Antropológicas

Da conversa sobre a sexualidade nos povos indígenas do Brasil surgida nos comentários do post abaixo, acabei lembrando da descrição, feita pelo antropólogo José Carlos Rodrigues — em seu interessantíssimo livro “Tabu do Corpo” (Dois Pontos, 1986) — dos peculiares hábitos alimentares de um povo do hemisfério norte, que

[…] costuma ingerir pela manhã, num estranho ritual, a secreção de uma glândula de um determinado mamífero, ao qual misturava-se líquido de cor terrivelmente negra; figurava, ainda, nessa tétrica cerimônia, uma gosma que determinados insetos vomitavam, células reprodutoras de aves e determinadas pastas gordurosas. ( p. 68)

É, obviamente, uma provocação. E minha, já que o próprio autor diz tratar-se simplesmente […] de uma apetitosa refeição matinal ao estilo americano, constituída de leite, café, mel, manteiga queijos e ovos” (id.), e que o que aqui se operou foi tão somente uma inversão dos termos gramaticais usuais na hora de descrever uma refeição, gramática essa […] que nos permite controlar culturalmente os eventos naturais” (ibid., p. 69), uma inversão que talvez tenha causado asco num ou noutro dos que leram e desconheciam o exemplo…

Enfim, tratar “o próximo como distante” e “o distante como próximo”, de forma a não só aprender sobre o outro, mas sobretudo sobre nós mesmos, é um exercício de resultados no mínimo surpreendentes.

E recomendo a leitura não só desse título, mas também outro do mesmo autor, “Tabu da Morte“, livro ainda bastante vivo em minha memória.

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19 respostas para Antropológicas

  1. Antonio disse:

    E além de tudo, o Zé Carlos é muito gente boa. Professor do tipo mais raro: sabe pra cacete, mas não vomita erudição, nem olha vc de cima para baixo. Tive o prazer de ser aluno dele.

    Lançou ano passado um livro reunindo vários artigos — “Comunicação e Significado. Escritos indisciplinares”. Vale a pena.

    abs,

    ACT

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  2. Pax disse:

    Inventário sobre o tema – achei nas arrumações que ainda continuam:

    – Diários da Floresta – Betty Mindlin
    – Ieipari – Sacrifício e Vida Social enre os Índios Arara – Márnio Teixeira Pino

    Confissão: abri pela terceira vez um tal de Os Deuses Gregos – Giulia Sissa e Marcel Detienne – e não deu pra continuar, pela terceira vez. Muito prolixo e chato. Ainda bem, senão já ia começar um outro blog de um dislexo curioso.

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  3. Pax disse:

    Inventário sobre o tema passado:

    – A Revolução Sexual – Wilhem Reich – esse é muito bom, fazia um tempão que não via a cara dele.

    Sobre outro tema:

    – Discurso sobre o Método – do Descartes, uma edição de 1952 que comprei num sebo no Rio – onde li, achei minhas sublinhadas originais do resumo do método, juro que depois vou transcrever aqui, ou alhures. É mais que muito bom, um pouco diferente nos termos do resumo que faço e posto durante anos. Acho que até tem aqui no Ágora essa minha leitura.

    Inventário: revi depois de perdidos na zona geral, os dois do Antonio Cicero que tenho, A cidade e os Livros, e Guardar. São acepipes pra quem gosta.

    Tô como um pinto jogado solto numa enorme lixeira, nem sei pra onde olho e cisco de tão faceiro. Mais alegre que viuva que encontra menino virgem querendo aula.

    🙂

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  4. Colafina disse:

    Ciscando no meio de livros velhos, Pax? Bom demais! Como se diz no linguajar gaudério, você deve estar “mais contente que égua com dois potrilhos!”
    Um abraço.
    Alexandro

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    • Ricardo C. disse:

      Alexandro, sem querer me meter nessa gauderiação toda de vocês, quando é que vou ler um novo post lá no Colafina & Cascagrossa? O blog segue de férias?
      Abração!

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      • Colafina disse:

        Ricardo,
        Depois que minhas férias do trabalho acabaram, no início de dezembro, tudo o mais na minha vida entrou em férias pelo retorno em nova – e mais atribulada – função, incluindo o blog. Mas espero seja por pouco tempo, já tem material encaminhado, qualquer dia publico.
        Um abraço
        Alexandro.

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      • Ricardo C. disse:

        Seguirei passando pelo teu blog para conferir!

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  5. Pax disse:

    Pois é Alexandro,

    Tô igual a bagual em chineiro chique com guaiaca cheia de patacão.

    Abraços

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  6. Gwyn disse:

    Pax,

    E traduzindo voce disse..? ( acho que nao consigo encontrar um dicionario com todos esses termos ) 😉

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  7. Pax disse:

    Gwyn (Tíchita),

    Bagual: Cavalo arisco, que ainda não foi domado ou recém domado.
    També pode ser usado para definir um homem grosso, rude, estúpico, insensível com as palavras.

    Chineiro: cara de tolerância, puteiro – não sei bem porque usam esse termo no Sul. Vou procurar.

    Guaiaca: Cinto usado pelos gaúchos, grosso, cheio de compartimentos, um deles para as notas, outro para as moedas, outro para munição etc.

    Patacão: (40 réis ) Pataca, lá pras bandas de Minas Gerais no tempo ainda do vintém e do mil réis é dinheiro.

    ps.: tudo achado na web, nem conferi aqui nos meus dicionários… mas é por aí.

    Então fica:

    Tô igual um cara grosso do interior, das fazendas, em puteiro chique, com os bolsos forrados de grana pra gastar.

    🙂

    bjs

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    • Colafina disse:

      Pax e Gwin,
      Consultando dicionários gauchos:

      China: Descendente ou mulher de índio, ou pessoa do sexo feminino que apresenta alguns dos característicos étnicos das mulheres indígenas. Cabocla, mulher morena. Mulher de vida fácil. Esposa (Parece provir do quíchua, xina, que significa aia).
      Chineiro: Grande número de chinas, índias ou caboclas.

      No linguajar corrente, são muitas as conotações dadas ao termo ‘china’, tanto pejorativas quanto elogiosas, dependendo do contexto onde é utilizado.

      Na frase do Pax, Chineiro, dada a conotação mundana do termo, significa o local onde as chinas se reunem, ou são encontradas. Já para um grande número de chinas costuma-se usar chinaredo.

      Existe uma poesia falando da ‘china’, de autoria do Jayme Caetano Braun (http://pt.wikipedia.org/wiki/Jayme_Caetano_Braun), um mestre das palavras no mundo gaudério, que pode ser lida aqui (http://www.galpaovirtual.com.br/china.html), ou ouvida aqui (http://www.youtube.com/watch?v=HH0ZEVfb7pg&feature=related) na voz debilitada do Jayme já doente, pouco antes de sua morte.

      Espero que o Ricardo me perdoe pelo desvirtuamento do seu post, e que o filtro do OPS seja camarada com links!

      Um abraço
      Alexandro.

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  8. Ulisses Adirt disse:

    Viva na minha memória vai ficar a sua citação no meu próximo café!

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