Agnosticismo, ateísmo e um gosto pela religião

Começando: sim, considero-me agnóstico. Alguns já sabem disso, e há sinais de minha posição em algum post neste mesmo blog. E não, isso não quer dizer que eu seja ateu. Não se trata da mesma coisa, e também já disse isso noutro canto. A diferença entre os dois é mais do que sutil: o ateu diz que Deus não existe, enquanto o agnóstico afirma que a existência de Deus é inacessível ou incognoscível ao entendimento humano, daí que é inútil perguntar-se sobre ela. Na prática, porém, muitos ateus e agnósticos dão importância semelhante para Deus em seus cotidianos: nenhuma, ou quase isso.

Se a idéia de Deus não participa tanto da minha vida pessoal, não posso negar que sempre me impactou tudo aquilo que a humanidade já fez em nome de Deus, para o bem e para o mal. Está bem, sei que falar em Cruzadas, Guerras Santas e Jihad é assunto mais do que batido. Mas a lembrança do meu espanto diante de um baú de ouro cravejado de brilhantes, num corredor do museu do Vaticano, e de ter lido na plaquinha tratar-se de uma obra que demorou uns bons trinta anos para ser terminada, e ainda por cima que o seu autor a fizera para presenteá-la ao Papa, não me parece um assunto tão batido assim. Imaginem a expectativa de vida da época — não lembro onde vi dados sobre o assunto, mas não devia passar dos 45-50 anos, supondo que a obra fosse do século XV —, e alguém passar quase a vida inteira dedicando-se a uma única tarefa? O que o movia? O mecenato nos moldes renascentistas tampouco creio que fosse explicação suficiente. Esse é apenas um de inúmeros exemplos devocionais que me chamaram a atenção, e não vou ficar aqui relatando-os. O que posso dizer é que me parece inevitável retornar à religiosidade, não?

Escolho, porém, permanecer na esfera do mistério, do “não-saber“, e deixo as explicações redondinhas para quem goste delas. Aproveito, por outro lado, para enveredar no freqüente uso que se faz das explicações ditas religiosas sobre esses mesmos mistérios da vida; e neste caso, do seu mau uso.

Em diversas ocasiões me deparei com discursos religiosos não apenas absolutistas, mas fanáticos. Pouco soube da sua presença nos consultórios de psicólogos, psiquiatras e psicanalistas, mesmo porque o fanatismo não admite dúvida alguma. E se há algo comum entre os que buscam a psicoterapia é o fato de estarem cheios de dúvidas e questionamentos ou, no mínimo, com algumas de suas convicções em frangalhos. Ainda assim, já me aconteceu de algumas pessoas cristãs praticantes me procurarem, e coincidentemente, de fazerem um freqüente uso neurótico da religião. Trata-se de algo extremamente difícil de lidar, pois qualquer intervenção que envolva aspectos religiosos corre o risco de cair na vala comum da “crítica à religiosidade” daquele que veio em busca de ajuda. Esse é o ponto nevrálgico: a neurose que se escora no discurso religioso, ou o discurso religioso escamoteando a neurose, como preferirem.

Foi nesse contexto que conheci uma passagem do evangelho segundo São Mateus, passagem esta que acabou funcionando para questionar algumas daquelas certezas neuróticas travestidas de religiosas. Vou a ela:

[16:24] Então disse Jesus aos seus discípulos: Se alguém quer vir após mim, negue-se a si mesmo, tome a sua cruz, e siga-me;
[16:25] Pois, quem quiser salvar a sua vida perdê-la-á; mas quem perder a sua vida por amor de mim, achá-la-á.

Faço, e não escondo, uma leitura um tanto quanto apócrifa desta passagem em negrito. Tiro dela o “por amor a mim”, isto é, deixo Jesus um pouco a margem dessa história. Resultado:

Quem quiser salvar a sua vida perdê-la-á; mas quem perder a sua vida, achá-la-á.

“Eis o mistério da fé”, diz-se nas missas, logo após a consagração do pão e do vinho, agora corpo e sangue de Cristo. Diria que sim, um mistério que envolve paradoxos, dúvidas, questionamentos, todos fazendo parte da vida. E nesse sentido cabe dizer, sem nenhuma ofensa à religiosidade de ninguém, que aquele que chama de fé o que em verdade não passa de temor frente ao desconhecido, apegando-se a discursos religiosos instituídos na esperança de escapar dele, perderá sua vida não uma, mas duas vezes. A segunda, quando o evento físico da morte efetivamente ocorrer. E a primeira, quando tentar salvar sua vida ao reproduzir uma fala que não é a sua, vivendo uma vida que não lhe cabe e deixando de viver a sua própria vida, seja lá o que isso for. E ainda nessa toada, reproduzo a parábola que ouvi certa vez e que nunca mais saiu da minha cabeça:

Perguntaram a um místico sobre aquilo de que seríamos cobrados logo após a nossa morte. Para surpresa de quem perguntou, ele respondeu: você não será cobrado sobre o quão próximo de Cristo você foi, mas sim sobre o quão próximo de si mesmo você viveu.

E agora, ao trabalho.

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18 respostas para Agnosticismo, ateísmo e um gosto pela religião

  1. Olga disse:

    Ricardo, concordo com vc em gênero, número e grau. O problema não é a religião em si, mas os fiéis, que não conseguem entender que ateus e agnósticos dão a mesma importância à crença que o Nelson Freire dá à Banda Calypso.

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  2. Ricardo C. disse:

    Adorei a comparação, Olga, hehehe!

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  3. Nat disse:

    Assim como a Olga, concordo plenamente. Muito bem dito! Bjs.

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  4. Ricardo C. disse:

    Obrigado, Nat, bom ler isso vido de vc, viu?Bjs

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  5. Nat disse:

    Ah, respondi aos dois no outro post também.

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  6. meandros disse:

    Não lembro de onde li isso, mas ser ateu dá muito mais trabalho do que ser agnóstico. Porque o ateu é convicto e, numa perspectiva da moda do Dawnkings, deve ser também militante. Enquanto que o agnóstico fica em sua confortável dúvida.Se bem que há muito ateu não-praticante por aí.

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  7. Ricardo C. disse:

    Meandros, não posso deixar de concordar. Só não gosto da freqüente acusação de que o agnóstico é um ateu em cima do muro, como se não tivesse coragem de dizer aos quatro ventos que é ateu. Isso me irrita profundamente!Abs

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  8. Anonymous disse:

    Olá, RicardoDei uma passada, ainda incompleta, no conteúdo da tua Ágora. Ela irradia uma suave simpatia, sem dúvida.Resolvi deixar neste post, do qual gostei especialmente, um vestígio da minha visita.A passagem do evangelho de Mateus que você cita me faz lembrar do místico/poeta Kabir, indiano do séc.XV, amado por muçulmanos, hinduístas e sikhs, quando ele diz: I’ve burned my own house down,the torch is in my hand.Now I’ll burn down the house of anyonewho wants to follow me. Outra que gosto: hiding in this cageof visible matteris the invisiblelifebirdpay attentionto hershe is singingyour song Estes e muitos outros poemas, mais ou menos iluminados, podem ser encontrados no site do Ivan Granger, poetry-chaikhana.comBom trabalho, vê-se o prazer que ele te dá. Espero a continuação do ‘Crença, Fé e Experiência Religiosa’.Roberto

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  9. Ricardo C. disse:

    Roberto, apreciei demais o seu comentário. Não conhecia o poeta Kabir, e vc foi feliz ao colocá-lo junto ao trecho do evangelho de Mateus.Quanto à continuação daquele post, sairá, não se preocupe.Abraços,RicardoP.S. Nos conhecemos?

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  10. Anonymous disse:

    Me desculpe, Ricardo, por não ter deixado isso claro, mas acho que não nos conhecemos. Li seus comentários naquele mar de ressaca que é o PD, segui o link de um deles e vim dar neste seu estuário sossegado.Pelo que entendi você trabalha com o assunto psi. E tem esse “gosto pela religião”. Na cartografia freudiana, a religião começa onde a psicanálise acaba, ou não? Mas há sempre outros mapas, no da psicologia transpessoal, p.ex., essas fronteiras não são reconhecidas, não é mesmo? Gosto do Stan Grof. Estou traduzindo um livro em que há um capítulo inteiro dedicado a ele – “O mergulho abissal do psiquiatra xamã”. Um título meio flamboyant, mas o livro é excelente.Meu envolvimento com a psi foram uns bons anos de análise (não fui um bom paciente) que enxotaram os fantasmas que assombravam minha juventude. Sou grato àquele cara, e aos gurus dele. Meus anos 20 poderiam não ter terminado nada bem.Felicidades!Roberto

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  11. Ricardo C. disse:

    Roberto, sim, interesso-me pela religiosidade humana, e a minha própria pessoa não está fora da fórmula observador-observado, que é pouco acertada, se for levar em consideração o meu olhar fenomenológico-existencial para as coisas…E o Wilber, de onde tirei o tal raciocínio dos posts que estou escrevendo, também foi associado à psicologia transpessoal, ainda que tenha se afastado dela, segundo li nas wikipedias da vida. Mas não importa, tanto ele quanto o Grof e outros mais seguem sendo pensadores bastante interessantes. E te recomendo alguém bastante bacana: Stanley Krippner. Tem um verbete dele na wikipedia tb: http://en.wikipedia.org/wiki/Stanley_KrippnerAbs

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  12. Anonymous disse:

    É, Ricardo, essa fórmula observador/observado ficou meio complicada depois da mecânica quântica, né? Mas, quando puder, fale um pouco mais do seu olhar fenomenológico-existencial, se não for pedir demais.Bom saber da associação do Wilber com a transpessoal, reforçou minha simpatia poe ele.Fui na wiki checar o Krippner mas não pude abrir os links, não tive tempo. Voltarei lá com certeza, e obrigado pelo toque.Bem, vamos parar com essa esquizofrenia de ficar em 2 posts? Mea culpa, claro, mas sugiro, e imagino que você prefira, concentrarmos lá.Até maisRoberto

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  13. Pingback: Crença, fé e experiência religiosa (1): a psicodinâmica da crença | Ágora com dazibao no meio

  14. Teresa Santos disse:

    Ricardo, Jesus está simplismente querendo dizer neste versículo que quem morrer por amor a Ele terá a vida eterna e estará prá sempre com Deus, mas, quem amar mais a sua vida do que Jesus estará perdido.

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  15. Ricardo C. disse:

    Cara Teresa, entendi o versículo nessa acepção, creia, apenas fiz o que chamei (com algum humor) uma leitura apócrifa, para destacar a questão da autenticidade, da boa fé.

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  16. Zula disse:

    Ricardo , este versículo diz respeito ao sofrimento causado pelo próprio egoísmo. Pois todos temos frustrações e quando sofremos demasiadamente com estas frustrações significa que não estamos dando um espaço para Deus , que é luz , esperança e alegria.
    Então significa , não levar tão a sério os problemas e ter fé em algo superior.Esta frasejá me ajudou MUUUito a enfrentar dificuldades e superá-las .Eu a considero uma das mais importantes do nosso manual de instruções.

    Um abraço!!!

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  17. Pingback: Ricardo Cabral

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