Comentários (alheios) sobre ciência e ateísmo

Um raciocínio interessante, proferido por um amigo virtual, Alexis Kauffmann. O post onde apresenta esse raciocínio dirige-se sobretudo àqueles que andam usando o (e abusando do) discurso científico para validar seu ateísmo. (Aliás, pregação religiosa ou pregação ateísta são chatíssimas…) Embora eu questione a afirmação de que o ateísmo seria “… uma religião como outra qualquer”, esse meu questionamento se aplica apenas à inadequação da palavra “religião” no sentido estrito, isto é, religare — “tornar a unir” — e religione — “Crença na existência de uma força ou forças sobrenaturais, considerada(s) como criadora(s) do Universo, e que como tal deve(m) ser adorada(s) e obedecida(s)” (Aurélio Eletrônico) —, mas não à dinâmica de ateus e crentes em torno de suas respectivas crenças. Esse é o meu argumento: ambos, teísmo e ateísmo, são crenças, ponto. Mas passo logo a palavra para o Alexis:

(1) A Ciência é cética, não ateísta. Qualquer um que procure na Ciência uma justificativa ou fundamento para sua ideologia ateísta deveria aprender um pouco mais sobre Ciência.
(2) O ateísmo é, portanto, uma religião como outra qualquer, cheia de certezas irracionais e vazia de qualquer outro fundamento que não seja o desejo dos ateístas de NÃO crer em Deus.
(…)
As melhores coisas que a Ciência pode fazer sobre Deus são declarações céticas como “Não há nada que podemos afirmar sobre esse assunto”, “esse assunto de Deus não é sujeito a estudos científicos”, etc.
Mesmo que um cientista, ou muitos cientistas, ou mesmo TODOS os cientistas declarassem publicamente suas visões de mundo ateístas, isto não seria suficiente para afirmar que a Ciência propriamente dita é ateísta.
A Ciência, muito diversamente das religiões (inclusive o ateísmo) não finge que sabe cada pequena coisa no Universo. Ela é movida pela simples (e fantástica) ambição de aprender, no longo prazo, tudo o que é possível de ser conhecido no Universo.
A Ciência não exclui a hipótese de que, talvez, haja coisas que existem mas, infelizmente, não sejam possíveis de conhecer com qualquer método ou instrumento concebível, agora ou em qualquer tempo no futuro.
Assim, cientificamente falando, as pessoas precisam aceitar que sempre poderá haver algo como um “Deus” nesse hipotético conjunto de coisas existentes mas incognoscíveis.
Antes que alguém grite: eu não estou defendendo a religião. Se Deus é no reino das coisas incognoscíveis, então todas as religiões são contrafações, pois fingem conhecer intimamente algo que elas não podem saber de maneira alguma!
Indo além: só quem nunca trabalhou produzindo Ciência, nunca leu uma revista científica ou sequer uma bula de remédio, acredita que a Ciência “prova” a não-existência de Deus.
Para começar, ver a Ciência provando inequivocamente alguma coisa não é um evento tão freqüente quanto sugere a Superintessante.
Quem já trabalhou um pouquinho que seja sob a vara do método científico, sabe muito bem que produzir Ciência é, na sua maior parte, um trabalho de aproximações, estimativas, probabilidades e margens de erro. O discurso científico é enunciado necessariamente sob o império de definições restritas – a Ciência deixa para os filósofos o encargo das definições amplas. A verdade da Ciência é contingencial, isto é, válida apenas sob um determinado conjunto de circunstâncias variáveis. Mude as variáveis e a verdade muda.
Depois, a própria Ciência se encarrega de definir os próprios limites. Vamos deixar de lado a impossibilidade — “cientificamente demonstrada” — de saber a posição exata de partículas subatômicas, e vamos para o prosaico reino das mesquinhas preocupações humanas. Pergunte a cientistas bem-informados se…

1 – É possível prever se vai chover em Pindamonhangaba no dia de meu aniversário no ano de 2047?
2 – É possível calcular antecipadamente o placar de uma partida de basquete?
3 – É possível dizer se você será vítima de um assalto em algum dia dos próximos 5 anos?
4 – É possível afirmar que algum dos leitores deste post ganhará algum prêmio na Mega Sena nos próximos 10 anos?

Nem preciso dizer qual será a resposta para todas as perguntas.
A Ciência só pode afirmar que, com grande probabilidade, vai chover algumas vezes em Pindamonhangaba entre hoje e 2047. Pode até estimar quantas vezes e errar por pouco.
A Ciência também permite prever qual o time tem maior chance de ganhar uma partida basquete.
Também pode calcular a probabilidade de que alguém sofra um assalto num período de cinco anos a contar de hoje.
Ou ainda, a probabilidade de que pelo menos uma pessoa, em um dado conjunto de pessoas, ganhe algum prêmio na Mega Sena nos próximos 10 anos.
As singelas perguntas acima, da maneira como estão formuladas, envolvem variáveis demais, sendo que muitas dessas variáveis não são sequer quantificáveis.
Por exemplo, o placar de uma partida de basquete depende, além de incontáveis milhões de variáveis objetivas, da “motivação” dos jogadores e da equipe. Como inserir uma variável tão volátil como a “motivação” (um time motivado no primeiro quarto pode virar subitamente um time desmotivado no segundo quarto, como quem já assistiu qualquer partida de qualquer esporte pode testemunhar) em um modelo que permita uma margem mínima de previsibilidade?
Mesmo com todo o inegável avanço da Ciência, foguetes explodem antes de serem lançados, aviões cheios de passageiros caem, pessoas são atingidas por raios e até cardiologistas conceituados morrem de enfarte.
Um argumento recorrente e muito mal empregado pelos ateus na defesa de suas teses é o princípio de Occam: “quando duas teorias concorrentes podem ser ambas adequadas para explicar um dado fenômeno, deve-se preferir a mais simples”.
O princípio de Occam é prático. Mas significa apenas que, à falta de um critério melhor, deve-se utilizar a explicação mais simples até que novos dados sugiram o contrário, e NÃO que a explicação mais complexa seja necessariamente falsa em todas as ocasiões! Trata-se apenas de uma regra de bom-senso para guiar ações em situações de incerteza.
Outro dado que os ateus esquecem em seus discursos inflamados quando citam as realizações tecnológicas como provas da superioridade da Ciência é que, de fato, NÃO é necessário saber exatamente como e porque uma coisa funciona para que ela possa funcionar!
Besouros voam sem saber aerodinâmica, patos flutuam sem saber nada sobre construção naval.
E na bula do remédio cientificamente produzido pela indústria farmacêutica e cientificamente receitado pelo seu médico, provavelmente vem escrito uma frase como “o mecanismo de ação da [NOME DO COMPONENTE DA FÓRMULA] não é bem conhecido…”
Há muito mais besteirol no discurso ateísta, mas vou parando por aqui. Acho que, por hora, podemos afirmar que é preciso saber muito pouco sobre Ciência em geral para afirmar que ela “prova” que Deus não existe e que, portanto, os ateus não são menos cegos do que o fiel rebanho da maioria das religiões que tanto criticam.
[Grifos meus.]

Queria ter escrito tudo isso.

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14 respostas para Comentários (alheios) sobre ciência e ateísmo

  1. Guilevy disse:

    Ricardo, apesar do Kauffmann não o ter citado nominalmente, o proselitismo ateísta de Dawkins (e quejandos) deve ser entendido e justificado a partir do tempo (época) e espaço (local) nos quais surgiu. A época é a do “Fim da História”, do ápice do neoliberalismo econômico e de seu filhote político, a direita hipócrita. O local é o Ocidente cristão onde cresce o fundamentalismo protestante, com o criacionismo e o charlatanismo nos shows de “curas milagrosas” como carros-chefe. O post de hoje do Pedro Dória vem ao encontro deste parágrafo.
    Segundo, ausência de crença não é igual à crença na ausência. O ateu não crê na não existência de Deus, ele conclui que pode e deve prescindir dele, e assim o faz. Portanto imputar uma crença ao ateísmo é um oportunista ponto de partida para igualar conceitos que nunca foram iguais. “Esse é o meu argumento:” ateísmo não é crença (portanto não é religião)”, ponto. Cético é o método científico, não a Ciência. Ateísmo é não-crença, então não tenho que justificar ou fundamentar nada. Quem deve justificar, e como tentam, são os teístas e deístas, que crêem em algo que, bem, se você não tiver fé, não se sustenta. “Cheia de certezas irracionais”?! Esse cara ta maluco? “…o desejo dos ateístas de NÃO crer em Deus.”. Mais do mesmo- eu não desejo NÂO crer em Deus, aliás, me pego desejando o contrário, seria tão mais fácil entregar a vida e a morte e além a isso. Idéia forte esta, não a toa viceja por tudo que é lugar.
    A melhor coisa que a Ciência pode fazer sobre Deus é igual à pior coisa que a Ciência pode fazer sobre Deus, ou seja, nada.
    Depois o Kauffmann constrói, a partir de corretas definições e assertivas sobre a Ciência, uma pirâmide invertida de idéias para justificar… O que mesmo? Ah, deve ser o seu teísmo, apesar dele não afirmá-lo em nenhum lugar.
    Vou resumir para ele: “Apesar da ciência, creio em Deus, e daí, vai encarar seu, seu, seu…ateu?!”

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  2. Pax disse:

    Engraçado é que no momento que leio o post e o bom comentário do Guilevy aparece na colula “Propaganda” uma da asc.org.br com Cristo e uma frase típica “Ele sempre cumpre o que promete”.

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  3. Ricardo C. disse:

    “Cara, isto sepulta qualquer possibilidade de debate, não?

    Que é isso, Guilherme, sepulta não! Vc poderia me chamar de hiper-relativista, de contradizer o meu propalado “olhar fenomenológico”, e até destruir a fragilidade dos meus argumentos… Claro que vc não seria tão demolidor, mas tão somente por conta reconhecida da sua elegância como debatedor… 🙂

    Abração!

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  4. Monsores disse:

    Ricardo,

    APESAR desse seu post, vou continuar voltando aqui e sendo seu fã, ok? 😛

    Brincadeira, meu caro. Pra variar sem tempo para uma boa conversa, apesar do assunto que você sabe, tanto me interessa.

    Grande abraço!

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  5. Ricardo,

    Parece incrível mas é verdade. Há cerca de 15 dias prometi, num certo blog de discussão do ateísmo que escreveria, em meu blog, post a respeito do tema.

    Pouco tenho a acresecentar ao tema, mas o fato é que discordo, em parte, da forma como a questão é tratada em alguns debates. Agora, no entanto, com seu post, estou em dúvida sobre a conveniência de postar outro texto.

    Saudações.

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  6. Leandro disse:

    Já ouvi muito desses discursos religiosos. Ora é em relação ao dinheiro..o seu deus é o dinheiro…ora o ateísmo e a ciência…é preciso muita fé para crer nisso… Não se pode comparar ateísmo a religião. Isso é contraditório. Para mim o ateísmo nasce, é filho do ceticismo. O ateu percebe que todo argumento religioso para deus usado pelas religiões é simplismente ridículo, pois não provas nem definitivas nem sequer uma mínima evidência que não seja uma idéia vaga, do tipo “tudo tem uma causa e a causa de tudo é deus”. Se TUDO tem uma causa então deus também tem e a resposta mostra-se ridicula pois recae no mesmo problema q tenta solucionar.
    Acho simplesmente que os religiosos deveriam aprender a respeitar a opinião pessoal dos ateus, afinal nós temos que aguentar todo o bombardeio de propaganda religiosa respeitosamente, inclusive suas crenças ridiculas. cabe aos religiosos se conformarem e respeitaram as pessoas que não aceitam sua versão de deus e nenhuma das apresentadas vendo que isto é o exercício da liberdade de expressão.

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  7. Uma surpresa ver meus despretensiosos comentários publicados aqui. Mais ainda ver o debate que eles suscitaram.

    Quando igualei ateísmo a religião, a intenção era provocar essa mesma reação psicológica que vi aqui, a tal da “negação”. Não podemos esperar que um ateu admita a igualdade (ou sequer a similaridade) entre seus métodos e aquilo que pensam combater. É diferente porque tem que ser diferente, porque desejo que seja diferente, nem que, para isso, eu tenha que redefinir o dicionário inteiro!

    A chave desse post é:”As melhores coisas que a Ciência pode fazer sobre Deus são declarações céticas como ‘Não há nada que podemos afirmar sobre esse assunto’, ‘esse assunto de Deus não é sujeito a estudos científicos’, etc.”

    Isso nenhum ateu que conheça alguma coisa sobre Ciência pode negar, sem assinar atestado de ignorância.

    Além disso, falta aos ateus uma abordagem científica do problema das religiões.

    Seria ridículo se quiséssemos demonstrar cientificamente que Papai Noel não existe. Argumentar com uma criança usando fotos de satélite e mapeamento geográfico do Pólo Norte, por exemplo.

    É mais ou menos isso o que fazem os ateístas. Não interessa saber se Deus existe ou não, tanto quanto verificar a existência de Saci Pererê, unicórnios ou Papai Noel.

    O que realmente importa investigar é a origem da crença nessas coisas. Por que, afinal, bilhões de pessoas não conseguem imaginar-se vivendo sem um Deus, sem uma religião.

    Os ateístas fornecem explicações sem provas para esse problema. Nunca li uma investigação séria sobre o assunto, apenas “achismos” tão ou menos válidos quando a psicanálise de Freud (outro ateu que acabou fundando uma religião).

    Precisamos investigar também a articulação da crença – religiosa ou ateísta – com a intolerância e a ética. Os regimes políticos ateus mataram mais de 100 milhões de pessoas no século 20, se somarmos os crimes de Stálin, Mao, Pol Pot, Ho Chi Minh, Enver Hoxha, Nicolae Ceausescu…

    No mínimo, esse fato histórico demonstra que o ateísmo não é capaz de gerar um ser humano mais tolerante do que o das religiões.

    Minha preocupação maior é a tolerância política. Estou nem aí se você é ateu ou religioso, desde que seja capaz de viver e deixar viver.

    Quando afirmo que o ateísmo é uma “religião” estou tentando alfinetar os ateus para que eles percebam que seu comportamento não é melhor do que o dos religiosos. São tão intolerantes quanto os piores fundamentalistas e, tendo oportunidade, agem como exatamente como os piores fundamentalistas, erguendo paredões, campos de trabalhos forçados, prisões e câmaras de tortura para eliminar seus supostos inimigos – os “infiéis” de sempre.

    Então, ceticamente, sugiro deixarmos de lado a questão sobre a existência de Deus ou Papai Noel, e pensemos sobre como podemos erradicar da face da terra toda a intolerância, todos os paredões, todas as câmaras de tortura.

    Abraços a todos,

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