Oito coisas

— Lá vou eu.
— Pra onde?
— Não tenho idéia.
— Então por que vai?
— Porque muitos já foram.
— Mas pra onde?
— Não é bem um lugar, é mais um desafio. A idéia é descobrir oito coisas que eu gostaria de fazer antes de morrer.
— Ah, isso é fácil!
— Só se for pra você, que nem chegou aos trinta.
— E o que isso tem a ver?
— Nada, tem razão.
— Já vi que você tá é sem idéias, né?
— Dá pra parar de me ver por dentro? Você sabe que isso me irrita!
— E enquanto isso você foge do assunto… Tá com medo?
— De que?
— Sei lá, de parecer meio bobo, você detesta fazer papel ridículo…
— Mas não acho ridículo pensar no que fazer antes de morrer.
— Sei disso. Mas teu medo continua sendo que essas oito coisas pareçam ridículas, né?
— Te pedi pra parar com isso, não foi?
— Tá bom, tá bom. Mas fala aí, pense alguma coisa…
— Bom, o que foi que eu ainda não fiz e tenho que fazer… Deixar tudo pronto pro meu funeral.
— Ahn?!? Que coisa mais mórbida, vire essa boca pra lá!
— Falo sério. Não quero dar trabalho logo depois de morto. Deixo tudo num envelope, na terceira gaveta da escrivaninha. Cremado, lógico. Você decide o que fazer com as cinzas, acho muito cafona dizer “jogue tudo no mar, perto das ilhas Cagarras, e não leve padre, pastor nem monge budista”. Se bem que monge budista pode até ser.
— Mas isso não tem graça, não tem nada a ver com a brincadeira!
— Ué, quem disse que é pra ter graça? Tem algum contrato? Letras miúdas? Multa?
— Não, mas você entendeu muito bem o espírito da coisa, deixe de ser chato.
— Não adianta, pra mim o troço que falei é sério. No máximo posso colocar essa tarefa por último, e olhe lá.
— Não vou discutir com você, seu pentelho. Ainda faltam sete.
— Vou fazer de conta que não ouvi o pentelho. Agora deixe-me ver… Depois do doutorado, fazer um curso de filosofia.
— Caraca, você é mesmo um chato! Curso de filosofia? Quer estudar isso antes de morrer? Aí tem coisa…
— Como assim?
— Tô achando é que você quer comer um monte de menininha gostosinha, dessas que te dão mole quando você dá aula.
— Para com isso, você sabe que nunca tive queda por menininhas, menos ainda de alunas, e vale a mesma coisa pras futuras colegas de faculdade. Eu quero é mergulhar na filosofia, não quero morrer pagão.
— Isso eu escuto desde que você tinha trinta. Agora, meia-idade, tenho cá as minhas dúvidas se o prazo de validade dessa conversa não dançou.
— Já foram duas, faltam seis. Bom, o trivial: fazer uma puta viagem por vários países e cidades que sempre quis conhecer, de preferência a lugares ligados a autores que li.
— Definitivamente, você é um chato. Não vai pensar em nada mais louco, nenhuma esquisitice?
— Não sou chegado a esquisitices. Humm, tá, pensei numa: no terreno culinário, quero comer sashimi de fugu.
— O que?!? Aquele peixe venenoso?!?!? Tá querendo morrer?!?!?!?
— Pelo menos não vou precisar pensar em mais cinco coisas pra fazer antes de.
— Engraçadinho… Tá bom, já falou em viajar, estudar, comer. Nada sexual?
— Esqueceu do funeral… E você é insistente, sabia que acabaria perguntando algo do tipo. Então tá. Já que falei em comida japonesa, queria fazer um curso de shibari.
— Que comida é essa?
— Hehehe, não é comida. É o bondage dos japoneses.
— Vai me querer amarrada? Mais?!?
— Adoro você ser mais sacana do que eu!
— Tá, agora falando sério. Aprender com quem e treinar com quem? Você sabe que minha tolerância à dor e pequena. Não me venha com as suas futuras coleguinhas do curso de filosofia!
— Já do teu ciúme não gosto muito não.
— Humpf!
— Você não queria que eu brincasse? Tô brincando, ora. E ainda faltam três. Humm, já sei. Conseguir saber, do jeito mais discreto possível, como vai a vida das pessoas que atendi, tanto das que sei que fiz um bom trabalho quanto das que sei que não funcionei direito.
— Isso tá mais pra fantasia do que pra algo que dê pra fazer, né?
— É, tem razão. Vou tirar da lista. Então… entrar em forma, voltar a praticar saltos ornamentais e saltar lá daquela pedra em Acapulco.
— Uau, gostei! Mas isso você tem que fazer logo, né? Com oitenta e lá vai fumaça vai ser difícil entrar em qualquer tipo de forma, estará mais pra formol, hahaha!
— Depois eu é que sou mórbido, né? Nem te ligo, você ainda vai me ver saltar que nem o Elvis naquele filme.
— Golpe baixo, você sabe que adoro Elvis! Vivaaa, Las Vêigas! Mas continue, faltam duas
— Falta uma só. Esqueceu que pra saltar lá em Acapulco primeiro vou entrar em forma de novo?
— Você não presta, sempre enrolando, né?
— Aqui vai a última: quero ir pra Dharamsala, na Índia, aprender aquela técnica dos monges tibetanos
— … a de dar porrada nos chineses?
— Não, para de deboche. Falo daquela técnica de meditar e conseguir emanar calor, como naquele documentário que a gente viu no Discovery Channel, onde os caras se enrolavam em cobertores molhados e secavam vários, acho até que eles competiam pra ver quem secava mais…
— Não é mais fácil comprar uma secadora de roupas? E cá pra nós, “emanar” é dose, né? Tá, não reclama, não deu pra resistir. Mas me diga, pra quê?
— A história de secar cobertores é detalhe. O que eu quero mesmo é meditar daquele jeito, esvaziar a mente, saber o que é o desapego, a verdadeira desidentificação do ego. Queria atingir esse estado. Será que antes de morrer eu consigo?
— Não digo que é impossível, mas vai ser difícil. Acontece que o que você quer é simplesmente ser Buda. E isso, meu nêgo, é o supra-sumo do ego.
— Ainda bem que você me ama, né?
— Não sei, ainda tô com as suas coleguinhas da filosofia atravessadas na garganta.

[Quem me mandou essa “tarefa” foi a Mariana. Relutei durante uns bons quinze minutos, mas resolvi topar. Era só para falar as tais oito coisas. Na verdade, essas não são as minhas oito. Umas três vá lá. Quais? Ah, escolham aí! E vi que várias pessoas fizeram, a Rachel e a Simone entre elas. Então passo a bola pra Nat, por Catatau — sei não, acho ele sério demais pra topar… — e pro Diego Viana — outro “super cabeça”, será que embarca? Pronto, comigo não tá.]

Anúncios
Esse post foi publicado em Ainda pagãos e marcado . Guardar link permanente.

17 respostas para Oito coisas

  1. Mariana disse:

    AMEI! Vc não apenas encarou a brincadeira como se superou (aliás, nem me surpreendi). E sua interlocutora (real ou imaginária) pontuou super bem… Ela pode tentar fazer a lista também!Beijos!

    Curtir

  2. Ricardo C. disse:

    Foi divertido fazer, Mari, ri sozinho enquanto escrevia, hehehe!Beijão

    Curtir

  3. Monsores, André disse:

    Ricardo,Ótimo.A Rachel me indicou. Preciso fazer.

    Curtir

  4. Ricardo C. disse:

    Eu sei disso, André, caso contrário vc seria um dos meus indicados!

    Curtir

  5. Nat disse:

    Ricardo, vou pensar em algo nesse feriado ;- )

    Curtir

  6. Ricardo C. disse:

    A forma de diálogo não faz parte do meme, Nat, ainda que você seja ótima no assunto. Aguardo um post logo, viu?Bjs

    Curtir

  7. catatau disse:

    Opa, pano pra manga p se pensar!

    Curtir

  8. Nat disse:

    Hummm Ricardo, acho que vai demorar um pouco… Não consigo pensar em oito coisas pra fazer antes de morrer, mas só uma: Viver. ;- )

    Curtir

  9. Diego disse:

    Acabei de ver o convite, Ricardo. Vou pensar em alguma coisa quando voltar a Paris!Arrivederci!

    Curtir

  10. Ricardo C. disse:

    Nat, invente. Foi o que eu fiz, te garanto que aqueles oito lá nào sào as minhas oito, e que mesmo que fossem, certamente mudariam dois dias depois… E ficçào é algo que vc tira de letra, vá…Bjs

    Curtir

  11. Ricardo C. disse:

    Grande Diego, cá entre nós, hoje bem que eu gostaria de poder dizer “quando voltar a Paris”, hehehe!Aguardo, com cores da primavera parisiense!Abraços

    Curtir

  12. Simone Iwasso disse:

    putz, sua lista é um texto criativo, inventivo e que aceita o desafio, sem medo, como vc mesmo coloca, se parecer bobo!eu fui, confesso, puro desejo, e no formato mais simples de se desejar.a brincadeira é divertida, vai?um beijo!

    Curtir

  13. Nat disse:

    Prontinho, Ricardo! Post publicado! ;- )

    Curtir

  14. Ricardo C. disse:

    Simone, pra lá de divertido, gostei muito de inventar essa historinha pra falar das minhas supostas oito coisas!Bjs e volte mais, viu?

    Curtir

  15. Nat disse:

    Ricardo, se você analisar os subentendidos dos outros três itens que não flertam com o sexo, eles também flertarão. Nada mais excitante do que um maracanã lotado, do que ficar doidão vendo Willy Wonka.É porque, como eu te disse, eu só tenho uma resposta: Viver bem. E muitas pessoas conseguem viver razoavelmente quando tem dinheiro e um pouco de bom humor. O que a maioria não consegue é viver sem culpa. Por isso minha resposta foi basicamente a ver com tudo que é culpável internamente… (o post do Flamengo censura a censura ao sadismo, e o post dos filmes censura a censura à alienação psicotrópica tão necessária às vezes…)

    Curtir

  16. Ricardo C. disse:

    Te respondi lá no seu post, mas reproduzo aqui.Teu foco é um só: o prazer sem culpa!

    Curtir

  17. Nat disse:

    Hahahaha Ricardo, também já te respondi lá, mas posso dizer que tudo se resume a ter um amigo psicólogo ;- )

    Curtir

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s