Ouvindo O cinema

A obra do cineasta Andrei Tarkovski (Андре́й Арсе́ньевич Тарко́вский) foi uma das que mais impactou as minhas retinas, desde o dia em que comecei a me interessar por cinema para além de simplesmente “assistir filmes”**.

Friso: suas películas não se deixam ver tão facilmente. Doação, sacrifício — “sacro ofício”, e também Offret (1986), título do seu último filme —, devoção, são importantes ingredientes para mergulhar (sem afogar-se) na vastidão da imaginação do diretor. Mas não se assuste, não é preciso ser religioso para tal — embora muito de sua obra trate de um tema que atravessa muitos dos seus personagens: o “não-lugar” contemporâneo para a vida espiritual.

[E por vida espiritual, entenda-se: um percurso pessoal, frequentemente descolado das religiões institucionalizadas, e ao mesmo tempo embebido em reflexão — sim, reflexão —, contemplação, e acompanhado de fartas doses de ascetismo. Aliás, não à toa encontramos, na obra de Tarkovski, algumas dessas mesmas características. É como ele vê o próprio ofício, e também como exorta os novos cineastas a exercê-lo.]

Em “Tempo de Viagem” (Tempo di Viaggio, 1983), documentário para a RAI realizado durante a busca de locações para seu filme “Nostalgia” (Nostalghia, 1983), ele conversa longamente com Tonino Guerra, com quem trabalhou no roteiro do filme. (Um adendo, para os poucos que não sabem: Tonino Guerra é um gigante. Trabalhou com Antonioni, Fellini, os irmãos Taviani, De Sica, Monicelli e Angelopoulos, entre outros. Precisa dizer mais?) E dessas conversas, pontuadas por imagens de belos lugares para os possíveis planos-sequência do filme — uma pontuação habitual na linguagem do diretor —, capturei algumas passagens que considero relevantes, seja por tratarem daqueles que influenciaram a cinematografia de Tarkovski, seja por suas ideias a respeito do que é importante para um jovem cineasta, ou sua relação com a ficção. Poderia falar de tantas…

Aqui, quando fala do “ascetismo” (estético) de Robert Bresson, um cineasta que, em sua opinião, teria alcançado a simplicidade absoluta no cinema, que Tarkovski compara a Bach na música, a Leonardo da Vinci na arte e a Tolstói na literatura. (Só por isso estou à cata de “O Dinheiro”, seu último filme, baseado justamente em Tolstói e premiado em Cannes, em 1983. Aliás, logo depois de receber seu prêmio, subiu ao palco Tarkovski, que ganhou um por “Nostalgia”, e ambos saíram de lá abraçados.)

Ou neste, quando começa falando da facilidade (técnica) de se fazer um filme, acrescentando mais adiante que todo diretor tem uma “responsabilidade moral” ao filmar, e que esses filmes deveriam ser sempre “como a própria vida” de quem o realiza…

… e aqui, ao responder a uma pergunta sobre ficção-científica, e onde diz não gostar do gênero, “… assim como não gosto de escapar da vida”, associando os gêneros ao (mau) cinema comercial, de que ele não gosta… e quando comenta sobre seu filme “Solaris”, que não considera tão bom, justamente por não ter conseguido fugir do gênero ficção-científica, “… dos detalhes ficcionais” — dizem que o autor do livro que deu origem ao filme, Stanislaw Lem, não permitiu que Tarkovski omitisse esses tais detalhes —, e de sua satisfação por ter “superado o gênero” em seu filme “Stalker”, que também se baseava numa história de ficção-científica.

Bom, falta falar sobre “Nostalgia”, filme de que não me canso, mas que merece um outro post. Enquanto isso, ainda me resta preencher a incompreensível falha em minha experiência tarkovskiana: assistir a “Andrei Rublev” (1966), outro ícone do diretor, que por sinal acaba de ter seu “Roteiro Literário” publicado pela Martins Fontes.

Ah, darei um bom intervalo antes de falar de novo sobre ele, não se preocupem. Sei bem que se por um lado Tarkovski não me cansa, por outro certamente cansarei os demais com tanto blábláblá sobre ele.

Para terminar, dois sítios interessantes sobre Tarkovski:
andreitarkovski.org (em espanhol)
Nostalghia.com (em inglês)

__________________

** Confesso: há tempos que voltei a meramente assisti-los e, quase sempre, esquecê-los, ao menos a grande maioria. Vai ver devo trabalhar isso na minha análise.

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8 respostas para Ouvindo O cinema

  1. miltonribeiro disse:

    Humildemente, venho a me incluir como um dos que escreveu sobre o ENORME, IMENSO e ESSENCIAL cineasta Andrei Tarkovski.

    Aqui: http://miltonribeiro.opsblog.org/2008/11/03/esculpir-o-tempo-de-andrei-tarkovski-ou-escrevendo-sobre-uma-coisa-refiro-me-a-outra/

    Excelente post, filmes, etc.

    Grande abraço.

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    • Ricardo C. disse:

      Milton, relendo o teu post, e lendo tb o seu comentário por aqui, só posso acrescentar que fiquei contente de ter tido o trabalho de editar esses vídeos. Não quis falar muito desta vez — coisa difícil, diga-se de passagem —, porque ver o Tarkovski conversar com o Tonino Guerra é muito melhor! Aliás, o título desse documentário te leva a um blog onde vc poderá “encontrá-lo”, caso queira assistir.

      Abraço recíproco!

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  2. osrevni disse:

    Governador, também sofri com meus Tarkovskis (e nem foram tantos), e sinto que, de alguma forma, tê-los visto fez de mim uma pessoa melhor e mais completa. Não estou me expressando bem, mas achoq ue você me compreende…

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  3. Antonio disse:

    Salve

    Caro, o artigo sobre descriminalização das drogas no site do Globo é seu?

    abs,

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    • Ricardo C. disse:

      Não, Antonio, nem fiquei sabendo… Há de ser um homônimo. Vou dar uma olhada.

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      • Ricardo C. disse:

        Antonio, acabei de ler. Não é um artigo ruim, mas também não chega a ser propriamente bom. Que as políticas de tolerância zero e criminalização total do consumo são um fracasso, até as pedras sabem, embora reconheça que valha a pena reforçar essa questão — e um exemplo dessa necessidade de reforço pôde ser observado pelo primarismo do debate sobre o assunto na época da estreia do filme Tropa de Elite.
        As “previsões” que o meu homônimo faz sobre o aumento inicial do consumo caso as drogas leves fossem legalizadas me parecem chute, por mais que eu talvez chutasse da mesma maneira. Digo chute haja vista não se ter dados confiáveis sobre o atual consumo e as características dos consumidores… Por último, o fim do artigo era previsível: “devemos continuar discutindo a questão da descriminalização”, blábláblá…

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  4. Pingback: Márcia Regina

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