9 respostas para Conversando lá e cá

  1. Catatau disse:

    Jóia, Ricardo! Muito bom o jogo das citações. Mas você chama a atenção a algo que fica faltando um pequeno pedaço: falta chamar a atenção ao caráter negativo que as citações evocam. Tanto na atitude de Sennet, quanto na de Veyne, está em jogo a crítica dessa generalização do privado e do egoísta na vida pública. Em suma, nos termos que estamos conversando, as citações mostram que “egolatria” é deplorável, e não é o fim da humanidade. E o centro disso está em “Quando um indivíduo é atingido assim na própria idéia que faz de si próprio, pode dizer-se que a sua relação com o poder público é a mesma que estabeleceria com outro indivíduo que o tivesse humilhado ou, pelo contrário, que houvesse lisonjeado o seu orgulho.”A resolução disso – o Costa aponta para o esquecimento da ética antiga – figura precisamente em considerar a divisão entre privado e público, entre a natureza dos afetos e o mundo público. O “burguês” privatiza o mundo público (enquanto o cidadão grego execrava quem se alienava no privado): nesse sentido o anula, e a presença do outro se torna mero meio para fins privados, biológicos, animais. É óbvio que nessa perspectiva nunca se anula o outro pelo bem da “verdade”, mas apenas pelo estômago. O que se desdobra em outras duas questões: uma, a de que tentar restituir o debate para o “bem da verdade”, apenas mostra que essa pretensa verdade não há, e que o acusador ocupa sim um lugar. Mas esse lugar que o acusador ocupa nem sempre é uma nova recolocação do privado. Pode ser que a tentativa de renivelar o diálogo, destituindo a autoria para seduzir pela idéia, tenha algo bem semelhante à tentativa de reabilitar o Outro, e de reacender o debate público. Ora, isso nunca foi destituído de boas firulas sofísticas. Mas a questão é a da sedução pela idéia, não pela posição (no caso, de autoridade): muito mais um Aquiles, muito menos um afeminado como Páris.

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  2. Catatau disse:

    Em outras palavras: viva os apreciadores do hipertexto em sentido pleno, que tudo fazem para que o hipertexto não deixe de ser hipertexto. Ora, no fim das contas são pessoas agindo, mas tem algo mais em jogo que seus estômagos…

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  3. Catatau disse:

    … e cristalizar a autoria como autoridade, no sentido em que conversamos, é impor o estômago por cima das palavras

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  4. confetti disse:

    ah que delicia esse debate ! morro de inveja de nao ter essa clareza de expressao de vcs…

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  5. Ricardo C. disse:

    Meu caro amigo Catatau, passo rapidinho só pra dizer que terei que ler com atenção os seus comentários antes de me aventurar na resposta, mas estou só de passagem, não sei se ainda hoje dará para responder. De qualquer modo, desenvolvamos mais esse papo, que dá pano pra manga!

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  6. Ricardo C. disse:

    Confetti, isso não é verdade. Não te falta clareza, nunca me pareceu!

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  7. Ricardo C. disse:

    Catatau, pelo fato de ter citado o Jurandir Freire, posso ter dado a entender que haveria um “certo”, localizado no passado, e que a retificação do que se encontra errado deveria ser buscada na Grécia de 2500 anos atrás. De fato, alguns comentadores consideram que a maneira como o Jurandir formula as coisas tem mesmo esse viés. Nesse sentido, o que vc apontou como caráter negativo até se aplica, mas creio sobretudo que à segunda citação, não tanto à primeira. Da minha parte, o que o Veyne disse serve mais como uma explicação das forças em jogo, apontando que não são só os mecanismos econômicos e os de partilha de poder que definem o jogo, mas tb a imagem que o sujeito faz de si na sua relação com o Estado e a sociedade, com tal relação interferindo diretamente no julgamento deste mesmo sujeito. Vandalizando um pouco as idéias expostas por Veyne, trata-se de um mecanismo fortemente especular, ou seja, é mesmo pelas identificações que funcionamos mais comumente, e a valorização do psicológico — tal como é dito pelo Sennett — não facilitou muito as coisas na hora de “ampliar o nosso olhar”…Num outro post, Tempo, pressa ou a obesidade dos neurônios, mostro um pouco do meu lado retificador, quase nostálgico na minha crítica ao contexto atual. E tenho mesmo andado meio cansado, é fato. Mas se tomar as minhas críticas mais como diagnósticos do que como posições do gênero “ai que saudade da aurora da minha vida”, dá para avançar daí, sem necessariamente retroceder.Bom, já falei muito, devolvo a bola para você.

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  8. Catatau disse:

    Salve!Opa, não mencionei um “retorno” à Grécia. Não sou leitor do Costa, mas penso que ele não recairia no erro de pregar algo como um retorno. A antiguidade não serve como modelo a ser copiado, mas como uma espécie de contraponto em relação a pretensões que são bem nossas (como cidadania, e afins). Existe um caráter de ensinamento que não é bem o de retorno. Mas não é esse o ponto; o ponto é precisamente que, do modo como vc orquestrou as coisas, o momento negativo da argumentação é a privatização do público. Nisso os 3 autores se encontram. E privatizar o público – ou alçar o privado como público, o contingente como necessário, o singular como universal – é simplesmente achatar o homem no nivel do egoísmo, e da animalidade. É o nível ‘psicológico’, como vc expôs: o que comanda as coisas passam a ser os gostos, os caprichos, as necessidades e paixões, enfim as determinações ou contextos que circundam um indivíduo, tomado em nível biológico. É aí que a escrita, como projeção do privado no público, deixa de ser troca para se tornar autoridade. Apenas querelas de gosto, e nada que se aproxime de um bom pluralismo. Ora, o fundo do assunto é esse: transformar autoria em autoridade carrega os significados do egoísmo (enquanto projeção do privado no público); prezar pela sedução a partir da idéia é medir as idéias pelas idéias, expô-las em praça pública, e enfim se colocar no jogo com os outros. Na projeção privada o jogo não existe; já está subsumido pela autoridade. Mas quando se passa à idéia, os diferentes autores jogam, sempre secundários em relação à idéia. Não é a boa idéia resultado de um autor, mas é o bom autor o resultado de uma boa idéia 😉

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  9. Ricardo C. disse:

    Pois do que gosto dessa conversa com vc é não apenas da busca do entendimento, do exercício da compreensão, mas da ampliação do conhecimento através do diálogo, e não da mera concordância que encerra o papo com aqueles indefectíveis “é por aí”… E o prazer intelectual, neste caso, vem como brinde, não como foco, pois seria cair em mais uma versão da armadilha em que vemos cada sujeito nesta blogosfera tão narcisa.Junto-me ao teu time na defesa do hipertexto, das “idéias fazendo os autores” — e pouco importando se são feios ou bonitos, de direita ou de esquerda. Importa mesmo é que sejam idéias que se deixem discutir, sem apelos à autoridade.

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