê isso contraria os nossos credos morais básicos. Cuidar de si, aliás, pode ser o melhor meio de se colocar disponível para o outro. Pois, como mostrou Freud, as melhores intenções se esfarelam diante da mais banal dor de dentes. (id.)

….. — Citação interessante, essa. Mas só não entendi por que você resolveu falar do corpo e nada dizer sobre o consumismo e as outras coisas de que se queixou no começo…

….. — É que hoje é segunda-feira, pleno Carnaval, faz um calor dos infernos e eu estava aqui, sem saber que rumo dar a tudo o que ainda queria dizer, e o post ficando cada vez maior… E aí, uma hora atrás, comendo uma reles torrada com manteiga “La Motte” aux grains de sel de mer, quebrei um dente.

…..

…..

__________

* Autores como Ken Wilber já falaram sobre o tema, ainda que com uma abordagem diferenciada. Ver, por exemplo, as duas primeiras páginas do seu artigo “Olho no olho: ciência e psicologia transpessoal” (pp. 177-8), in Roger Walsh e Frances Vaughan, “Caminhos além do ego”, São Paulo, Cultrix, 1997.

** Uma neuro–weltanschauung? Fisicalismo e subjetividade na divulgação de doenças e medicamentos do cérebro“, Mana 14(1): 7-30, 2008, p. 7.

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9 respostas para Desconfortos

  1. Nat disse:

    Perdão, ando muito slow motion para comentar seus escritos, embora concorde com muita coisa…
    Vim aqui para um comentário mais banal, do tipo o BoiTatá há muito que está insuportável. O curioso é que a gente tá sempre lá e nunca se encontra ;- )

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  2. Putaqueopariu. Quebrar um dente é um desconforto que nunca quero passar. Ademais, bom retorno às atividades, amigo Ricardo.

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  3. Nat disse:

    Ricardo, tomei a liberdade de citar seu post no meu blog. Embora em contextos diferentes, também reclamei lá de certos “desconfortos” gerados no carnaval. ;- )

    Bjs

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  4. Colafina disse:

    Civilidade, o que sustenta a vida em grupo. Isso é o que desaparece quando o materialismo exacerbado suplanta os valores morais. Educação, respeito, compaixão, solidariedade, altruísmo, valores que costuram os relacionamentos, somem como que por encanto.

    Tenho uma visão simplista sobre o problema. Sociedades [países, cidades, bairros…] mais educadas resolvem melhor seus problemas de convivência em grupo, por isso considero que a falta de educação [a educação formal+cultural+exemplos+cobrança política+…], aliada à luta pela sobrevivência [distribuição desumanamente desigual de riqueza+desemprego+competição+…], à massificação televisiva [tv aberta+bundas+programas de auditório+bundas+reality’s+bundas+…], à valorização do consumo e da vaidade como realização suprema, à banalização das mazelas humanas, provocam uma inversão absurda de valores e criam uma crosta nos indivíduos que impede, ou dificulta, aflorar sentimentos e atitudes ditos ‘civilizados’, ou ‘racionais’.

    E quem sente deconforto por este ‘status quo’, infelizmente, parece ser uma minoria. É pena.

    Putz! Desculpem o tom “meio” down, até pensei em reescrever, mas não sairia muito diferente. Deve ser algum tipo de síndrome carnavalesca… explico, fujo [quando posso] do carnaval como o diabo foge da cruz. Patroa e eu nos escondemos num sítio, com chuva e tudo, de domingo até agora há pouco, verdadeira terapia…

    Grande abraço
    Alexandro.

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    • Ricardo C. disse:

      Alexandro, parte do meu tom queixoso se parece com as tuas observações. Só não sei se sou tão pessimista, porque há uma diversidade de grupos com ações as mais diversas operando de maneira cotidiana, em diversos níveis socioeconômicos, que funcionam como resistência e se mostram fortemente criativos no trato com as complexas questões que a contemporaneidade oferece. Dá para sermos um pouquinho mais otimistas, creia, ao menos se pensarmos para daqui a duas ou três gerações. A gente, creio eu, ainda vai se irritar muito!
      Bom ler as tuas reflexões, são bastante importantes.

      Abração

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  5. Pingback: Organicismo, diferente de determinismo – Agora com dazibao no meio

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