Papo-cabeça

A caixa de comentários do post anterior tocou num assunto tão recorrente como o amanhecer e o pôr do sol: o tempo que passamos conectados na internet em redes de relacionamentos — e aqui vou além de Orkuts, MySpaces e Multiplys, englobando chats, MSN e e-mails, além dos blogs e suas caixas de comentários.

Há várias trilhas para essa discussão, e aponto apenas as mais óbvias, já que não sou estudioso do tema: 1) destacar o quanto as pessoas têm buscado encontros e interação na esfera virtual e, paradoxalmente, diminuído a sua disponibilidade para com o seu cotidiano fora da rede, aquilo tudo que acontece independentemente da internet1; 2) reconhecer que houve um recrudescimento da violência urbana e um concomitante aumento da oferta, quando não migração, de serviços para a internet — bancos, compras de supermercado, comida, livros, passagens de ônibus/avião, sexo, pagamento de impostos, acesso a bibliotecas, museus e tantos outros, muitos deles gratuitos — que contribuem para que optemos pelo binômio tela+teclado, tanto em casa quanto no trabalho2 ; 3) a tendência humana à adição, isto é, a viciar-nos em qualquer coisa que nos dê prazer.3 Nada disso é novidade, claro, até as crianças já se deram conta. Nesse caso, quero dar mais um palpite, só para complicar um pouco mais as coisas. Aí vai:

O mundo, ou melhor, o nosso mundo — majoritariamente urbano (com raras e invejáveis exceções), sobretudo classe-média (média-baixa e média-alta), além de globalizado e “internetizado” —, está cada vez mais ao alcance da nossa mão. (Calma, já vou sair do óbvio ululante.) Como conseqüência disso, uma das fórmulas que nos define viu-se bastante afetada. Qual? A fórmula que engloba a nossa liberdade (e responsabilidade concomitante), por um lado, e o que por outro está além da nossa vontade, e nem sequer é de nossa responsabilidade: algo chamado de coeficiente de adversidade, isto é, aquilo que o mundo nos coloca em termos de dificuldade, impedimento, frustração de nossos propósitos. E vale dizer que essa fórmula, cujas porcentagens variam para cada pessoa e a cada instante das vidas de cada um, também se vê afetada pela percepção que temos sobre o que é responsabilidade nossa e o que não é.

Bom, agora que soltei todo esse emaranhado de palavras, que tal algum exemplo para ilustrar essas mudanças? Tentarei ao menos uma besteira, aí vou:

Para começar, temos uma novidade relativamente recente, e que veio à reboque da interconexão: a história do “tempo real”. O resultado é que, como diz a velha canção de Vila Sésamo, “todo dia é dia, toda hora é hora”… e todo minuto e todo segundo… Ou seja, todos estamos conectados o tempo todo, o que faz cair em nossas mãos um poder que antes pertencia ao tempo e aos lugares… ahn?!? Explico: até pouco tempo atrás, para ver tal filme, por exemplo, a única alternativa era a de deslocar-nos até um cinema, num horário que não foi predeterminado por nós, obedecendo a um calendário definido pelos exibidores, independentemente do filme já estar pronto há dois anos, sei lá. Ou seja, o nosso arbítrio — decisão dependente apenas da vontade; alvedrio (Dicionário Houaiss) —, ou pelo menos a percepção que temos dele, era bastante limitado. E hoje? Temos condições de saber, com o poder de alguns cliques, quando um filme está em pré-produção, quais serão os seus atores, as mudanças no roteiro, os bastidores das filmagens, a festa de lançamento, quem deu vexame nela… E de repente uma cópia do filme “aparece” na internet antes mesmo dele sair nos cinemas, e com mais alguns cliques descobrimos legendas para o filme (caso não esteja em nosso idioma), e depois de passar a próxima e interminável uma-hora-e-cinqüenta-e-quatro-minutos-habitual assistindo o filme, corremos ansiosos para as comunidades que já o estão debatendo, ou então vemos o filme previamente conectados ao computador, às comunidades, ao twitter, e as teclas voam, e as maiúsculas digitadas gritam por nós, e ufa, que estresse e quanta adrenalina inebriante, foi bom pra você?!?

É, tanto (aparente) poder em nossas mãos nos deixa sem saber o que fazer diante de todas as alternativas. E os impedimentos? E as adversidades? Há softwares, grupos de discussão e reportagens sobre técnicas tibetanas encarregados de apagar essas palavras do nosso vocabulário. Em compensação, jogam sobre nós a responsabilidade em relação às escolhas, escolhas que sugeri, no exemplo anterior , que antes não pareciam tão variadas e disponíveis, além de nem tão nossas, pois não estavam ao nosso alcance, dependiam de um sem fim de variáveis muito distantes da nossa percepção — e de casa, longe de nossas mãos. E agora? Aí está o mundo, tão ao alcance da mão, mas ao mesmo tempo denunciando a nossa gigantesca ignorância a seu respeito e, por tabela, ignorância sobre o que de fato importa, sobre o que é prioritário ou primordial em relação a nós mesmos e à nossa visão de mundo. Então repito: o que fazer?

Meu amigo André Monsores falou no post anterior sobre parte de sua angústia:

“… fico perdido entre o que é importante para mim, o que deveria ser importante para mim e o que é essencial para o mundo. A ordem de prioridade não deveria ser essa? O coletivo? A individualização do coletivo não deveria seguir um padrão na sua essência: o de acrescentar ao mundo coisas melhores?”

São reflexões já indo além (ou estando aquém?, talvez ambos) do que elas mesmas tratam, posto que compartilhadas com amigos virtuais, na caixa de comentários de um blog, onde ele (André) parece convencido de que será lido e de que receberá em troca algumas manifestações de solidariedade, compreensão, e que trarão consigo um certo sentido de pertencimento, de poder combater um pouco do isolamento protetor (porém volta e meia gélido) em que vivemos — atrás de telas de computador, por exemplo —, mas com a agradável sensação de não precisar correr riscos desnecessários — sair à rua e não voltar… —, de ter algum controle… eu disse controle? Mas qual, se justamente o que aparece como queixa é termos pouco controle sobre a compulsão de seguir ligados aos computadores, às redes de relacionamento, ao prazer-beirando-a-dor-e-coalhado-de-ansiedade que a perspectiva desse alimento virtual nos promete?!?

Bom, teclei muito. E deixo assim, em aberto, pois é hora de ouvir vocês. Mas não demorem demais, senão eu fico ansioso.

__________
1 Volta e meia vemos em muitos uma espécie de reação a isso, diversos “orkuticídios“, “myspacecídios“, “multiplycídios” e assemelhados, como se dissessem “basta!”, “a partir de hoje parei de beber”, para depois sentir falta e voltar discretamente aos mesmos lugares, sempre com um tom de queixa…

2 Estou ciente de que há uma geração de crianças e adolescentes onde essa fronteira já não se distingue facilmente, para quem não dá para dizer “antes e depois do advento da internet”, e mesmo “dentro e fora da internet” (esta última frase envolve certamente a todos os que estão lendo este post…). Mesmo assim, e de forma simplificada, falo das “horas-bunda” diante das telas de computador, de celular e afins, daquelas horas que implicam em interação sim, mas sem o contato face-à-face, sem o uso de linguagens outras — a corporal, por exemplo —, sem a interação com o que há fora da rede e fora de casa. E como esta nota de rodapé está ficando enorme, melhor paro por aqui.

3 Sem falar nas redes de troca de arquivos de música e filmes, que já fizeram um estrago danado na indústria do entretenimento, obrigada a rever tanto a produção quanto a distribuição do que produz/intermedeia.

4 Tratei um pouco disso em um post chamado Liberdade e Destino.

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19 respostas para Papo-cabeça

  1. confetti e a ilusao* disse:

    nolife forever ! so que a vivo sem culpa, enquanto minha realidade tenta se acomodar no tempo que sobra ….tudo muito arriscado e sem nenhum controle, ou melhor, nenhum risco e tudo sob controle !essa sou eu…..

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  2. confetti e a ilusao* disse:

    ansiosa fico eu quando vc demora responder os mels…

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  3. DarwinistO disse:

    Engraçado. Comecei a ler esse post logo após escrever o seguinte comentário no Weblog: Esse é, sem dúvida, o dia mais modorrento em comentários desde que eu comecei a frequentar o blog.A tradução óbvia faço eu mesmo: Caramba, cadê vocês! Porque não estão aqui conversando comigo? Porque não estão me ajudando a escapar da rotina terrível do trabalho? Voltem logo!Supressão da carência, estímulo à dependência, válvula de escape: a nolife é isso tudo e muito mais…

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  4. Ricardo C. disse:

    Confetti, sem culpa é bom, mas vício, no sentido mais preciso da palavra, é ruim, e se mostra numa possível desproporção entre a nolife e a life…(Respondi ao seu mail.)

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  5. Ricardo C. disse:

    Darw, taí, temos um monte de válvulas de escape ao alcance da mão. Acontece que essa “oferta” cobra seu preço em forma de atenção, dedicação… e tempo!Quando vê, o sujeito não almoçou, não escovou os dentes, não tomou banho… Tem muita gente assim, meu caro!

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  6. DarwinistO disse:

    Ricardo,Hoje em dia a internet me é uma válvula de escape apenas para a rotina coorporativa. Mas há alguns anos ela dominava toda a minha vida. Foi, com toda certeza, um dos elementos que mais minaram meu casamento.

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  7. confetti e a ilusao* disse:

    vicio ruim ? no shit…)))

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  8. nada será como antes disse:

    Passei por experiência interessante, desde 4ª feira até às 10:00 h de hoje. Fiquei sem conexão, por alegadas e múltiplas desculpas bobas da telefonica. Senti falta das conversas e dos “invisíveis” companheiros de blog. Aproveitei para ouvir música, ler papéis acumulados e assistir DVDs à espera. Foi bom em parte, mas a primeira atitude, com a conexão refeita, foi entrar no blog e dar sinal de vida.Não é vício, é hábito.Eufemismo educado !

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  9. pingwyn disse:

    Ainda estou pensando sobre o assunto. Mas, por enquanto e isso…Vivi muito a internet antes de vir para ca e depois, no primeiro ano morando aqui. Foi uma forma que eu encontrei para “conversar” com pessoas sem ter que sair de casa ( eu tinha dois filhos pequenos e ninguem para deixa-los). e brasileiros. Conheci otimos amigos.Hoje e muito diferente.Eu tenho umas vida super corrida, trabalho em diversos lugares (dirigi 400 kms nesses ultimos 3 dias..para Brasil pode ser pouco, para Inglaterra eu quase consigo ir de uma ponta a outra)que me colocam frente a situacoes muito diferentes todos os dias. Ainda tenho dois filhos e uma casa para cuidar(lembre-se que aqui nao temos ninguem que nos ajude com os servicos de casa)Minha forma de “nao fazer nada” ou de descansar, ou desestressar e colocar o laptop no colo e ficar lendo os dialogos das pessoas, as reacoes, as ideias, o que falam e seu jeito de ser e,principalmente, aprender, aprender e aprender..Acredito que seja a nossa vida em uma outra dimensao..conhecemos pessoas, a essencia delas, sem a aparencia para atrapalhar esse conhecimento. E assim, encontramos aqueles agente se identifica e que nunca encontrariamos no mundo real…NAo e fantastico e tambem challenging???Nao tenho isso como vicio..mas que faz um bem chegar em casa, conectar e ler o que voces tem pra falar e ensimnar..e UMA DELICIA…

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  10. confetti e a ilusao* disse:

    nada e mate,definam a palavra “vicio” por favor…. quando por diversas razoes nao da pra acessar os blogs habituais, o do pd sobretudo onde temos habitos mais antigos, nao rola um leve stress? ou melhor, nao rola um stress incontrolavel ? aumentando o espectro de influencia,conseguem ficar off line da web,dos sites preferidos – news, fotos, videos,compras, literatura, musica, etc…sem stress, sem ter aquela desagradavel sensaçao de estar perdendo algo, de estar numa ilha deserta ?

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  11. Monsores, André disse:

    Desculpe aí pessoal, tive que me ausentar de ontem a tarde até agora. Estava num evento desalmado desses que fico contando o tempo para ir embora.Vou escrever aqui e copiar o comentário para o post de cima, e acho que vai ser longo, perdoem-me.Muitos são os motivos que nos levam a vir aqui e transformar o blog do Ricardo em terapia em grupo. Os posts do Ricardo motivam a reflexão e várias vezes já me peguei por dias a fio pensando quantas vezes eu falo “eu” por dia. Sua máxima culpa, Ricardo. Me fazes pensar.Viemos pra cá, como bem disse o Pax, por vários motivos. Essas pessoas que estão aqui se gostam, apesar de morarem longe. Eu me refiro ao Ricardo como “eu tenho um amigo que escreve bem pra caramba…” Ou, “eu tenho um amigo psicólogo e professor…”. Falo da real life, quando me refiro a ele com pessoas que não fazem a mínima idéia de quem ele é. Mais tarde lembro que infelizmente, não o conheço pessoalmente, e logo em seguida me vem a certeza de que não importa se através de bytes, bits, elétrons, banco de dados relacional, e uma caixa de comentários, sentimento é sentimento. Estendam isso a todos vocês.A Nat e o Pax é mais fácil. Conheci ambos pessoalmente e essas ocasiões estão no top 5 dos meus ultimos anos.É engraçado como tenho a sensação de que conheço um bocado cada um de vocês. A Patricia, por exemplo, esse doce de pessoa. O Darwinista, a quem adoro e adoro tirar sarro… A Confetti, minha sweetheart, que é uma das pessoas que mais gosto nesse mundo, enfim, como isso é possível em uma plataforma tão seca, fria e desalmada? A explicação está em todos nós. A profundidade de nossos sentimentos. Nossas angústias e carências, nossos gostos e desgostos, nosso ego e essa vontade tão boa de compartilhar aquilo que sabemos, que sentimos e que queremos saber.A real life é cruel. Lá a formação de grupos acontece por outras razões: ocupação > nível social > interesses de lazer > familiares > amigos de amigos. Aqui a ordem é por “assuntos de interesse”.Me preocupo muito com o conceito de qualidade de vida que vejo sendo adotado pelas pessoas faz algum tempo. Invejo meus avós contando que na época deles não havia televisão e ou eles se reuniam na sala para ouvir rádio ou ficavam na porta de casa conversando. Com pessoas como vocês, troco qualquer coisa para “ficar conversando”. Queria que no mundo real fosse assim também.Senti isso na pele quando conheci o Pax, por exemplo. O Pax é o Pax gente. O mesmo. Tem cara de Pax, jeito de Pax, estilo Pax de ser, e toda essa capacidade de emocionar com a sua falta de medo de elogiar outrém – o que considero uma das maiores qualidades num ser humano. Obrigado, meu amigo.Bem, estou cansado. Dei duas palestras hoje e ambas foram cansativas e cheias de perguntas. A enxaqueca também veio com tudo. É o sol que fez na estrada.Sinto-me como Caetano e Gil que falam muito, mas não falam nada. Bem, pelo menos quero que vocês saibam que fui sincero em tudo.E Nat, foi uma brincadeira. Não há amiga mais atenciosa no mundo que você. E isso é o avesso do narcisismo.

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  12. confetti e a ilusao* disse:

    monso, sentimentos virtuais nao teriam algo de masoquismo ? µ_____________________µo catalizador do sentimento virtual é a ausencia de codigos tais que imagem,cheiro, gosto,olhar,tempo real,som e outras “realidades” que inibem ou impedem o contacto pessoal ( social?), ou os hierarquizam….nao sei, é uma duvida..

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  13. confetti e a ilusao* disse:

    com algum esforço, da pra ver um divanzinho, nao da ?µ______________µ

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  14. Nat disse:

    *Off* – Eu ia te perguntar como vc fez o seu “Passo por eles” com o feed de cada um, mas pelo visto vc ainda está mexendo neles, pq agora não estão aparecendo…

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  15. Monsores, André disse:

    confetti, penso que não. Eu gosto de misturar os dois mundos. Se pudesse, conheceria todos vocês.Mas isso não me impede de ter sentimentos e esses não são virtuais. O que acontece por aqui é troca, virtual é o meio, mas não são as relações. Logo, ao menos para mim, não há nenhum tipo de dor.

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  16. confetti sem ilusao* disse:

    drezin,nao estou falando de vc nem de pessoas “sadias” em geral…o sentimento virtual é feito de imaginaçao, de projeçao e de outras palavras acabadas em ao…inclusive frustraçao, resultante da impossibilidade de “ver” o outro…essas conclusoes sao didaticas, sociologos e psicologos as desenvolvem em estudos sobre o mundo virtual

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  17. confetti sem ilusao* disse:

    rc, corrige ali “passo sempre PO eles”…senao parece que vc ta xingando…))d’autre part, bienvenu chez les harcelés du vice…depuis que tu m’as défendue, toi aussi t’es “cité” tous les jours par l’enragé…(( c’est pathologique…((

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  18. confetti efemera* disse:

    rc, o q esse antigo post sobre vicio esta fazendo ali na coluna “comentarios” ? misturou na mudança ?
    bom reativa-lo…conversa nao falta….

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  19. Ricardo C. disse:

    Confetti, coisas do wordpress. Tentei começar a fazer aquela lista dos velhos posts de que ainda gosto e vi que terei que refazer todos os links dentro deles referentes a outros posts do ágora antigo. Ô trabalheira! Aí o próprio wordpress fez o link e deixou aqui como comentário. Acontece coisa parecida lá no weblog, né?
    P.S. Melhoras nesse braço!

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