Frescura, viadagem ou velhice, do latim "experientia"

Há atividades que exigem das pessoas um bom nível de dessensibilização. Talvez você estranhe palavra tão esquisita, mas não me ocorre alguma mais adequada para aquilo que me assaltou hoje pela manhã, enquanto assistia à prova feminina de plataforma de 10 metros dos saltos ornamentais, nestas onipresentes olimpíadas de Pequim. Aliás, devo dizer que só assisti parte da competição, e dou cá os meus motivos. O primeiro, a escolha do esporte em questão: acontece que há coisa de trinta anos fui um praticante dessa modalidade tão pouco prestigiada por estas piscinas, digo praias. E o segundo, o fato de ter sido apenas parte da prova, não se deveu ao fraco desempenho da saltadora brasileira, nem à preferência pela prova masculina – por motivos estritamente esportivos, isto é, em função do maior grau de dificuldade dos saltos e da precisão mais acurada dos homens, e digo antes das irresistíveis maledicências –, e sim por um certo sofrimento ao ver dois saltos da Pandelela Rinong Pamg, a pequenina (1,48 m) e jovem (15 anos) saltadora da Malásia…

Pronto, agora posso voltar àquela dessensibilização que mencionei lá no início. É que preciso explicar, entender, justificar (ou as três anteriores) esse sofrimento, já que não só assisti a milhares desses saltos, como realizei eu mesmo alguns tantos outros, com desempenho razoável justo na plataforma de 10 metros. Era de se esperar, portanto, que pudesse assistir a competição com grande prazer e ainda dando explicações a minha mulher sobre os porquês das notas altas ou baixas, da água espirrada ou não, da posição carpada ser mesmo uma beleza e do que seriam os saltos em pontapé, que nos primórdios chamavam-se pontapé à lua. (Ela, é claro, ouvindo com toda a paciência as mesmas explicações dadas nas olimíadas anteriores, pois o amor é lindo e azulzinho como a água do poço de saltos.) Mas onde eu estava? Ah, dizia que eu deveria acompanhar a evolução das saltadoras com um olhar mais técnico, com a emoção daqueles que apreciam a plasticidade de qualquer espetáculo artístico… Só que não foi bem isso que me aconteceu. Depois de quatro rodadas, ou seja, de todas as saltadoras terem realizado quatro saltos cada uma, mudei de canal. Fui ver um jogo de vôlei qualquer, daqueles onde o jogador no máximo leva uma bolada na cara ou torce o pé, coisa que uma cortada certeira na testa do adversário e um saco de gelo seguido de uma atadura resolvem a contento. Pois é, a suposta experiência de anos mergulhando em piscinas, lagos e rios, do alto de plataformas, trampolins e mesmo do cimo de cachoeiras, e uma razoável quantidade de tempo assistindo competições do gênero não aprimoraram a minha dessensibilização… E o que quero dizer com esse raio de palavra esquisita? Ora, é o tipo de característica semelhante àquela que um médico na emergência de um hospital público precisa ter, caso contrário não dará conta de serrar uma perna destroçada num acidente de carro, ou de reconstituir a face dilacerada de uma criança vítima de bala perdida. Certo, tem razão de achar a comparação meio torta ou mesmo pretensiosa que só ela, a menos que estivéssemos falando de saltadores masoquistas e com tendências suicidas (e platéias sádicas), onde os acidentes fossem a regra… Mas entenda, a dinâmica se assemelha. Com o passar do tempo, é a experiência que diferenciará o aprendiz do expert, com este último enxergando esse tipo de evento — as cirurgias, não as competições com saltadores masoquistas — de forma mais fria, técnica, detendo-se no procedimento e não tanto na pessoa que se submete a ele, sob pena de não dar conta de levá-lo até o fim. E algo semelhante acontece com a audiência mais experiente de qualquer esporte de risco, valendo o mesmo para tantas outras atividades onde a repetição banaliza esse mesmo risco, e onde a dor dos movimentos mal executados é parte do cotidiano. (Cá entre nós, não passa de uma versão do velho fenômeno da habituação, aquele onde a constante repetição de um estímulo qualquer faz com que ele seja cada vez menos impactante, podendo mesmo passar a não ser mais percebido.)

Dito tudo isto, a idéia de acabar tendo que ver a Pandelela Rinong Pamg caindo de costas na água, ou pior, de barriga, saindo sem fôlego sequer para chorar de dor, ou pior ainda, batendo com a cabeça na plataforma, gerou em mim um desconforto enorme, bem maior do que a perspectiva de ver as chinesas cravando os seus saltos e ganhando várias notas dez. E aproveito para dizer algo mais sobre a suposta expertise que adquiri com os anos, essa que deveria vir solidamente acompanhada de fartas doses de dessensibilização: não sei se sinto sua falta. Digo mais: a sua inoperância veio acompanhada de pitadas a mais de compreensão, novos traços de empatia e várias gotas de solidariedade, ingredientes que compensam, e muito, o desconforto que as provas de plataforma têm sido capazes de me gerar.

E Pandelela, menina, um beijão para você.

Esse post foi publicado em (re)flexões e marcado , , . Guardar link permanente.

3 respostas para Frescura, viadagem ou velhice, do latim "experientia"

  1. Nat disse:

    Tava em dúvida sobre qual assunto comentar desse seu belo texto, já que não vi os terríveis acidentes da moça. Mas, esperando alguns segundos, não titubeei ao decidir meu comentário:CARACAAAAAAAAAAAAAAAA Nunca imaginaria você pulando de um trampolim!!!!!Ricardo e suas surpresas, quem diria…

    Curtir

  2. Pax disse:

    Também me surpreendi.No meu caso algumas olhadas em natação, hipismo, saltos (distância e altura), basquete, futebol, e sentindo falta de alpinismo e mergulho.Saudades,Pax

    Curtir

  3. Ricardo C. disse:

    Nat, tem uma foto minha num velho post cá no Ágora, fazendo uma parada de mão (ou plantando bananeira, como se diz popularmente). É desse tempo.BeijosPax, saudades de vc também. Ando meio quieto, mas está tudo bem. E fico no Rio, no mínimo até fim de setembro.Abração

    Curtir

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Saiba como seus dados em comentários são processados.