Latitude 22°52'43.34"S, Longitude 43°15'3.16"O

Um calor imenso. E na hora em que o ônibus aproximou-se de lá, a passageira ao meu lado, até então conversando animadamente sobre o clima, olhou para os lados e baixou o tom de voz, como se precisasse medir as palavras, refreando qualquer demonstração mais explícita de contentamento. De medo tampouco, ao menos não em doses que pudessem irritar alguém importante por lá.

As únicas viaturas militares que vi ficaram pelo caminho, algumas centenas de metros atrás. Tudo calmo, sem tiros de fuzil, sobrevoo de helicópteros Huey II ou sirenes — bem diferente do habitual, segundo ouvi de outro passageiro que saltaria no mesmo lugar que eu.

Com a atenção voltada para o ponto onde desceria, esqueci de perguntar o nome da senhora que ficou no ônibus, mas não deixei de agradecer-lhe pela indicação do ponto onde eu deveria saltar, e ainda desejei-lhe um bom dia, apesar da canícula.

São 14:40. Estou em plena Faixa de Gaza.

*  *  *

Quase 23:26, há horas saí de lá. E agora a pouco, já em casa, encontrei alguns dados sobre o lugar:

3,7 habitantes/domicílio.
Renda média per capita: U$ 62.87
IDH = 0,60
Elevados índices de poluição

[Hora de voltar ao meu relato.]

*  *  *

“Pela portaria, senhor”.

Entendi logo o meu engano: aquele acesso era para carros, não pedestres. No posto de controle, ou o que poderia ser chamado assim, sigo as instruções e dou um passo atrás para ser fotografado. Só estranho não receber nenhuma crachá ou identificação junto com o documento de identidade que mostrei, mas logo alguém me explica que pouco importa, já que se trata de algo pro forma, o paradoxo de um controle que nada controla.

Uma vez lá dentro, faço o que vim fazer, falo com quem vim falar, visito as instalações, ouço algumas histórias e pronto, hora de ir embora. O céu segue claro, são 17:15 e a maioria dos que por lá costumam circular saiu às 5, nem um minuto depois. Confirmo o tal pro forma, pois saio por outro acesso e ninguém checa nada. Na saída, nenhum sinal da Faixa de Gaza. A minha frente, apenas a Avenida Brasil e os 11 quilômetros e meio de volta para casa, para o computador e para a leitura das notícias de outra latitude e longitude, imagens que têm revolvido o estômago de todos nós, e aposto que também da senhora com quem falei no ônibus 350, linha Passeio-Irajá.

Não vem ao caso falar dos porquês de minha visita à Faixa de Gaza carioca; no máximo informo que há grandes possibilidades dela fazer parte do meu cotidiano daqui a alguns meses. Se isso acontecer, descobrirei logo se a alcunha que essa região da cidade é adequada. Repito: “adequada”, porque “justa” definitivamente não é.

É triste, sem dúvida tristíssimo o apelido que essa área recebeu. Mais triste ainda, porém, é o que hoje acontece na região de onde vem o nome, aquela na latitude 31°31’N, longitude 34°26’L.

*  *  *

Uma imagem da “Gaza de cá”, tirada do Google Earth:

As áreas que colori — só 9, a partir de um mapa que encontrei —, representam algumas das comunidades da área. Sei de apenas 11 nomes: as favelas Parque Oswaldo Cruz, Vila Turismo, Parque João Goulart, a CHP-2, a Vila União, a favela Parque Carlos Chagas, os Conjuntos Nelson Mandela e Samora Machel, a Mandela de Pedra, a Nova Mandela e a Vitória de Manguinhos (CONAB); a área mais arborizada na parte central-superior da foto, com alguns prédios em seu interior, é a Fiocruz; e a linha horizontal pouco abaixo da metade da imagem é a rua Leopoldo Bulhões. O bairro: Manguinhos. Embora tenha listado 11, os dados que recolhi falam em

13 Comunidades
50.000 habitantes

e também descrevem o histórico da ocupação:

1904 – Parque Oswaldo Cruz / Morro do Amorim
1941 – Parque Carlos Chagas
1951 / 1955 – Parque João Goulart, Vila Turismo, CHP-2, Vila União
1990 / 2002 – Conjuntos Nélson Mandela, Samora Machel, Mandela de Pedra, Embratel (Samora II), Comunidade Vitória de Manguinhos (Conab)

.

ATUALIZAÇÃO, na forma de um P.S. singelo, sincero e reflexivo: não há neste post nenhuma intenção de minimizar a gravidade dos fatos ou desviar a atenção da carnificina que ora ocorre na Faixa de Gaza palestina, perpetrada pelo governo de Israel. Pelo contrário: a Faixa de Gaza carioca, de cotidiano tão violento, é justamente sua trágica referência, que (ainda em vida!) gostaria que mudasse radicalmente. Desejo que o seu significado possa um dia ser redefinido e passe a aludir ao que de melhor os seres humanos somos capazes de fazer uns com os outros. E que não demore mais 60 anos para que isso aconteça.

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5 respostas para Latitude 22°52'43.34"S, Longitude 43°15'3.16"O

  1. Pax disse:

    Existe uma Gaza em cada canto, meu caro. O egoísmo humano e a “estupidez humana”, são além da tua/nossa compreensão.

    E a saída da pequena tropa da Onu da Escola Técnica Oficial de Kigali, em Ruanda, deixando 2.500 tutsis à carnificina dos hutus. Pequena parte dos 800 mil mortos por lá. Afinal, pra que mesmo serve essa ONU?

    Insistindo, batendo o bumbo, pra que mesmo serve o governo do Brasil que não olha pra quem morre todo dia sem que haja qualquer chance de justiça, como se fosse mais uma atividade cotidiana como comprar pão, ir à escola ou ao trabalho? E na Somália? E no Quênia, no Sudão, no Paquistão, na China, na Índia, no Haiti, na Rússia, no Butão? Vai longe a lista. Nem queira voltar na História, aí a coisa fede a cadáveres e mais cadáveres, injustiças e mais injustiças.

    Gaza é café pequeno, é controverso, tá na mídia, é notícia agora, é importante, envolve Israel, os EUA e os árabes de forma geral e tem bastante imagem para passar no jornal das oito. Envolve muito dinheiro. Envolve as ensandecidas religiões.

    E esses que não envolvem tanta grana? Meu amigo, são muitos. De novo, pra que serve mesmo essa ONU, afinal?

    O que não é notícia é muito maior que podemos imaginar, bom Ricardo.

    Por outro lado, olhar Gaza pelos olhos da mídia é complicado. Há erros de todos os lados por lá. Enormes erros de Israel, mas enormes erros dos palestinos também, especialmemte dos radicais. Ver somente de um lado é ruim. Pior, nao é construtivo. Aquele saco de gatos só se amenizará se não olharmos de forma emocional, tomando partidos. Todos estão errados, afinal. E muito.

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    • Ricardo C. disse:

      Pax, pensamos muito parecido, meu amigo. No fundo este post não tem latitude nem longitude, já que a estupidez humana é onipresente e atemporal.
      Produzimos Gaza.
      Somos Gaza.
      E sem perspectivas de mudança.

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  2. Pax disse:

    Cara, tô aqui empacado no Kant…. quero voltar lá com o papo. Mas tem horas que dá um nó na cabeça. Tô aqui faz horas com “A Origem do Problema Crítico”, “O Metodo Trnscendental”, “Critica Trancendental da Matemática”, “Crítica trancendental da Ciência Natural”, “Crítica trascendental da Matafísica”, “Crítica trancendental da ordem moral”, “Metafícia da Ordem Moral”, “Metafísica dentro dos limites da mera razão” e assim por diante. Kant é um elemento chave dos nossos papos mesmo.

    Saudades do tempo em que estudava essas coisas em grupo.

    Enfim, uma hora desempaco. Pelo menos tenho escrito, o que é muito bom pra mim. Pelo menos guardo meus guardados. 🙂

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  3. Ricardo C. disse:

    Sabe que nunca li Kant? Tenho cá o Crítica da Razão Pura, que além de pura é virgem: apenas folheei no dia em que comprei. Vergonha, né? Aliás, estudar filosofia, só em grupo. Sozinho é fueda!
    P.S. O Villas-Bôas já está no blogroll, na categoria “passo sempre por lá”.

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  4. Pax disse:

    Vergonha é roubar, matar ou cobiçar a mulher do próximo, se o próximo for teu amigo.

    Sorte que o marido da Dirce não conheço. 🙂

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