Assujeitamentos, rimando com estranhamentos

Acabei de descobrir Marina Abramovic, considerada a “avó da arte performática”. (Para não variar, atrasadíssimo, eu!) Quem me falou dela foi uma grande amiga, às voltas com o seu pós-doutorado (girando em torno da arte, do corpo e da psicanálise), amiga essa que já havia me apresentado a Orlan (parte de um post aqui mesmo, tempos atrás). Pois então conto a vocês que, na conversa da gente, falamos tanto sobre a série “In Treatment” — objeto do post anterior —, quanto do narcisismo contemporâneo, num tempo onde proliferam biografias (autorizadas ou não), autobiografias e blogs-querido-diário — que, numa primeira leitura, falariam de uma espécie de “triunfo da individualidade” (ou “do individualismo”, talvez), mas que, por outra via, também denota a luta contra o aplanamento do sujeito provocado pela própria sociedade contemporânea.

Falando das últimas linhas em outras palavras: em tese, hoje em dia podemos dizer/fazer/desejar o que nos der na telha; porém, a mesma sociedade que exalta esse triunfo do indivíduo, do self-made-man, não só exige-lhe as tripas, mas também cansa-se dele em bem menos tempo do que os 15 minutos de fama preconizados por Andy Warhol. E para enganchar isto no papo sobre o narcisismo é preciso fazer uma “crítica da crítica”, isto é, entender que a crítica em relação aos “excessos narcísicos” acabaria não enxergando que tal narcisismo também poderia ter algo de reação, até mesmo de defesa frente a uma opressão pulverizada, amorfa, bem diferente da opressão representada pelas ideologias políticas do pós-guerra, ideologias estas de fronteiras mais nítidas, compostas de multidões, onde bastava alinhar-se a uma ou outra para pelo menos sentir-se amparado, acompanhado, verdadeiramente apoiado. Ou seja, é preciso reconhecer que nos sentimos bem mais sós do que antigamente, já que nos falta o apoio proporcionado seja pela ideologia, seja pelas tradições e mesmo pela religião. (Aliás, não é a toa que esta última ande tão presente, e de maneira cada vez mais fundamentalista, numa nítida reação a estes tempos tão líquidos, como diria Zygmunt Bauman.)

Bom, falava eu dessa tal Marina e de suas performances, e acabei dando essa volta danada. Só me resta voltar a ela e pôr aqui uma citação sobre Rhythm 0,* um dos seus trabalhos mais polêmicos:

“Marina Abramovic, em Rhythm O, realizada em 1974, se entregava inteiramente à manipulação dos espectadores, a quem oferecia para tal fim objetos como batom, perfume, fósforos, água, uma vela, uma arma, uma bala, uma serra, um machado, agulhas, uma tesoura, mel, uvas, enxofre: ‘Há setenta e dois objetos sobre a mesa que podem ser usados em mim como desejarem. Eu sou o objeto’. Seis horas mais tarde, após Marina ter sido despida, cortada, pintada, limpa, coroada com espinhos e ter tido a arma, carregada, apontada para sua cabeça, a performance foi interrompida por espectadores preocupados com seu desfecho. […]
A proposta de Marina Abramovic deixa claro o caráter de participação buscada no espectador. Trata-se aí de uma espécie de armadilha: os espectadores tornam-se, diante da proposta e, mais radicalmente, da encarnação da mesma pelas artistas, participantes cruéis e capazes de quase matar essas artistas, surpreendentemente – ou melhor, conforme o esperado, em acordo com próprios instrumentos a eles oferecidos e a declaração-ato da artista (“Eu sou o objeto”). Faço-me cortar, faço-me ferir e ameaçar graças ao outro, enlaçando-o num circuito irresistível, pois materializo aí um quase-objeto que põe em vertigem seus olhadores. Estes podem, então, sentir-se chamados a reduzir esse quase-objeto a um verdadeiro objeto – nem que seja, recurso extremo e infalível, por sua morte.”**

E então temos, já em 1974, por um lado uma proposta radical de aparente assujeitamento, de entrega ao outro (“Eu sou o objeto”), muito próxima da condição masoquista, mas de alguém que só na aparência abre mão do seu lugar de sujeito. Por que? Ora, porque só um sujeito ativo pode colocar-se nesse lugar passivo. Sua passividade não é predeterminada pelo outro; é ela que se oferece ativamente (e responsavelmente) ao outro para que esse outro faça dela o que ele quiser. Há um poder aí, que está longe de pertencer apenas ao outro. O tal do assujeitamento, em certo sentido, não o é.

Pois então voltemos ao início, ao tal narcisismo contemporâneo. Estou tentando lembrar onde foi que eu li, em relação ao que se escreve hoje em dia, sobre o fato de cada vez mais os escritos (evito aqui falar dos escritores) abdicarem da vontade de interlocução, deixando de falar dos outros, seja na tentativa de entendê-los, seja na de entender a si mesmos. Ao que parece, ao outro resta sobretudo o papel de platéia, aquela que ora aplaude, ora apupa, ora adula. E a tentação de culpar os próprios sujeitos por essa espécie de “ostentação (vulgar) de si” é grande… Retorno, porém, ao que agora apresento como dúvida: será que nada se salva desse narcisismo? Será que só há lugar para a crítica com ares de moralização? Será, como sugeri no início desta conversa, que os tais excessos narcísicos são mesmo apenas um sintoma? Ou quem sabe há algo de “cura” neles?

Cartas para a redação do Dazibao, aquele que fica no meio da Ágora.

____________
* O link de Rhythm 0 leva a um jogo que simula essa performance da artista.

**Este trecho é parte de um ensaio da psicanalista Tania Rivera, que vale ler na sua totalidade. Cada um fará seu recorte de acordo com os próprios interesses, seja pela via da discussão sobre a arte, do corpo ou do sujeito. Se quiser inventar outro recorte, não se acanhe.

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5 respostas para Assujeitamentos, rimando com estranhamentos

  1. Monsores, André disse:

    Me senti completamente burro agora.Nas primeiras 15 linhas fui bem, depois comecei a degringolar, os olhos encheram de lágrimas por presbiopia + miopia +astigmatismo e parei. Volto amanhã descansado e com algum entendimento.Já disse que quando eu crescer quero ser igual a você.

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  2. Ricardo C. disse:

    André, vc quer ser igual a mim para provocar lágrimas nos leitores por conta de alguns dos meus textos confusos?:-P

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  3. pingwyn disse:

    Ricardo, provocar confusao nao e motivo para causar admiracao?? Pois eu acho admiravel quem tem essa capacidade ;P

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  4. Ricardo C. disse:

    Você não conta, Gwyn, é super parcial e condescendente com as pessoas de que gosta! ;-D

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  5. pingwyn disse:

    Ricardo, que posso eu fazer se voce tem qualidades que e muito facil ser parcial e condescendente?? ;))

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