O sarcasmo com sarcasmo se paga

Revirando velhos arquivos de computador, deparei-me com um trabalho que fiz, em certa ocasião, para atender às exigências de uma determinada disciplina de uma certa pós-graduação. Vi, então, o poder da retórica, não no aspecto da apresentação oral, mas no sentido do arranjo das idéias, pouco importando quais forem. Sendo assim, tentei dar cabo da tarefa proposta pelo professor da matéria, a de interpretar uma tese a partir de um modelo proposto pelo dito professor, baseado no livro “O Príncipe”, de Nicolau Maquiavel. E como considerei que o professor estava “gozando” — tanto dos alunos, quanto com o exercício (maquiavélico) do poder —, tentei responder à altura, usando como texto a ser interpretado uma velha piada que circulava na Internet à época. Segue o texto, que talvez já conheçam, e sua posterior interpretação:

Fábula: Tese de Doutorado
(Autor desconhecido, texto recebido via mensagem eletrônica)

Num dia lindo e ensolarado o coelho saiu de sua toca com o notebook e pôs-se a trabalhar, bem concentrado. Pouco depois, passou por ali a raposa e viu aquele suculento coelhinho, tão distraído, que chegou a salivar. No entanto, ela ficou intrigada com a atividade do coelho e aproximou-se, curiosa:
– Coelhinho, o que você esta fazendo aí tão concentrado?
– Estou redigindo a minha tese de doutorado, disse o coelho sem tirar os olhos do computador.

– Humm… e qual e o tema da sua tese?

– Ah, é uma teoria provando que os coelhos são os verdadeiros predadores naturais das raposas.
A raposa ficou indignada:

– Ora! Isso e ridículo! Nós, as raposas, é que somos os predadores dos coelhos!
– Absolutamente! Venha comigo a minha toca que eu mostro a minha prova experimental.
O coelho e a raposa entram na toca. Poucos instantes depois ouve-se uns ruídos indecifráveis e alguns grunhidos de dor; e depois, o silêncio. Em seguida o coelho volta sozinho e, mais uma vez, retoma os trabalhos no notebook, como se nada tivesse acontecido. Meia-hora mais tarde passa um lobo. Ao ver o apetitoso coelhinho tão distraído, agradece mentalmente à cadeia alimentar por estar com o seu jantar garantido. No entanto, o lobo também acha muito curioso um coelho trabalhando naquela concentração toda. Resolve então saber o que se trata, antes de devorar o coelhinho:

– Olá, meu jovem coelho. O que o faz trabalhar tão arduamente?
– Minha tese de doutorado, Sr. Lobo. E uma teoria que venho desenvolvendo há algum tempo e que prova que nós, coelhos, somos os piores predadores naturais dos lobos.
O lobo não se conteve e caiu na gargalhada com a petulância do coelho:

– Ah, há, há, há!!! Coelhinho! Apetitoso coelhinho! Isto e um despropósito. Nós, os lobos, é que somos os genuínos predadores naturais dos coelhos. Aliás, chega de conversa…
– Desculpe-me, mas se você quiser, eu posso apresentar a prova da minha tese. Você gostaria de me acompanhar a minha toca?
O lobo não consegue acreditar na sua sorte. Ambos desaparecem toca adentro. Alguns instantes depois ouve-se uivos desesperados, ruídos de mastigação e silêncio. Mais uma vez o coelho retorna sozinho, impassível, e volta a dedilhar o teclado de seu
notebook, como se nada tivesse acontecido…
Dentro da toca do coelho, vê-se uma enorme pilha de ossos ensangüentados, peles de diversas ex-raposas e, ao lado desta, outra pilha ainda maior de ossos e restos mortais daquilo que um dia foram lobos. Ao centro das duas pilhas de ossos, um enorme leão, satisfeito, bem alimentado e sonolento, a palitar os dentes.

Moral da história:
– não importa quão absurdo é o tema de sua tese;
– não importa se você não tem o mínimo fundamento científico;
– não importa se os seus experimentos nunca cheguem a provar sua teoria;
– não importa nem mesmo se suas idéias vão contra o mais óbvio dos conceitos lógicos.
O que importa é quem é o seu orientador.

Interpretação segundo modelo proposto a partir da leitura do livro “O Príncipe”, de Nicolau Maquiavel

Objetivo: Sustentar a validade de qualquer tese valendo-se de qualquer recurso, inclusive a destruição física dos que discordarem das teses.

Elementos:
– Os lugares onde o experimento ocorre – o campo, à entrada da toca de um coelho; o interior dessa toca.
– Experimentador-participante – O coelho (suculento e apetitoso, segundo relatos dos sujeitos do experimento) – correspondendo ao Príncipe.
– Os sujeitos do experimento: A raposa e o lobo – os inimigos a serem destruídos para a manutenção do poder.
– O leão – cumprindo vários possíveis papéis: povo, forças armadas e os aliados poderosos.
– Os beneficiários do experimento – O coelho e o leão
– A astúcia do coelho – sua impassividade.
– Os argumentos (a tese de doutorado) supostamente disparatados do coelho diante da raposa e do lobo.
– A indignação da raposa.
– A jactância do lobo.
– A curiosidade da raposa e do lobo.

Método: maquiavélico (pseudo-experimental)

Interpretação:
Em primeiro lugar, contrariamente ao esperado, temos um coelho que não demonstra nenhum temor em relação a dois dos seus predadores naturais, a raposa e o lobo. Neste ponto, podemos relacionar essa auto-suficiência à certeza de contar com armas alheias e/ou um exército forte — teses expostas por Maquiavel no capítulo VII de “O Príncipe” (“Os novos domínios conquistados com as armas alheias e boa sorte.”). Do mesmo modo, o coelho demonstra possuir uma “astúcia afortunada” (Maquiavel, 1998, p. 53).

Temos também uma toca (correspondendo a um reino, um principado, na obra de Maquiavel) que pelo tamanho — cabe nela um leão! — não necessariamente pertenceu exclusivamente ao coelho. A conquista desse território precisou, novamente, da “astúcia afortunada” (id.) do coelho, necessária “aos que chegam ao poder pelas mãos do povo” (id.). É nessa toca que o coelho mantém o leão como aliado através de benesses — alimentando-o, e ao mesmo tempo fazendo do poder do leão (aqui como um composto povo/forças armadas) o seu próprio poder.

Por outro lado, ainda entendendo o leão como povo (poder), percebe-se que a dependência do mesmo em relação ao coelho — que lhe proporciona comida sem que ele (leão) necessite esforçar-se para providenciá-la — segue a estratégia maquiavélica do príncipe prudente que “procurará meios pelos quais seus súditos necessitem sempre do seu governo” (ibid., p. 56).

Os predadores naturais são levados a distrair-se, aguçados em sua curiosidade, desarmando-se e entrando na toca, onde são implacavelmente destruídos. Nesse sentido, encontramos a tese de Maquiavel que afirma: “…os príncipes que tiveram pouco respeito pela palavra dada puderam com astúcia confundir a cabeça dos homens e chegaram a superar os que basearam sua conduta na lealdade.” (ibid., p. 91). O Príncipe (coelho) “sabe agir como um animal, …[valendo-se das] qualidades da raposa e do leão” (ibid., p. 92), reconhecendo armadilhas com a habilidade da raposa e a vitalidade do leão para afugentar as próprias raposas e também os lobos.

*  *  *

Se considerarem tudo isso um deboche, terão razão, de fato foi. E a sorte esteve do meu lado, pois o professor não era filósofo e nem cientista político, assim como eu também não. Mas, pelo menos, o feitiço virou contra o feiticeiro. E passei na matéria.

[Abaixo, um coelho sem orientador]

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15 respostas para O sarcasmo com sarcasmo se paga

  1. flávia disse:

    àquela moral da estória, vc poderia acrescentar:
    – O que importa é quem é a banca e as relações dela com o seu orientador.
    E afinal, vc obteve o título?

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  2. Ricardo C. disse:

    Verdade, a banca tb é importantíssima!
    E sim, obtive o título, embora o leão fosse manso…

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  3. Ricardo C. disse:

    Isso é bom ou ruim, Catatau? Eu não çabo!
    😛

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  4. aline disse:

    *explosão de risos*

    ricardo, eu ri TANTO. Primeiro, aquela risada de bom humor, de diversão, mesmo. Mas foi seguindo pra uma risada nervosa. To fazendo mestrado e, se eu me encaixar nessa fabula, digamos que meu orientador seria, han, uma tartaruga com lordose e miopia dentro da toca. totalmente contraproducente. D=

    um abraço!!

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  5. Ricardo C. disse:

    Feliz pela primeira risada, pesaroso pela segunda, mas mantendo a esperança de final feliz pelo simples fato de você ainda conseguir rir das tuas circunstâncias, Aline!

    Bjs e boa sorte, digo, bom desempenho! (Era o que o meu orientador costumava dizer, hehehe!)

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  6. flávia disse:

    hum… ainda entendendo o leão como povo (poder)? de onde o coelho/príncipe tira seu próprio poder?
    ô meu príncipe, tá fraquinho? Precisando de uma orientadora?
    Se precisar, dou um reforço na orientação… ou na banca, que tb é importante…
    Mas torço para que isso tenha sido o doutorado, que nos livra desse rito macabro e suas raposa, lobos e leões!
    bj, f

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  7. Ricardo C. disse:

    Ora, enquanto o povo + as forças armadas entenderem que cabe ao príncipe exercer o poder, ele o terá, ué!

    Fraquinho eu tô, mas precisando é de um povo para me atribuir poder, hehehe! (E de nada adiantou a torcida, ainda falta o doutorado…)

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  8. flávia disse:

    Algumas “referências” por aqui me fazem pensar que talvez nossos lates tenham alguma coisa em comum…

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  9. flávia disse:

    Não era para ter um ícone por aqui com um email seu? Onde esconderam? Tô um tempão procurando aqui!

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  10. Patrícia disse:

    muito, muito, muito bom kkkkkkkkkk
    Para quem acaba de entregar uma monografia de uma pós e ainda n obteve resposta o post cai muito bem…
    Acho q hoje não durmo rsrsrsrsr.
    Ainda bem q minha orientadora é ótima!!!!! rsrsrrs

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  11. Rafa disse:

    Essa coisa toda parece um rito meio macabro que temos que passar pra passar de coelhos a raposas. E depois da última das defesas, no doutorado, você nem sai flutuando, como eu esperava…
    Mas acba por carregar o fardo maldito de ter que transformá-la em algo que alguém, além da MESA NEGRA, leia. Afinal, foram 5 anos, né?

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  12. Ricardo C. disse:

    Flávia, mais tarde te respondo por e-mail sobre lates e afins.

    Patrícia, se sua orientadora é ótima, a resposta será positiva, pois dificilmente ela te deixaria entregar um trabalho que não tivesse condições de passar.

    Rafa, sempre vejo essa história como um grande processo de submissão, um rito de passagem nem um pouco diferente da relação entre calouros e veteranos em universidades, competições esportivas etc. Mas conseguir transformar a tese em livro ou, no mínimo, extrair dela uns 3 ou 4 artigos é mesmo o passo a seguir, não?

    Abs.

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  13. gugala disse:

    sensacional, desde a fábula até maquiavel obtendo o título(ou quase).
    abç

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  14. Ricardo C. disse:

    Grande Guga, creia que foi divertido fazer a interpretação do texto e depois ver a cara sem graça do professor metido à besta!
    Abs

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