Notícias que noto

Há notícias importantes em meio à diária babel de informações inúteis. (Este blog soma-se às segundas, obviamente.) E entre manchetes sobre a crise econômica que ameaça o planeta, os debates (vice e)presidenciais de um certo país do continente norte-americano e as próprias eleições municipais que ocorrerão amanhã por estas terras, recolho uma “de segunda linha”, mas que me deixou encafifado. Refiro-me à história de que a Federação Nacional de Cegos dos EUA (NFB, sigla em inglês) pretende boicotar a exibição do filme “Ensaio sobre a cegueira”, adaptação do cineasta Fernando Meirelles do livro homônimo de José Saramago. (Milton Ribeiro, meu colega daqui do OPS!, escreveu um belo post sobre o filme.) Com a palavra, Marc Maurer, presidente da NFB:

“Os cegos aparecem no filme como incompetentes, sujos, viciados e depravados. São incapazes de fazer as coisas mais simples, como se vestir, se lavar e encontrar o banheiro. A verdade é que as pessoas cegas normalmente fazem as mesmas coisas que as que podem ver (…)
Mostrar os cegos nas telas americanas um pouco melhor do que animais reforçará temores infundados e os estereótipos do grande público sobre a cegueira.”

Não é a primeira vez ouço falar desse tipo de reação por parte de setores da sociedade norte-americana. Em certa ocasião, lendo o livro de memórias de Luis Buñuel (“Mi último suspiro”), encontrei uma passagem sobre o seu último filme, “Ese oscuro objeto del deseo”, em que o cineasta comentava sobre acontecimentos durante a sua exibição nos EUA. E fui na estante pegar o livro, para copiar para vocês o tal trecho:

“Ao longo deste filme — a história da impossibilidade de se possuir o corpo de uma mulher —, e bem depois de La edad de oro, eu quis inserir um clima de insegurança, clima esse que todos conhecíamos e que na época o mundo vivia. Pois bem, no dia 16 de outubro de 1977 uma bomba explodiu no Ridgetheatre de São Francisco, onde o filme vinha passando. Quatro rolos ficaram totalmente destruídos, e nas paredes foram pichadas frases injuriosas, como ‘Desta vez você foi longe demais’. Uma das pichações era assinada por Mickey Mouse. Vários indícios levavam a crer que o atentado fora cometido por um grupo de homossexuais organizados. Por outro lado, de maneira geral, os homossexuais não gostaram do filme. Nunca entendi por que.”

Certo é que Buñuel vale muitos posts à parte, ainda mais agora que dei uma rápida passada de olhos no livro e vi algumas tiradas geniais. Mas deixe-o para outro dia, inclusive o ótimo filme citado, e fiquemos apenas com essa estranha passagem sobre eventos em terras gringas. Estranha, sim, mas nem tão incompreensível, suponho. É que se eu tentar “colocar-me nos sapatos” de um norte-americano, creio que quase consigo entender a reação da Federação de Cegos frente ao filme. (Lá vou eu com mais uma das minhas teorias sem rigor científico nenhum…) Acredito que tal reação diga respeito a uma certa dificuldade de lidar com metáforas por parte daquela sociedade — é sério, fiquei assustado na primeira vez em que estive por lá, ao perceber, por exemplo, que a maioria daquelas séries televisivas cheias de clichês sobre os norte-ameicanos não trata de ficção, mas é mesmo um apanhado bem realista sobre como eles são! —, somada à compartimentalização, em escaninhos bem definidos, de todos os estratos sociais e da maioria dos comportamentos dos habitantes daquele país. (Até que esta última frase tem cara de axioma, não? Hehe!)

Vamos lá. É verdade que Caetano Veloso não é propriamente um sociólogo ou antropólogo de obra academicamente reconhecida, mas bem que a letra de “Americanos”“Para os americanos branco é branco, preto é preto / (E a mulata não é a tal) / Bicha é bicha, macho é macho, / Mulher é mulher e dinheiro é dinheiro” — dá uma consistente pista do que digo. E para reforçar a segunda parte da “tese”, lembro da experiência (que volta e meia cito) de um amigo da família que foi trabalhar em Washington. Uma vez instalado numa casa com um belo gramado, e convencido de que “em Roma, como os romanos”, resolveu aparar a grama numa bela manhã de domingo. Depois de suar um bocado e já tendo aparado um quinto do gramado, desligou o cortador assim que notou o educado vizinho da casa ao lado abanando os braços na tentativa de chamar-lhe a atenção. Aproximou-se dele, trocaram polidos e sorridentes olás, e o vizinho enrolou um pouco até ir ao cerne do assunto e perguntar-lhe por que ele não cortava a grama no sábado, “que era o dia de se cortar grama”. A resposta “porque prefiro aos domingos” desconcertou o vizinho americano, que sem saber as razões culturais-filosóficas-religiosas-ou-sei-lá-o-que que levavam aquele “primitivo estrangeiro” a desconhecer o “fato quase biológico” de que o dia certo de se cortar grama seria o sábado. Verdade seja dita, o brasileiro em questão tinha um senso de humor particular, e resolvera que a vida só teria graça se a tal frase sobre comportar-se como os “autóctones” fosse acrescida de mais uma palavra: “Em Roma, quase como os romanos”. Mas mesmo ele sabia que, para o bem de sua estada em terras ianques, até a sua boutade tinha prazo para terminar, e resolveu evitar entreveros com a vizinhança, passando a cortar a grama no mesmo dia** que todos.

Mas creio estar sendo duro demais com a sociedade norte-americana. O que penso é que essa necessidade de ter tudo muito bem definido, se por um lado parece algo caricata em se tratando deles (ou da imagem que deles fazemos), por outro diria que é uma característica de toda a espécie humana. Afinal de contas, definir ajuda a distinguir as coisas — “isto é uma cadeira, aquilo é uma mesa; uso a primeira para apoiar os glúteos e a segunda para apoiar os braços (ou os cotovelos e eventualmente os glúteos também, se eu não for tão bem educado assim)” — e a orientar o nosso jeito de agir a partir dessas definições — “esse amigo já destruiu cinco carros, melhor não emprestar o meu para ele”; “aquele sujeito já foi internado num manicômio, então é melhor eu desconfiar de tudo o que ele diz e/ou faz”; “olha lá, é o Osama Bin Laden!, chamo a CIA ou peço um autógrafo?” —, o que pode ser benéfico para a gente, especialmente por vivermos em comunidade, e ao mesmo tempo resultar em preconceito e intolerância em relação ao que (ou a quem) é diferente de nós. Em todo caso, uma coisa o Saramago disse de certo a respeito do entrevero com a versão em película do seu livro:

“A estupidez não distingue entre cegos e não-cegos”

___________

** Antes que me corrijam, pode que o dia esteja trocado e seja sábado em vez de domingo, não lembro. Mas não é tão importante assim, o que vale é a lógica da história.

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4 respostas para Notícias que noto

  1. Camila disse:

    Vou criticar uma coisa que eu mesma vou fazer agora, pois ainda não conheço o filme – e criticar a crítica de algo que não se viu parece-me, a princípio, deveras incongruente. Só que eu li o livro, e li que o filme é bastante fiel ao livro. Portanto, creio possuir ao menos uma isquinha de conhecimento para dizer o seguinte: que quem tem uma preocupação como essa sobre o filme, é porque não assistiu a ele. Ensaio Sobre a Cegueira não é um tratado sobre a deficiência visual. Simples assim. Por isso fico na dúvida, Ricardo, se a questão é profunda como você colocou – “a dificuldade dos estadounidenses em compreender metáforas” – ou muito mais rasa, como no caso da censura imposta por Roberto Carlos à sua biografia escrita por Paulo Cesar Araujo. Ali, o que aconteceu foi simplesmente que RC não leu o livro. Fico pensando que, no caso de agora, também – não assistiram ao filme (e muito menos leram o livro), só isso…

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  2. Camila disse:

    (ATENÇÃO, SPOILERS!) Ricardo, ando um bocado esperançosa com relação aos EUA ultimamente – não só o discurso do McCain não tá mais colando por aqui, como também assisti ao filme na presença de um integrante legítimo da tribo estadounidense, e o cara não só entendeu a metáfora (e já tinha lido o livro também), como me fez pensar em coisas que, sozinha, não me ocorreriam jamais. Por exemplo. Eu comentei que o livro, para mim, ressaltava mais o horror do que a solidariedade. Que o filme, por mais que se esforce, jamais poderá evocar a experiência de horror que o livro proporciona, porque nada é mais poderoso que a nossa própria imaginação para isso. E fora que tem coisas que não tem muito como o filme abordar, como o cheiro – e, além disso, pelo menos as mocinhas sempre têm de estar minimamente apresentáveis… Enfim, eu achei que o filme retrata os momentos de solidariedade com uma sutileza que, no livro, eu não fui capaz de apreender. E aí o cara me manda essa – vê se não faz sentido – tudo bem que o filme e o livro falam em solidariedade, mas ela só é possível por causa daquela que vê. Aquele grupo só pôde se manter unido pela presença agregadora da mulher do médico, que na fábula é uma santa, perdoa a traição do marido com a puta, só quer saber de ajudar o próximo, mesmo que para isso precise matar o Gael. Então a fábula é também sobre como se comportam os santos em situações-limite. E que é necessário um comportamento sobre-humano, de santo (e um santo com superpoderes, ainda por cima), para fazer emergir sentimentos solidários. Esse comentário me deu uma visão (ops!) ainda mais pessimista do livro. Mas voltando ao post: aguarde que na próxima semana or so devo publicar mais observações antropológicas sobre os estadounidenses, fazendo menção a essa sanha classificatória que você tão bem descreveu. Beijos, depois te escrevo com calma de novo. 🙂

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