Impasses

Recortes do artigoPor uma Ética e uma Política da Amizade“, de Francisco Ortega (IMS-UERJ):

Na atualidade estamos dominados pela crença de que a proximidade constitui um valor moral, o que nos leva a desenvolver nossa individualidade na proximidade dos outros. A ideologia da intimidade transforma todas as categorias políticas em psicológicas e mede a autenticidade de uma relação social em virtude de sua capacidade de reproduzir as necessidades íntimas e psicológicas dos indivíduos envolvidos. Com isso, esquecemos que a procura de autenticidade individual e a tirania política são com freqüência dois lados da mesma moeda. É necessária uma distância entre os indivíduos para poder ser sociável. O contato íntimo e a sociabilidade são inversamente proporcionais. Quando aumenta um, o outro diminui; quanto mais se aproximam os indivíduos, menos sociáveis, mais dolorosas e fratricidas são suas relações. (Grifos meus)

É curioso destacar, neste texto, um trecho que, em tese, critica a minha pregação em prol da amizade. (E os meus grifos só pioram as coisas.) Aliás, ontem mesmo, a propósito de um belo post que li, comentei sobre uma trupe de amigos que aparece nos filmes O Declínio do Império Americano e Invasões Bárbaras (ambos do Denys Arcand). No segundo, já na condição de derrotados em suas utopias, fracassados em seus desejos de transformar o mundo, percebem que é justo a amizade e o conjunto de valores comuns que fazem com que suas vidas guardem algum sentido. Mas devo admitir que, no filme, essa amizade flerta com a intimidade criticada no texto aí de cima, embora não chegue a significar uma “derrocada da civilidade”, como sugere Francisco Ortega a propósito dessa valorização contemporânea da ideologia da intimidade. Aliás, devolvo a palavra ao Ortega:

Vivemos em uma sociedade que nos incita continuamente a ‘desnudar-nos’ emocionalmente, que fomenta todo tipo de terapias, verdadeiras dramaturgias da intimidade. A conseqüência é a decomposição da ‘civilidade’, entendida como o movimento aparentemente contraditório de se proteger do outro e ao mesmo tempo usufruir de sua companhia. Uma forma de tratar os outros como estranhos, pois usar uma máscara, cultivar a aparência, constitui a essência da civilidade, como modo de fugir da identidade, e de criar um vínculo social baseado na distância entre os homens que não aspira ser superada. O comportamento civilizado, polido, exige um grande controle de si, já que não é coisa fácil conter-se e governar-se a ponto de não deixar transparecer nos gestos e na fisionomia as mais violentas emoções de sua alma. Essa faculdade de uma sociabilidade sadia e criativa, perde-se na sociedade ‘íntima’. A civilidade torna-se incivilidade, ou seja, essa habilidade tão difundida de incomodar o outro com o próprio eu, de lhe impor minha intimidade. A incivilidade teria como conseqüências os comportamentos egoístas e narcisistas e o esquecimento do outro, bem como o desinteresse na vida pública que caracterizam nossa sociedade, o refúgio no privado e na interioridade à procura de uma autenticidade, uma natureza original perdida ‘antes que a arte tenha moldado nossas maneiras’, como se lamentava Rousseau, o mais impolido dos filósofos.

Sendo parte dessa mesma sociedade, e pertencendo a uma geração (a de 64 do século passado) tachada de alienada, pouco politizada e já bastante “umbiguista”, parece que me faltaria o distanciamento necessário para avaliar de maneira tão dura essa estratégia de valorizar a amizade como uma forma de resistência ao “fim das utopias”, ao “pragmatismo de baixo calão” é ao cinismo profissional — ou pior, à sociopatia como padrão de comportamento —, pelo fato de que ela poderia cair na tirania política, no esvaziamento ainda maior da vida pública, algo que os trechos que cito apontam com vigor. E ao mesmo tempo reconheço como é difícil avaliar positivamente esse comportamento civilizado descrito acima, já que por mais que o autor fale que esse “controle de si” — a temperança, a educação dos sentidos etc. — é fundamental para a vida em sociedade, parece sugerir um caminho que distanciaria o sujeito de si mesmo… ahá!, este é o ponto crítico, essa idéia de que haveria algo como um “si-mesmo” “autêntico”, um “eu” enterrado nas profundezas de nós mesmos que seria a nossa verdade, aquele que “realmente somos” e que serviria como referência última do que é certo e errado em nossas vidas pessoais… Ou como diria Neguinho da Beija-Flor, “Olha o individualismo levado às últimas conseqüências aí, gente!”.

Agora só mais uma citação tirada do texto, a última, prometo. É do cineasta Roberto Rossellini:

O mundo de hoje é muito inutilmente cruel. Crueldade é violar a personalidade de alguém, é colocá-lo em uma condição tal que chegue a uma confissão total e gratuita. Se fosse uma confissão visando um fim determinado eu o aceitaria, mas é o exercício de um voyeur, de um torpe, reconheçamos, é cruel. Acredito firmemente que a crueldade é sempre uma manifestação de infantilismo.

O que o Rossellini disse décadas atrás, bem antes dos BBB’s e demais Reality Shows, programas de “lavação (pública) de roupa suja (privada)” e Revistas “Caras”, definitivamente me faz seguir valorizando as relações de amizade e a privacidade ao máximo, mesmo com os riscos apontados pelo Francisco Ortega. Mas confesso, não tenho soluções para lidar com isso, nem respostas para tudo o que comentei antes. No máximo, mantenho-me o suficientemente disponível para refletir, ponderar, ouvir críticas a respeito e debater com outros — mais velhos, mais novos e da mesma geração. Enquanto as respostas não vêm, vou coletando dados por aí, e não apenas aqueles que reforcem as minhas crenças. É difícil, reconheço. Mas a valorização da diferença, da alteridade, da perspectiva de que outros pensem de maneira diferente de mim, sendo amigos ou não, continuará sendo a minha tônica, o meu norte. Por mais difícil que seja, disso eu não abro mão.

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8 respostas para Impasses

  1. Fico feliz que tenhas gostado daquele post assim como eu gosto de teu blog de nome incrível.

    Já tenho escritos 14 ou 15 capítulos. Devo chegar aos 25, mais ou menos. Há dois planos.

    Saiba que tanto O Declínio do Império Americano como As Invasões Bárbaras estão entre minhas preferências absolutas. Podes saber também que é por comentários como aquele que fizeste na sexta-feira que mantenho blog.

    Pensei muito sobre este teu post e tive dificuldade de avançar. Vejo várias formas de desnudamento, há aquela procurada pelos voyeur, há o desnudamento da vulgaridade e das intenções mais cruas e gratuitas, há o desnudamento dos personagens de Philip Roth — que penso serem construtivos –, há a coragem de dizer. O mundo é uma coisa muito complicada e cheia de faces: acho que a sociedade fica tranqüilizada quando um homem atira sua filha pela janela ou um menino faz sua ex-namorada refém por 100 horas. Nestes casos, a maldade é clara, o bom (o espectador) e o mau estão bem identificados. Nos casos menos claros, tudo é muito fragmentado e há várias razões.

    O que dizem Ortega e meu amado Rossellini servem para algumas coisas bem contextualizadas, não para tudo. É minha opinião. A ágora tem muitas vozes, opiniões, posições, razões, etc. É muito complicado.

    Grande abraço.

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  2. RafaelReinehr disse:

    Concordo com o Milton quando fala que os ditos de Ortega dizem muito em um dado contexto, mas não podemos tornar absolutas suas impressões.

    A mesma distância crítica que afasta duas pessoas que buscam ser sociáveis é também aquela que permite a um profissional cobrar por seu serviço de uns e dizer “não, imagina, isso não é nada” para outros, mais “íntimos”.

    Também gostei muito de As Invasões Bárbaras e O Declínio do Império Americano e só agora me dei conta que ainda não escrevi nada sobre eles (e quem sabe está na hora de assistir mais uma vez)…

    E por falar em distâncias, como se mede a distância entre os cachorros que destroçavam um ser humano mais ao final de Ensaio Sobre a Cegueira (versão telona) daquele outro cão que passou ao largo da fome e partiu para trazer alento e afeto para uma pessoa que justamente disso necessitava?

    Ainda, e já que não tenho pudor em mudar do saco pra mala e desta para uma necessáire, te questiono: não te angustia praticar a alteridade, buscar múltiplos pontos-de-vista nos atos e fatos do cotidiano enquanto que a maior parte das pessoas com as quais convive-se mantém-se rigorosamente amarradas ao ponto de vista e à norma que se lhes é vendida pelos fantasmas de seu passado, pela mídia e pelo dragão do consumo como forma de expiar seu sofrimento?

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  3. Catatau disse:

    Belo post! Você conhece “Amizade como estética da existência”, do Ortega? Infelizmente ainda não tive oportunidade de ler, mas considerando quem ele comenta, é interessante ver como a “amizade” se relaciona com o “governo de si”, e como pode servir de “resistência”.

    O que ele parece estar sugerindo nesses termos não é uma espécie de “distanciamento do sujeito em relação a si mesmo”, nem o retorno a um “eu enterrado em nossas profundezas”… O problema parece ser precisamente como nosso mundo achata a esfera pública numa ‘intimização’, psicologizante, biologizante e afins, e como tudo parece imperativamente se reduzir ao egoísmo. Daí a tentativa de depurar as ‘intimizações’, e dizer que uma amizade autêntica deve buscar caminhos alternativos… porque o egoísmo é irmão gêmeo desse primado “intimista”, e de toda essa redução eudemonista e biologizante.

    Nesses termos, em nosso mundo, a amizade não existiria, pois com o primado “intimista” não há figura do outro. Talvez seja por aí que segue a questão do “governo de si” (que não se trata de pôr uma dualidade entre o que sou e o que mostro, mas de superar o mero egoísmo), do primado público (que é o das satisfações já garantidas, e não o da satisfação das necessidades), e enfim de uma amizade que parece, nas tuas citações, meio enviesada

    abração,

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  4. Catatau disse:

    Interessante a pergunta do Rafael

    não te angustia praticar a alteridade, buscar múltiplos pontos-de-vista nos atos e fatos do cotidiano enquanto que a maior parte das pessoas com as quais convive-se mantém-se rigorosamente amarradas ao ponto de vista e à norma que se lhes é vendida pelos fantasmas de seu passado, pela mídia e pelo dragão do consumo como forma de expiar seu sofrimento?

    Como diria o Animot, uma coisa “que me permito dizer”: em terra de cego, quem tem um olho é rei! Mesmo que seja soberano de si mesmo 😉

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  5. Pingback: Um brinde ao tempo | Agora com dazibao no meio

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