Reveja os seus (pré-)conceitos

Volta e meia ouço conversas sobre o tema da inteligência. Cá entre nós, a conversa não é tão simples assim, já que muitas perguntas se impõem. Pensemos na mais primária: o que significa inteligência? E em outras: trata-se de uma capacidade? São muitas capacidades? É uma propriedade do cérebro do indivíduo? Nasce-se com ela? Pode ser modificada, desenvolvida? Se pode, como fazê-lo? Quem é inteligente? São mesmo perguntas sem fim, difíceis de responder. Que tal vermos algumas questões que lhes dizem respeito?

Da etimologia tiramos que “inteligência” vem da junção das palavras latinas intus (movimento para dentro) + legere (escolher, ler). Ou seja, é por meio da seleção e da escolha que os humanos compreendem as coisas, inclusive as coisas sobre si mesmos.

Dos gregos, encontramos em Sócrates, Platão e Aristóteles as “primeiras tentativas sistemáticas de explorar questões fundamentais relativas à inteligência”. 1 Sócrates, por exemplo, tentou compreender o que o “Oráculo de Delfos” quis dizer com aquela conversa sobre não haver nenhum homem mais sábio do que ele. Para isso, testou o conhecimento de estadistas, poetas, dramaturgos e artesãos, até concluir se de fato seria mais sábio do que eles. Coube também a Sócrates a hipótese de que os indivíduos teriam conhecimento inato, isto é, que nasceriam com capacidades diferentes e que essas diferenças seriam herdadas. E como não lembrar que as escolas estabelecidas por Platão, Aristóteles e outros filósofos gregos davam muita importância a habilidades em lógica, geometria e argumentação? Afinal de contas, essa tradição educacional continua influente nos dias de hoje, não?

Pularei boa parte da história da filosofia no ocidente (Descartes, Locke, Kant), caso contrário este post ficará gigantesco, pousando na história recente do conceito de inteligência. Há algo curioso a ser dito sobre o assunto. Trata-se da proliferação, nos últimos 100 anos, de métodos de testagem, que por sua vez acabaram moldando as definições de inteligência. Sim, foram 100 anos de análise estatística dos resultados em testes de inteligência, resultando na idéia corrente (e totalmente equivocada) de que sair-se bem nesses testes seria de fato um sinal de inteligência. Em resumo: inteligência seria aquilo que os testes de inteligência testam!

Mas deixemos as tautologias de lado e fiquemos com a definição corrente, a mais aceita desde o final do século XIX. Ela diz que a inteligência seria a capacidade de pensar em termos abstratos — e por pensamento abstrato, entenda-se “a capacidade de perceber relacionamentos e padrões, especialmente aqueles não facilmente detectados pelos sentidos”.2 Ainda que esta concepção tenha predominado entre os psicólogos ocidentais, devo dizer que diversos antropólogos e psicólogos que estudam outras culturas observaram, por exemplo, que em diferentes povos da África e de ilhas do Pacífico a noção de inteligência é relacionada sobretudo à capacidade social. É o caso dos habitantes das ilhas Puluwat, na Micronésia, onde aqueles de comportamento moderado e os “diplomáticos” são vistos como mais inteligentes do que os demais. O interessante é que esse povo tem fama de gerar exímios navegadores, deslocando-se cotidianamente entre numerosas ilhas, em barcos de madeira, sem ajuda de mapas escritos ou qualquer instrumento de navegação — baseando-se apenas na observação de aspectos do mar e do céu, “… num sistema de lógica tão complexo que os ocidentais não podem reproduzir sem o uso de instrumentos avançados”. 3 O que nos leva a pensar que aqueles que provavelmente nós consideraríamos como inteligentíssimos, talvez não passassem de figuras medianas para os nativos das ilhas Puluwat…

O que dá para se depreender do exemplo acima? Ora, que há incontáveis variáveis participando da análise do que seja inteligência, variáveis essas nada desprezíveis, boa parte delas ligadas a aspectos culturais. Querem mais algumas? Os valores e crenças. Eles moldam as diferentes visões da inteligência, e o que os norte-americanos e japoneses pensam sobre o assunto dá uma bela medida. Para os primeiros, a inteligência está vinculada a capacidades mentais inatas, isto é, não adianta, há os que nascem inteligentes e há os que não têm essa sorte; já os japoneses e outros povos asiáticos acreditam que o trabalho árduo é o verdadeiro responsável pelo bom desempenho intelectual — e, claro, a falta de trabalho operaria no sentido inverso. Conclusão: não há um conceito de inteligência que seja aceito universalmente. Algumas culturas, por exemplo, valorizam o raciocínio lógico; outras, o poder de persuasão; outras, saber escutar. E mais: a concepção de inteligência varia não só de cultura para cultura, mas até dentro de uma mesma cultura, ou inclusive dentro de uma mesma disciplina. Na psicologia, os psicometristas defendem que a inteligência está vinculada aos pensamentos abstratos, enquanto os psicólogos sociais tendem a vinculá-la a interações, práticas e valores sociais. Na antropologia, uns afirmam que só haveria um único tipo de inteligência humana, expresso diferentemente em diferentes culturas (Ex.: todos os seres humanos classificam objetos em categorias. Os primitivos analfabetos tenderiam a fazê-lo baseados em propriedades sensoriais — aparência — enquanto os ocidentais alfabetizados o fariam a partir de diferenças anatômicas e evolutivas. Os primeiros colocariam golfinhos e tubarões numa mesma categoria; os segundos, em categorias diferentes.). Já outros dizem que o pensamento é específico para cada cultura, e os aspectos universais não passariam de uma ilusão. “Cada cultura proporciona aos seus membros ambientes físicos diferentes, padrões de experiência diferentes e oportunidades diferentes de desenvolver e demonstrar habilidades.”4 Uma terceira perspectiva afirma que culturas com práticas e organização social semelhantes produziriam padrões similares de capacidades intelectuais (ex.: sociedades que valorizam a instrução e oferecem oportunidades universais de escolarização tenderiam a ter visões e padrões semelhantes de inteligência; já sociedades onde se valorizasse a observação da natureza, caçar animais ou obter comida teriam outros padrões de inteligência).

Enfim, antes de sair falando cheio de certezas sobre a inteligência alheia, seja a dos próximos a você ou aos de outras culturas, pense que este post enorme e chato não passa de uma simples vírgula perto de tudo o que se pode falar a respeito da nossa ignorância sobre o tema da inteligência. Reitero: da ignorância de todos nós.

__________

1 GARDNER, Howard et al. Inteligência: múltiplas perspectivas. Porto Alegre: ArtMed, 1998, p. 46.
2
Idem, p. 16.
3 BARATO, Jarbas J. “Em busca de uma didática para o saber técnico”. Boletim Técnico do Senac n. 25(2). Disponível em http://www.senac.br/BTS/252/boltec252d.htm.
4 GARDNER, Howard et al., op. cit., p. 19.

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10 respostas para Reveja os seus (pré-)conceitos

  1. confetti disse:

    esse sorriso é um simples sorriso 😀

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  2. Catatau disse:

    moral da história? a inteligência se define muito mais pelos definidores, do que pelos definidos 😉

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  3. Ricardo C. disse:

    E ce n’est pas une pipe, né Confetti?:-P

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  4. Ricardo C. disse:

    Verdade, Catatau, do mesmo jeito que os pacientes de psicanalistas têm sonhos freudianos, enquanto os de analistas individuais têm sonhos junguianos…:-)

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  5. confeittta disse:

    né nao rc ! mas esse papo cabeça me deu migraine…sou fraquinha de neuroniosss

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  6. Ricardo C. disse:

    Confetti, deixe de ser mentirosa e diga logo algo como “rc, na boa, se vc pensa que vai ter mais visitas com esses mega-posts metidos a intelectuais, pode tirar o cavalinho da chuva. Pior: eu que sou assídua vou ficar com preguiça de aparecer…”😛

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  7. confeguiçççççççaaaa disse:

    “rc, na boa, se vc pensa que vai ter mais visitas com esses mega-posts metidos a intelectuais, pode tirar o cavalinho da chuva. Pior: eu que sou assídua vou ficar com preguiça de aparecer…”kkkkk

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  8. Ricardo C. disse:

    Hehehe!Bjs, esses sem preguiça!

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  9. catataranzinza disse:

    sou suspeito para dizer, mas tem que se postar sobre o que der na veneta, e tanto melhor quanto tiver raciocínio. De senso privado estético já estamos cheios, começando já ao redor…

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  10. confetti disse:

    “l’intelligence affective”….é o que hà….nao se sabe fazer contas, mas se sabe pq faze-las…))

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