Crença, fé e experiência religiosa (1): a psicodinâmica da crença

Comprei esse livro aí do lado em 1987. Pelo menos é o que me faz supor a folha de rosto, já que esse ano aparece abaixo do meu nome, e onde também consta o valor de 390,00, expresso em Cruzados, moeda da época.

Sempre guardei desse livro uma categorização que ainda hoje muito me agrada, e que diz respeito à diferenciação que o autor faz entre “crença religiosa“, “fé religiosa” e “experiência religiosa” — ele também fala em “adaptação estrutural religiosa”, mas não pretendo ir tão longe; em outra ocasião explicarei por que —, dando a entender que se trata de níveis de desenvolvimento religioso… êpa, como assim? E onde fica o meu tão propalado agnosticismo?! Bom, segue no mesmo lugar, junto ao meu interesse pela religiosidade humana, de que também já andei tratando em outras ocasiões. Mas vamos diretamente ao assunto, que me parece interessante para entender a maneira como as pessoas lidam com o tema.

Comecemos pela crença, foco deste primeiro post. Diz Wilber que é

(…) a forma mais inferior de desenvolvimento religioso e, na verdade, parece com freqüência funcionar sem qualquer ligação religiosa autêntica. O ‘verdadeiro crente’ (…) adota um sistema de crença mais ou menos codificado que parece atuar basicamente como um fundo de símbolos de imortalidade. Esse sistema poderá ser uma religião mítico-exotérica (por exemplo, o protestantismo fundamentalista, o xintoísmo secular, o hinduísmo popular, etc.), o cientismo racional, o maoísmo, a religião civil e assim por diante. O que têm em comum, no que diz respeito à ‘verdadeira crença’, é a vinculação de um nexo ideológico às qualificações de uma pessoa para a imortalidade. (p. 98)

Em termos algo distintos aos do autor, o que costuma ocorrer com o crente é que sua angústia frente à morte — angústia que não é apenas dos crentes, mas sim inerente à nossa espécie, e da qual todos queremos nos livrar — se vê aplacada pela promessa de imortalidade oferecida pela crença à qual ele se associa; e a solidez dessa relação se sustenta sobretudo graças ao pouco (ou nenhum) questionamento da mesma. Neste sentido, qualquer questionamento sobre a crença deve ser imediatamente repelido ou no mínimo neutralizado, venha ele “de fora”, isto é, da parte de outros que não comunguem dela, ou da própria pessoa — na forma de dúvida ou descrença. Por sinal, dúvidas ou descrenças por parte do crente

(…) tendem a ser projetadas sobre os outros e, então, atacadas ‘lá fora’ com resistência ativa. O verdadeiro crente está sempre ativo, procurando convertidos e combatendo descrentes, pois, por um lado, a mera existência de um descrente representa um indício a menos no tocante à imortalidade e, por outro, se o verdadeiro crente consegue persuadir outras pessoas a abraçar a sua ideologia, isso ajuda a aplacar seus próprios impulsos de descrença. Se for mítico-religioso, ele luta contra pecadores, queima feiticeiros, enforca hereges; se for marxista, vive para a revolução que esmagará os descrentes (e no meio tempo encarcera ‘feiticeiros’, psiquiatriza ‘hereges’1); se for cientista, em geral inicia uma invectiva conjunta contra as visões adversárias (hereges). (…) Não é a legitimidade nem a falsidade da perspectiva oposta que deturpa sua origem, e sim a paixão peculiar com que é combatida: o que se tenta converter é o próprio eu descrente. (p. 98-9)

Curioso, hoje penso não ter sido à toa que, décadas atrás, me vi dizendo durante um debate acalorado: “Desconfio daqueles que fazem alarde da solidez de suas convicções”… Entretanto, vale dizer que não se trata de que toda crença, especialmente aquela socialmente disseminada, seja intrinsecamente nociva por conta dessa dinâmica em relação ao crente. O próprio sistema de crenças pode trazer, em seu interior a “semente” que combate os fundamentalismos mais míopes. O que me faz lembrar, por exemplo, de algumas falas atribuídas a Siddhartha Gautama, o Buda:

Não acrediteis numa coisa, apenas por ouvir dizer. Não acrediteis na fé das tradições, só porque foram transmitidas por longas gerações. Não acrediteis numa coisa só porque é dita e repetida por muita gente. Não acrediteis numa coisa só pelo testemunho de um sábio antigo. Não acrediteis numa coisa só porque as probabilidades a favorecem ou porque um longo hábito vos leva a tê-la por verdadeira. Não acrediteis no que imaginastes, pensando que um ser superior a revelou. Não acrediteis em coisa alguma apenas pela autoridade dos mais velhos ou dos vossos instrutores. Mas, aquilo que vós mesmos experimentastes, provastes e reconhecestes verdadeiro, aquilo que corresponde ao vosso bem e ao bem dos outros. Isso deveis aceitar, e por isso moldar a vossa conduta. (Grifo meu)

A parte grifada desse trecho que apresentei aponta para a necessidade de um “processamento”, de reflexão e elaboração sobre o conteúdo de qualquer crença que abracemos, processamento esse que não se esgota numa conclusão definitiva, dogmática, o que justamente contradiria a própria necessidade de reflexão sobre si mesmo e sobre o mundo onde esse si mesmo habita. Dito isso, destaco o fato de que tal experiência seria subjetiva, pessoal e intransferível. E é a partir dela, dessa experiência, que se poderia “avançar” para o “próximo nível”, de que falei em um outro post: o da fé religiosa.

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ATUALIZAÇÃO: Por conta de um comentário que acabei de ler num post mais antigo, vi que o Roberto pescou com propriedade um paralelo entre este daqui e o outro, Agnosticismo, ateísmo e um gosto pela religião. Ainda não sei se nos conhecemos, Roberto, mas isso não muda o fato de ter de te agradecer por chamar-me a atenção, e ainda por cima apresentar-me o poeta indiano Kabir, do séc. XV.

[WILBER, Ken (1987). Um Deus Social: Breve Introdução a uma Sociologia Transcendental. SP: Cultrix. 193p.]

_________
1 Não custa lembrar que o livro foi escrito por um norte-americano e publicado em 1983, com a Guerra Fria ainda presente. Ainda assim, a história de perseguição religiosa e de internação de dissidentes em clínicas psiquiatras na ex-União Soviética, na China e em Cuba, por exemplo, é fartamente documentada, e a “psicodinâmica da crença” de que o autor fala pode ser aplicada ali também. Mas, só para contrabalançar, no Rio de Janeiro o número de internações na antiga Colônia Juliano Moreira alcançou o seu maior número justamente durante a ditadura militar…

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22 respostas para Crença, fé e experiência religiosa (1): a psicodinâmica da crença

  1. Pax disse:

    Ótimo post Ricardo. Ótimo! Na verdade gostaria sinceramente de o termos em mãos junto com algum tempo e conversar longamente e pessoalmente sobre o tema. Chamaria meu irmão, que você conheceu, e mais meia dúzia desses nossos amigos virtuais para isso. Mas não temos esse tempo nem esse espaço, moro aqui e você aí e a vida passa ali ao lado das nossas janelas. Tenho a minha, tens a tua e os outros as deles, mas gostaríamos de ter mais tempo juntos, como gostaríamos de mais tempo nadando no mar, amando nossas mulheres, construindo algo pra nossa sociedade, enfim, vivendo e vivendo.E aí nos apercebemos que o tempo não para, é inexorável (em todas acepções do verbete) e nos tira a cada segundo, um segundo a mais, ou e menos. E nos damos conta da vida finita. E aí? Onde achar um alento para a realidade posta à mesa?Acredito, que tanto o texto, quanto eu e você, não sabemos responder exatamente, mas entendemos porque tantos acham nas religiões os motivos de uma fé qualquer.Não os questiono. De forma alguma. Questiono a maioria das religiões, essas sim, verdadeiras máquinas financeiras que utilizam o medo da morte como produto de prateleiras questionáveis.

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  2. Renato disse:

    Deveras interessante, parece ser um livro que vale a pena procurar nos sebos.

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  3. Monsores, André disse:

    Eu questiono as religiões e questiono os religiosos. Me sinto nesse direito já que toda vez que digo que sou ateu me olham com cara de terreno baldio. Isso quando não me olham como se estivessem olhando para um assassino estuprador de criancinhas.Claro que o motivo não é bem esse, mas a maioria das pessoas religiosas que conheço, como bem diz o texto do Ricardo, nunca se questionaram. Eu não consigo confiar nem dar crédito a alguém que nunca questinou as próprias convicções. Sejam elas religiosas, ideológicas, políticas, etc. Mas amanhã eu posso me questionar e chegar a conclusão, por exemplo que penso assim porque sou novo, imaturo, etc…Grande abraço, meus caros.

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  4. Ricardo C. disse:

    Pax, as tuas reflexões são profundas e cheias de uma fraternidade que anda meio fora de moda, mas que se apresenta como uma das grandes necessidades que vejo em boa parte das pessoas. E as religiões? E as crenças? Como vc disse, faltam respostas. Aqui tratei de levantar o que seria a dinâmica psicológica da crença, em particular das crenças dogmáticas. E a combinação “tipo de crença + tipo de crente” tem algumas variações, para o bem ou para o mal… Depois falo da fé e me arrisco a dar pitacos sobre a experiência religiosa, onde mesmo para ateus há coisa interessante a dizer!

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  5. Ricardo C. disse:

    Renato, vi em sebos na net, baratinho. Gosto do livro, deverei voltar a lê-lo. Por enquanto, apenas esses tópicos, justo por terem sido os que nunca esqueci.Abs

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  6. Ricardo C. disse:

    Entendo a sua irritação, André, esteja certo de que entendo. Ao mesmo tempo, reconheço que a esfera dos mistérios da própria vida, que de alguma forma “batem papo” com as religiões e, particularmente com algumas doutrinas místico-religiosas, me chamam bastante a atenção. Ao meu modo, sou curioso em relaçào a elas.

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  7. Pax disse:

    É que no fundo, caro Ricardo, o tipo de crença e a dinâmica me parecem tão comuns…Dinâmica: tenho medo de morrer, dizem que há vida após a morte, me ensinam que sim, mas para obter esse privilégio preciso me atrelar à uma religião.Tipo de crença: se eu for religioso, seguir os dogmas, terei o reino dos céus e uma vida eterna.Há poucas variações sobre o tema.Ou estou errado?

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  8. Alba disse:

    Excelente texto, Ricardo! Abre um mundo de possibilidades de discussão, independente da fé ou da falta de fé do cidadão.A religião, em termos muito, mas muitos crus, tem que ser vista como uma força civilizadora na origem, acredito, porque plasma regras morais e comportamentais que impedem ou penalizam ou dificultam, o massacre que nossa compassiva espécie certamente promoveria com mais eficiência se não fosse esse freio. É bem verdade que o “freio” também patrocinou gostosamente sua cota de massacres e ainda o faz, como no Afeganistão.Mas aí, parece-me, entram em questão as “regras pétreas” (desculpe se estou cometendo liberdade poética com seu belo texto) que as religiões organizadas fixam e, de certa forma, sofrem pressão social para fixar, já que os comuns mortais necessitam de regras não muito complicadas que balizem seu comportamento e lhes permitam sentir-se bem, digamos assim, se é que não estou me excedendo em achismos.De toda forma, seu texto permite ainda muitas outras leituras, mas vou saboreá-lo mais tarde, com calma.

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  9. Pax disse:

    Minha pergunta é se precisaríamos de dogmas religiosos para “freiar” as sociedades.E, como bem colocado, usaram e abusaram dos mesmos dogmas para cometer os crimes dos únicos que me parecem bons, pelo menos nas religiões judaico-cristãs: Não matar, Não roubar e Falso testemunho.Olhando a táboa de Moises, que outros são realmente bons?

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  10. Alba disse:

    Pax,Realmente não tenho conhecimento extenso sobre religiões em geral. Regra geral, em muitos casos, foram criadas regras simplesmente para preservar a espécie, como no caso do tabu do incesto, que, repetido, dava origem a seres com problemas, digamos, como é prova a série de reis doidos, coxos e tudo mais na Europa, graças à estreita consanguinidade, ditada pela necessidade de alianças, poder, apoio militar, whateaver.Mas, do ponto de vista das religiões judaico-cristãs, a simples máxima “amai-vos uns aos outros”, é preciosa, me parece. Fraternidade não era uma coisa lá muito conhecida. Aliás, ouso dizer que soou como uma baita revelação. É claro que tudo isso passa por um filtro histórico e tudo mais, mas há progresso quando não há mais execuções públicas para deleite das massas. E haja deleite: na Idade Média, multidões se reuniam para assistir, como no cinema, pipoca em punho, a suplícios terríveis, que iam do esfolamento, passando pela castração e terminando com a decapitação. Tudo isso ao som de hurras, tipo quero mais.Então, a conquista e acho mesmo que foi conquista, de olhar o outro como igual a mim, passa pelas revoluções históricas, é claro, mas também, pelas religiões.Pra não ser excessiva, eu, que fui criada como católica, aluna de escola de freiras por todo o primário, sei bem dizer do terror do “olho de Deus” que tudo vê, mas também, da recusa em assistir ou participar de espetáculos em que meu semelhante é humilhado, massacrado ou morto.E, veja, nesse quesito, estamos vivendo numa sociedade pra lá de primitiva, já que o número dos linchamentos que acontecem por aqui é absurdamente alto, principalmente nas periferias. Postei lá no PD, um artigo do José de souza martins falando nisso há tempos. Pena que não o tenha mais. Mas foi publicado no Aliás, do Estadão.

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  11. Pax disse:

    amai-vos uns aos outros já fica no limiar, pra mim, de louvar a deus acima de todas as coisas…mas prometo pensar melhor

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  12. Monsores, André disse:

    Caro Ricardo,Eu também sou, acredite. Leio todos os livros de religião que param na minha frente. Sempre me interessei pelo assunto.O que me irrita, na verdade, é o fanatismo religioso e a falta de questionamento das pessoas em relação as coisas.Mas tenho um absoluto e profundo respeito pelas pessoas que se questionam e ainda assim seguem com a sua religião. Isso se chama convicção e seria um absurdo eu desrespeitar isso. Cada um tem o direito de chegar a suas próprias conclusões em relação a vida, o Universo e tudo mais. Mesmo que seja uma conclusão rudimentar e fantasiosa.

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  13. Ricardo C. disse:

    Alba, os seus comentários foram bacanérrimos, e “bateram um bolão” não só com o post, mas com os comentários do Pax. E há algo sobre a necessidade de normas, de limites, que me parece dizer respeito ao próprio desenvolvimento individual. Você que trabalha com crianças e jovens sabe bem como “pedem” limites, por mais que pareçam querer o oposto se observarmos os seus comportamentos cotidianos… É difícil admitir-se “órfão” e assumir o seu próprio destino, e as conseqüências de seus atos, além de gerenciar os desejos individuais frente aos que dizem respeito aos demais… Nesse sentido, as religiões, o Estado, os tabus, todos funcionam como “pais”, oferecendo direção, conforto, promessas de recompensa caso ajam deste ou daquele jeito — e castigo se fizerem o oposto; Ou seja, são um “norte”, que quando compartilhado por muitos, ainda tem a vantagem de atenuar a solidão, essa que nos faz nascer sós e morrer sós (no sentido de ser uma experiência singular, ninguém pode vivê-la conosco nem por nós.

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  14. Pax disse:

    Dormi com a questão e acordei ainda em dúvida. Amai o próximo como a ti mesmo. É um bom tema, com certeza. É uma baliza que chega até a política se quisermos.Nos meus tempos de faculdade e movimento estudantil havia uma frase que lembro agora: “A família prepara e entrega o indivíduo para o Estado”. Acredito que para as religiões também. Coisa de comunista como diriam Mr X e Chesterton.

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  15. Ricardo C. disse:

    Sim, de certa forma, Pax. Mas agora quem terá que refletir sobre a sua dúvida sou eu, só que terei que dexá-la para depois, já que estou tentando escrever o segundo post dos 3 que pretendi, e ainda tenho que corrigir 3 monografias (que, claro, ficarão para depois do prazer intelectual do post…)!

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  16. Alba disse:

    Ricardo, desculpe,Estou frustrada porque escrevi um comentário grandão que simplesmente foi engolido pelo google, com esse sistema de pedir pra gente se identificar! Urrrghhhh!!!

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  17. Ricardo C. disse:

    Alba, fico triste, imagino que tivesse sido bastante interessante de ler… Já que passaram-se muitas horas desde o ocorrido, arrisque mais uma vez, please!Bjs

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