Vinte e quatro por cento de um meme (ou apenas 6 bodes na minha sala)

Camila, uma graça de amiga e ótima colega aqui do OPS!, me colocou numa roubada: escrever 25 bobagens (ou não) que cometo ou cometi na vida. Bom, se você seguiu o link e leu os comentários ao post, terá visto o que escrevi. Mas se ficou com preguiça, transcrevo:

1) Tenho horror a expor minhas idiossincrasias em público… (agora repita mais 24 vezes!)

P.S. Em compensação, numa conversa com um ou dois amigos, sou capaz de desfiar bem mais do que 25, mas sempre com a ingênua expectativa de que os tais amigos sejam tão discretos com as minhas quanto eu serei com as deles!

Depois disso, ela e eu conversamos via skype, e acabei ratificando o pê ésse aí de cima. Mas na sequência dessa conversa li um post do NPTO (que recebeu a tarefa do Hermenauta, que recebeu do Sergio Leo, que… ad infinitum) onde eu era incluido num meme bem parecido ao que a Camila me passou: contar seis segredos sobre a minha pessoa… Resultado? Acabei lembrando da piada dos bodes na sala (que não vou contar, mas, mesmo assim, se alguém ainda quiser conhecer, recomendo que pule este parágrafo e vá direto aos itens numerados). No meu caso, do nada, apareceram 25 bodes na minha própria sala, e a vida ficou um inferno. Daí que, de uma hora para a outra, surgiu a possibilidade de me livrar de 19. Se soubessem como tudo ficou maravilhoso com apenas 6 bodes dentro do meu apartamento! Vida que segue, é hora de passar esses bodes adiante, e o faço falando a respeito:

1) Brasília, 1982. Não lembro a razão, mas tive que ir ao Palácio do Buriti. Como dali seguiria para o meu treino de saltos ornamentais na piscina do Círculo Militar — êpa, isso até que serve como número dois! —, trajava eu uma bermuda e um par de chinelos. O segurança, entendendo que eu “quebrava o protocolo”, impediu que entrasse “de calça curta”. Não me fiz de rogado. Dirigi 22 quilômetros de volta para casa, peguei uma calça de pijama e voltei para lá. Na frente do segurança, vesti a dita calça. Ele levou na esportiva e me deixou entrar, já que nas regras do recinto nada havia sobre calças para dormir. (Como se é petulante na juventude, não?)

2) Ainda em Brasília, mais ou menos na mesma época. Numa festa à fantasia, fui um dos que recebeu a incumbência de julgar qual a melhor. O título, numa contenda apertada, coube a este senhor, que vestia um belíssimo longo branco de Cinderela, além de maquiado à perfeição — e cego como uma toupeira, segundo disse, já que tirara os óculos, pois o modelito não os comportava. (Ele venceu, por pontos, um outro rapaz vestido de bruxa, que se dera ao trabalho de costurar uma coruja no ombro.)

3) De novo na década de 80 do século passado, mas agora morando na Cidade do México. Dois amigos meus resolveram levar um primo californiano deles (de 16 anos) para conhecer o verdadeiro “México profundo” (sic), e convidaram-me para a empreitada. Fomos então para as proximidades do centro da cidade, a uma praça de nome Garibaldi, e nos encaminhamos para o (finado) Ay Cocula, uma casa noturna frequentada pela fina flor do lumpesinato mexicano, e onde, nas palavras (em tom grave e solene) de um professor sueco — que lecionava neurofisiologia em minha universidade (e é uma figura que vale outro post) —, se encontravam “las putas más gordas de la Ciudad de México”. De posse dessa inside information, os quatro chegamos lá e esperamos que abrisse — o que só ocorria à 1:00 da madrugada, depois que alguns dos estabelecimentos mais famosos e bem frequentados das redondezas fechassem —, para então confirmar o diagnóstico do professor sueco: eram gordas, muito gordas! Já devidamente instalados em uma mesa, observamos o tal de modus operandi dos habitués, percebendo que havia duas “taxas” que vigoravam no local: a primeira era o preço que as moças cobravam para dançar, que correspondia a 5 pesos (algo em torno de 2 centavos de dolar); e a segunda, o preço para conversar, girando em torno de 20 pesos (façam as contas). Nós três (o gringo adolescente não bancou) resolvemos, mui respeitosamente, solicitar a algumas meninas que dançassem conosco — atitude incomum a nossa, já que a “prática habitual” era a de simplesmente arrastá-las pelo braço até o meio do salão —, cabendo a mim fazer par com uma das, digamos, mais rotundas, uma vez que as minhas mãos mal alcançavam enlaçar-lhe a cintura, e bem longe de tocar-se… Além disso, tive a nítida impressão de que o seu vestido não passava de uma camiseta tamanho… ah, sei lá!, e que mal lhe cobria a calcinha — e diria que o “inha” foi uma licença poética de minha parte.
Bom, terminadas as danças, descobrimos que nossa atitude foi muito apreciada: nenhuma delas nos cobrou um peso sequer! E antes que a perfeição da noite se perdesse em outras tratativas — entabular algum diálogo, por exemplo… ô mentes polutas, essas de vocês! —, resolvemos que a noite de “México profundo” já tinha chegado a bom termo e nos escafedemos dali, já que o lumpenproletariado local passou a nos olhar com ares de poucos amigos…

4) Outra vez no México, no ano de 1986. Numa bela viagem de carro pelos estados de Guerrero e Oaxaca, acampei numa praia de nome Zipolite. A foto do link aí atrás mostra exatamente o finalzinho da praia, a parte dela onde alguns incautos europeus costumavam praticar nudismo. E este que vos fala, embora nem um pouco europeu, resolveu fazer o mesmo, ainda bem cedo pela manhã. Mas era sábado, e o turismo local costumava aparecer por lá. Eis que três autóctones, com o teor alcoólico lá no zênite, resolveram não só mostrar-se impudentes, como um deles tratou de mergulhar perto da enorme pedra que é a marca registrada dessa praia. Os gritos de socorro não tardaram, e um dos dois amigos despudorados se jogou para salvar o primeiro, que começava a ser levado pela correnteza. Pois não é que este outro acabou levado do mesmo jeito? Foi quando um bravo espanhol impediu o terceiro de seguir o rumo dos outros dois, enquanto um atlético norueguês se lançou para acalmar os dois primeiros, que gritavam em desespero, levando-os até um banco de areia em pleno mar, perto da abertura no meio da enorme pedra. Pois coube a mim, como vim ao mundo, nadar até eles segurando a ponta de uma longa corda, para depois nós quatro — relembrando: os dois autóctones alcoolizados, o atlético norueguês e eu — sermos puxados por um grupo de igualmente despudorados auxiliados por dois guardas, estes devidamente fardados, que por sinal costumavam chegar ali todos os dias por volta das 11 da manhã, justamente para mandar parar com aquela pouca vergonha — mas permitindo às mocinhas continuarem de topless. Foram bem umas cinquenta pessoas, de todas as cores, idades e nacionalidades, que nos receberam com aplausos, unidas pela nudez e, passado o susto, pelo riso.

5) Cidade do México, de novo palco de outro “segredo”. Durante uma reunião na casa de uma namorada mexicana, um dos irmãos levou uma moça francesa, que mal entendia espanhol. Educado que sou, funcionei como intérprete durante parte da reunião, explicando, por exemplo, que todos aqueles gritos dos “locais” não queriam dizer que estavam brigando, e que tudo corria bem. Ao final da reunião, depois da partida da francesa, minha “sogra”, uma lacaniana metidíssima — desculpem o pleonasmo —, comunicou-me que não admitia que eu ficasse flertando com alguém na frente de sua filha, e, sem me dar direito de defesa, simplesmente retirou-se. Minha namorada, para minha surpresa, baixou os olhos e acatou o que sua mãe dissera, não me restando outra alternativa que não a de sair dali consideravelmente enfurecido (a palavra certa é outra). De volta a casa, sem saber como agir, coube ao meu então cunhado mexicano dar a receita: fazer uma serenata. Apresentou-me algumas canções, mas naquele momento só consegui decorar uma delas. Depois disso, tomamos algumas diretrizes: meu cunhado ligou para mais três pessoas e pronto, a banda estava formada, e todos logo vieram a minha casa. Precisávamos só de mais uma coisa: calibrar os espíritos. Para tal, nada como um tequila Herradura Reposado, um rum Havana Club, e mais algumas cervejas, para equilibrar. Depois disso, hora de ir à casa da moça, cantarmos meio desafinados e esperar alguma reação positiva ou negativa — que poderia variar de xingamentos a baldes de água, e, no extremo, até tiros). Infelizmente, aconteceu o pior, isto é, nada aconteceu. Restou cantar algumas canções ditas “ardidas” (típicas de quem está “pê da vida” com a suposta amada), e por milagre, duas delas eu conseguira decorar. Feito isso, um dos integrantes do grupo, designer de mão cheia, ajudou a pichar o muro da casa da “agora ex” — mas a frase, que me recuso a revelar, ainda era “cheia de amor pra dar” —, e seguimos todos numa velha kombi em périplo rumo às casas de várias ex dos integrantes da banda, e em todas elas pichamos mais alguma coisa melosa, que por fortuna o teor alcoólico se encarregou de escorraçar de minha memória…

6) Eu disse seis? Ué, eu já tinha escrito o primeiro “segredo” e nem percebi: embora tenha um blog e até escreva algumas coisas pessoais bem disfarçadas, sigo tendo horror a expor minhas idiossincrasias em público…

😛

[E por favor, deem um desconto, até por que as histórias ficaram bastante compridas, não é?]

Bom, falta agora livrar-me definitivamente dos bodes, deixando-os nas moradas de outros seis: o Antonio Engelke (do 30Segundos), a Lu (do É bom pra quem gosta), a Aline (do Jusqu’ici tout va bien), o Milton Ribeiro, o Guga Alayon e o Luiz (do De olho no fato). Pronto, os bodes são de vocês!

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39 respostas para Vinte e quatro por cento de um meme (ou apenas 6 bodes na minha sala)

  1. Ricardo, o NPTO me pôs na mesma roubada . Não tinha como fugir da raia, né não? Você mandou bem , ainda mais para quem tem horror a expor suas idiossincrasias…Bom, quanto a mim, até agora não sei como tive coragem de expor as minhas… Abraço

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  2. camilalpav disse:

    É a blogalização do PostSecret!! Adorei todos os bodes – e principalmente o terceiro, ao qual fui apresentada via skype! -, mas o mais maravilhoso mesmo dos seus segredos são os comentários entre travessões e parênteses… Estou com a barriga doendo! 😀 Beijos!

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    • Ricardo C. disse:

      Camila, não vale, você já é minha amiga e ainda por cima daquelas bem condescendentes. Se o inverso tivesse acontecido, eu teria feito muxoxo com a ausência de mais 19 bodes, hehehe!
      Beijos, e que bom que te fiz rir!

      P.S. Não tenho ideia de por que vc caiu na moderação, a esta altura do campeonato… 😦

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  3. Anrafel disse:

    “1) Tenho horror a expor minhas idiossincrasias em público… ”

    Todos, imagino, tem. Mas aqueles que fazem isso e, pior, escrevendo, já saem na frente. É como o uso elegante da auto-ironia. Eleva.

    Agora, um reparo: acho que você foi injusto com Lacan ou as lacanianas. O cara tem lugar assegurado na história da teoria psicanalítica – afinal, a pessoa que não entendia nada de psicanálise, depois de Jacques Lacan passou a não entender ainda mais.

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  4. gugaalayon disse:

    O buchada do bode aqui declina o convite. prometi ao meu terapeuta que não entraria jamais outra vez em memes ou correntes.
    Abraços viscerais

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  5. dona sra Urtigao disse:

    Não sei como escorreguei e cai aqui, o que foi ótimo, pois andava mesmo necessitando rir um pouco.Comento para deixar um elogio e agradecer pelas risadas proporcionadas (especialmente as lacanianas) e deixo explicitado que não há precisão de retribuir visita, pois ando meio Urtigão demais.

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  6. lu disse:

    ricardo, essas 5 valeram por muito mais que 25! que delícia suas histórias e seu jeito de contá-las. insuperáveis!
    eu agradeço a passada de bola, mas depois que participei do meme do “Eu já…”, não sobrou nada. vou tentar me lembrar de algumas peripécias que combinem com o tema geral do ébompraquemgosta, e se conseguir juntar algumas, publico o post; mas de fato, duvido alguém na blogosfera ter uns bodes mais interessantes e belamente contados que os seus.
    (confesso que me deu uma baita vontade de dividir uma mesa de boteco com você, hahaha)
    beijo!

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    • Ricardo C. disse:

      Lu, baita elogio esse! E é verdade, tive a oportunidade de ler o seu post do “Eu já” e o que vc colocou de histórias, além de terem sido muitas, não são pra qualquer um, viu? 😉

      E quanto à mesa de boteco, infelizmente não está na pauta ir à São Paulo tão cedo. Mas se por acaso acontecer de vc resolver passar pelo Rio, conheço ótimos botecos pra sentarmos e gargalharmos, dada a certeza de ótimas conversas!

      Beijão

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  7. NPTO disse:

    Cara, excelente. Essas do México são inacreditáveis. Se um dia eu fizer outro blog, se chamará “As putas mais gordas do México”.

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  8. Luiz disse:

    Ricardo,

    Já atendi o amável convite para abrir minha caixa de Pandora particular…

    Não saiu grande coisa (auto-censura é f…), mas melhor que nada.

    Com certeza, bem longe das aventura astecas do companheiro…

    Abraços

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  9. Pax disse:

    Ôpa.

    Ricardo,

    Uma ameaça: Se você não escrever um livro de contos, trarei todas as putas mais gordas do México para morarem do lado da tua casa.

    Tão simples quanto isso.

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  10. Anrafel disse:

    Pax e Ricardo,

    Acho prudente o livro não se chamar “Memória de minhas putas gordas mexicanas”.

    Pode dar demanda.

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  11. aline disse:

    Ricardo!!

    Só agora que eu notei que tinha sido convocada!
    Já to escrevendo, mas, ai, que difícil!!!! 😀

    Bjos

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  12. aline disse:

    Echo.

    Fazia tempo que eu não mexia nos meus segredinhos. Puxa, puxa. Foi uma coisa mesmo, escreve-los.

    bjos!

    (mas eu ainda prefiro os seus…. 🙂

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  13. Pingback: aderindo ao mémê dos 6 segredos (irre)veláveis | Googala

  14. lu disse:

    tá lá, postei o meu!
    mas ficou picareta, rs.
    beijo!

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  15. Antonio disse:

    Caraio, Ricardo… Faz isso comigo não, cara.

    Pode não parecer, mas sou meio tímido.

    E além disso, lá no blog são só 30 segundos… O que dá para 1 bode. 2 no máximo. 🙂

    Abração,

    ACT

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  16. Ricardo C. disse:

    Pessoal, desculpem não responder a todos e nem poder ver os divertidos segredos de vocês, esses mesmos que deixaram de sê-lo. Estou fora de casa, apenas peguei meus e-mails e vi que o movimento anda a toda! na terça-feira que vem eu volto, leio tudo e comento, carinhosamente (e debochadamente, quando for o caso!).
    Abraços e beijos respectivos, sim?

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  17. joao~grando disse:

    Quais serãs as putas mais gordas do mundo inteiro?

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  18. Nat disse:

    Revista Piauí, número 29, fevereiro/09, página 8: “No portal multiply.com, as perspectivas se assanharam com um fórum intitulado “Coisas de Copacabana, ou por que Kelvin?”, mas, também ali, nada se achou de conclusivo. “Variação de Calvin Klein”, sugeriu um. “Corruptela da pergunta ‘Quer vir?’, que em bom português é dito ‘Qué vim?'”, arriscou outro… ”

    Me lembrei da discussão na hora, hehehe
    Saudades de vc.

    Bjs

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    • Ricardo C. disse:

      Nat, vou ter que comprar a Piauí. Uma amiga me avisou e até me cadastrei para ler o artigo, mas esse daí é só para assinantes… E é o meu post mesmo, só tem esse por lá! (Bem que podiam ter entrado em contato comigo, né? Humpf!)

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  19. Nat disse:

    Meu amor, claro que é o seu hehehehe Me lembrei até dos comentários que a revista cita!!!

    Eu tenho a revista aqui. Vou recortar e emoldurar pra vc hahahaha

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  20. Pax disse:

    Tá chique esse Ricardo Cabral.

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