Sinistroses e canhotismos

Sim sou canhoto. Sinistro, se quiser. E a terceira acepção do dicionário Aulete avisa que também se trata de uma forma jocosa de chamar alguém “de esquerda; que tem idéias ou tendências socialistas, ou comunistas”. Que seja. Fato é que o mundo em que vivo não foi feito para facilitar a vida dos canhotos (nem de qualquer outra minoria). Vai ver que é por isso que temos uma capacidade de adaptação reconhecidamente acima da média, não? Mas não vou entrar em querelas do gênero “biologia vs. cultura”, porque hoje é dia de bestagem.

Depois de ler tudo o que pude — cansei logo — sobre a eleição de Barack Obama à presidência dos EUA, segui meu diário passeio pela lista de blogs aí ao lado, começando por um dos meus diletos vizinhos, o Milton Ribeiro. E foi lá, em seu último (e ótimo) post, depois de ler o subtítulo “Segundo Movimento – Adágio Periódico”, que acabei lembrando de um evento libertador, compartilhado agora com vocês. Trata-se de uma tomada de posição frente à ditadura das publicações ocidentais, essas mesmas onde se costuma ler da esquerda para a direita, e de cima para baixo. E qual a relação disso com o meu canhotismo? Se você é destro, talvez nem desconfie. Mas se for canhoto, é certo que entenderá. Acontece, meus caros, que como muitos já sabem, gosto à beça de folhear livros. E às vezes quero passear rapidamente pelas páginas, até os meus olhos se depararem com algo que me interesse. Ora, como os destros fariam algo assim? Grosso modo, suspeito que a maioria apoiaria a lombada na palma da mão esquerda, com os quatro dedos estendendo-se até a contra-capa, enquanto com a mão direita, também apoiando a contra-capa nos quatro dedos, usariam o polegar para fazer com que as páginas “corressem” da direita para a esquerda, começando pela capa, até chegar ao fim do livro. Simples, não? Mas para os canhotos as coisas não funcionam assim. Se eles fizerem o mesmo, mas com as mãos trocadas, terão o desprazer de conhecer o fim da história antes de saber o começo, pois folheariam a partir da contra-capa! (Habilidosos que somos, é claro que nos adaptamos a este mundo hostil e acabamos desenvolvendo estratégias para dar conta da indiferença dos destros, que por isso mesmo nem percebem o que se passa com suas imagens no espelho. E nem sequer precisamos ser leitores de mangá para isso!)

Bom, diante desse quadro, e num tempo (anos 80 do século passado) e num lugar (Cidade do México) em que um aluno universitário que copiasse livros esgotados não era visto como um criminoso, resolvi que o livro “Incidentes Críticos en Psicoterapia”, de Standal e Corsini, representaria a minha alforria, o meu grito de independência e a afirmação de que, embora agnóstico, também sou filho de Deus. E na seqüência de fotos abaixo, verão que o errado tornou-se certo. Agora só falta a paz mundial.

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10 respostas para Sinistroses e canhotismos

  1. Céus! Que coisa!

    Não sou canhoto, sou outra coisa também estranha: daltônico.

    Voltando ao sinistro cidadão dono do blog: então, minha leitura de jornais é a de um canhoto? Sim, sem dúvida. E consigo folhear revistas com as duas, viu? Digamos que sou um ambidestro específico, pois a perna esquerda só serve para subir no bonde e a mão… Não a mão, nem para aquilo que estás pensando.

    Grande abraço.

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  2. Patrícia disse:

    Como designer posso garantir que com seu texto as idéias borbulham…

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  3. Patrícia disse:

    Tesoura Softy, design de José Carlos Bornancini e Nelson Petzold para a Zivi-Hercules, pode ser usada por destros e canhotos.
    Solução simples seria colocar a endernação dos livros na parte de cima, e não na lateral esquerda.(sei que exite ai tb algo cultural difícil de ser mudado e que esta não é nem de longe a solução para todas as dificuldades que enfrantam) rs
    Bom, existe uma loja em Londres especializada em objetos para pessoas canhotas, ai vai o site:
    http://www.anythingleft-handed.co.uk/

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  4. flávia disse:

    Ricardo, caro colega de cx de comentários do Milton, após ler este, fui ler o seu “Quem?”, onde vc não diz “quem” coisa nenhuma. Aí confirmei minha impressão ao ler o seu post: caro Ricardo, vc não é somente canhoto, você é mulher!
    Com descobri? Começar a folhear os livros de trás para frente é muito mais feminino que canhoto! (A forma de montar livros é uma arbitrariedade cultural, não tem a ver com isso. Se fosse ditadura dos destros, judeus fariam livros como os nossos, ou vc acha que são todos canhotos?)
    Me criei ouvindo minha avó, mães e tias filosofarem longamente sobre isso. Porque mulheres folheiam (e lêem) livros, revistas e jornais de trás para frente? Elas nunca tentaram explicar, era apenas uma constatação sobre algo que demarcava uma fronteira abissal entre o ser masculino e o ser feminina. Tudo isso filosofado diante da máquina de costura, agulhas de tricô, revista de moda e o jornal do dia (porque mulheres gaúchas ao menos não abriam mão disso nos tempos da minha infância).
    É isso Ricardo: nós mulheres somos assim! Opostas, contrárias, gauches!

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  5. flávia disse:

    hahaha
    ‘bigada, azórdis!
    abç, flavia

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