No princípio era o verbo. (Não é mais.)

E como ultimamente ando falando em religiosidade, lembrei de ter lido por aí (e por aqui também) que todas as histórias já foram contadas, e que o grosso da literatura não passaria de uma simples releitura. Ah, e no meio dessas informações sem fonte certa, soube também que, se não todas, a grande maioria dessas histórias estaria na Bíblia. Não sei não, mas lendo algumas passagens, principalmente no Velho Testamento, só posso dizer que não duvido que seja verdade…

Dito isto, posso acrescentar que fazia um bom tempo que não lia nada da Bíblia, e tinha me esquecido da quantidade de histórias interessantíssimas que há por lá. E que com o advento da Internet em geral, e dos blogs em particular, acabei lembrando de uma história, ou melhor, uma estória, narrada em Gênesis (capítulo 11, versículos 1 a 9). Aí vai:

1.
Toda a terra tinha uma só língua, e servia-se das mesmas palavras.
2. Alguns homens, partindo para o oriente, encontraram na terra de Senaar uma planície onde se estabeleceram.
3. E disseram uns aos outros: “Vamos, façamos tijolos e cozamo-los no fogo.” Serviram-se de tijolos em vez de pedras, e de betume em lugar de argamassa.
4. Depois disseram: “Vamos, façamos para nós uma cidade e uma torre cujo cimo atinja os céus. Tornemos assim célebre o nosso nome, para que não sejamos dispersos pela face de toda a terra.”
5. Mas o senhor desceu para ver a cidade e a torre que construíram os filhos dos homens.
6. “Eis que são um só povo, disse ele, e falam uma só língua: se começam assim, nada futuramente os impedirá de executarem todos os seus empreendimentos.
7. Vamos: desçamos para lhes confundir a linguagem, de sorte que já não se compreendam um ao outro.”
8. Foi dali que o Senhor os dispersou daquele lugar pela face de toda a terra, e cessaram a construção da cidade.
9. Por isso deram-lhe o nome de Babel, porque ali o Senhor confundiu a linguagem de todos os habitantes da terra, e dali os dispersou sobre a face de toda a terra. (Grifos meus)

Sem me alongar nessa figura divina um tanto quanto Rabugenta para o meu gosto, diria que, ao que parece, tal “castigo” foi “aprimorado” pelos próprios homens. É que estes, não bastasse falarem milhares de línguas, acharam pouco, e resolveram “não se entender” no próprio idioma ou dialeto que cada grupo compartilha. E se no princípio era o verbo, hoje em dia o que vale é o pronome pessoal, reto ou oblíquo, na primeira do singular.

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12 respostas para No princípio era o verbo. (Não é mais.)

  1. Sidney Mirandão disse:

    Ricardo, pegando o bonde andando nessa discussão (mas sem querer no entanto aboletar-me na janelinha), lembrei-me de um documentário interessantíssimo que vi há alguns anos na TV daqui. Não sei se já foi tema da conversa ou se já foi amplamente visto e discutido no mundo inteiro (pegar o bonde andando tem dessas desvantagens), mas deixo a sugestão: chama-se “La Bible Dévoilée”, e trata-se de uma grande pesquisa feita por arqueólogos, antropólogos e teólogos sobre o que há de verdade fática no Pentateuco. E é muito bem feito, ainda que se possam identificar vários vícios típicos de documentários televisivos.Fora isso, volto mais tarde para novos comentários, assim que ler os demais posts e discussões. Adianto que o final deste post aqui é simplesmente genial. Comme d’habitude, il faut le dire.

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  2. Ricardo C. disse:

    Não conhecia, Dr. Miranda, vou procurar! E a tal discussão está uns posts abaixo, são 2 posts com o título de “Crença, fé e experiência religiosa”, mas ainda devo o terceiro…Abração e merci!

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  3. Monsores, André disse:

    Pois eu sempre digo que se esse tal deus existiu, era um sádico com um humor fenomenal.

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  4. Ricardo C. disse:

    André, humor-negro que só, o Dele!

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  5. Edu disse:

    É interessante como Deus era terrível no antigo testamento.Quanto ao seu comentário, é interessante que a linguagem, um dos meios pelos quais usamos para transmitir o que pensamos a outros seres pensantes, talvez o maior motivo de, de fato, termos nos desenvolvido social e teconologicamente, é usada justamente no sentido oposto politicamente!

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  6. Ricardo C. disse:

    Já escrevi um monte de posts sobre umbiguismos, monólogos e incompreensões, Edu, pois a perspectiva do diálogo um tema que muito me interessa. Infelizmente a quantidade de palavras que saem de bocas, canetas e teclados dialogam muito menos do que poderiam, né?

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  7. Pax disse:

    Enquanto esperamos Deusou sua discussãoFalamos de Deus.É um bom descanso, para os pensamentos, biblicos?

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  8. cristiano fagundes disse:

    É lindo mesmo… e apesar da rabugentisse do Todo Poderoso, como você bem disse, é uma fábulazinha maravilhosa essa do desentendimento humano. A bíblia é, como disse um amigo meu, a maior fábula da humanidade (no mínimo da ocidental). Sem provocações deste atéu praticante. E se formos medir sUa rabugentisse, veremos mais à frente que na verdade o próprio “escreve certo por linhas tortas”, o problema é que tem uns por aí que acham que também conseguem…

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  9. Edu disse:

    Ricardo,Com certeza. Mas, continuemos dialogando! hehe

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  10. Gwyn disse:

    Ricardo,Muito interessante essa fabula…pegando parte do seu comentario num post abaixo…”o isolamento existencial vem a ser o preço pago pelo nosso próprio desenvolvimento pessoal.”Nao seria…“Eis que são um só povo, disse ele, e falam uma só língua: se começam assim, nada futuramente os impedirá de executarem todos os seus empreendimentos. Vamos: desçamos para lhes confundir a linguagem, de sorte que já não se compreendam um ao outro.”Entendo o “castigo” que a fabula fala seja a descricao dos homens diante da Vida.Exatamente o que voce falou sobre o isolamento existencial.

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  11. Ricardo C. disse:

    Cristiano, sábias palavras, especialmente a sua observação das linhas tortas de alguns que se crêem Deus, hehehe!

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  12. Ricardo C. disse:

    Gwyn, observação bacana a sua, eu não tinha feito essa ponte!

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