O termômetro quebrou. Tentei recolher o mercúrio, mas ele não se deixou.

Ela sumiu.

Ela escreveu.

Ele leu. E respondeu.

… A interlocução com alguém que não seja eu sempre foi o meu forte. Mas não uma interlocução com fantasmas que pertencem a esse alguém. Se só me cabe seus fantasmas, com o passar do tempo eles fazem estrago…

… Sim, tenho que reconhecer, já esperava que você falasse em “ternura”, não mais do que ela. E você sabe que ela é pouco, mesmo sendo muito. Mas não perco isso de vista, o fato dela ser muito. Mas com um quê de migalhas…

… Dou enorme importância à palavra, que por mais que se abra a múltiplos significados, decerto define nortes, orienta, agrupa, categoriza. O silêncio é bem mais complicado, porque faz com que outras palavras entrem no circuito, palavras de épocas diferentes brigando pelo primeiro lugar, fazendo barulho e embaralhando o presente…

… Paro aqui com os “amo você”. Foi difícil começar a dizê-los, não é do meu feitio falá-los a qualquer momento, para qualquer pessoa. Por isso levei tão a sério quando você os disse pra mim, tantas vezes. Isso é que é bem difícil: a velocidade da mudança, do esvaziamento, da transformação, que fez com que só restasse o meu por você. Dizer “amo você” só faz sentido na reciprocidade. Fora do “dois”, do “entre”, perde o sentido anunciá-lo…

… Fico com a ternura, a que também sinto por você. Fico não: resigno-me. Ainda temos algo a dois.

Seguiram-se dois dias de um choro convulsivo que ninguém viu, mais quatro anos e dez meses sem saber dela.

No décimo primeiro mês do quinto ano ela ligou.

Casaram-se no ano seguinte, o sexto.

Antes disso ele comprou um termômetro novo e largou a razão na estante, junto aos livros de filosofia.

Não tiveram filhos.

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5 respostas para O termômetro quebrou. Tentei recolher o mercúrio, mas ele não se deixou.

  1. Darwinista disse:

    Ótimo, Ricardo.

    E, pra mim, com um significado especial e particular.

    Valeu.

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  2. Pax disse:

    🙂

    O post do Ricardo me deixou intrigado, não sabia o que dizer.

    Vai ter boas idéias sobre escritos assim lá na minha futura editora de romances, pô.

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    • Ricardo C. disse:

      É meio estranho mesmo, Pax, mas resolvi deixar assim. Li uma carta num tom mais ou menos parecido, cheio de intelectualizações sobre o fim de uma história, algo no fundo meio “as uvas estavam verdes”, e achei que valia brincar um pouco com isso.

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