Requentando posts

Segunda-feira, 17 de outubro de 2005.

A escrita exige de mim respeito.
(Ou como Milton Hatoum falou de Onetti,
sem citar seu nome, domingo pela manhã)

Carta Capital: E qual é o papel do romance?

Milton Hatoum: De alguma forma, a narrativa romanesca, que vem da tradição do século XIX, é a história da busca de um desejo que não se completa. Essa é a história do romance. É a história de um fracasso e a tentativa de compreensão desse fracasso. O escritor fala do fracasso do ser humano diante do mundo, que é a história do indivíduo na época burguesa, em que não existe mais o senso do coletivo. Então é o drama do indivíduo numa sociedade em que o indivíduo não existe mais, onde tudo é dispersivo.

Carta Capital: Mas, paradoxalmente, vivemos o tempo dos livros edificantes, otimistas.

Milton Hatoum: Aí é auto-ajuda. O Borges dizia que a felicidade nos é dada de graça em alguns momentos da vida, mas o romance trata, sobretudo, da infelicidade. Mas o desamparo das pessoas é tão grande que elas recorrem a um retorno enlouquecido à religião. Há um excesso de tudo. Até de preces. Há um retorno à religião, ao dogma, à auto-ajuda, que é uma receita de bem-viver, de se dar bem, de fazer sucesso. A literatura é o avesso disso tudo. No fundo, o nosso dia-a-dia não é nem céu nem inferno, é o purgatório. Eu acho que o melhor romance é o que reinventa esse purgatório, que expressa com conhecimento de causa e convicção esse pequeno purgatório do cotidiano em que vivemos.

[Trecho final de uma entrevista com Milton Hatoum, na revista Carta Capital (no 364).]

* * * * *


‘Ofegante e brilhoso, de pernas abertas sobre as emendas do vagão no desvio de Enduro, Junta caminhou pelo corredor para se reunir ao grupo de três mulheres alguns quilômetros antes da chegada do trem a Santa Maria. Sorriu, animador, para as caras inchadas pelo tédio, coradas de calor, bocejos e comentários. O verde dos campos próximos ao rio trazia um tênue frescor às janelinhas empoeiradas.

“Assim que eu contar a elas que estamos chegando vão começar a conversar, a pintar-se, lembram do seu ofício, estão ficando mais feias e velhas, fazem cara de mocinha, baixam os olhos para examinar as mãos. São três e não demorei quinze dias. Barthé tem mais do que merece, ele e toda a cidade, embora riam ao vê-las e continuem rindo durante dias ou semanas. Já não têm quinze anos e estão vestidas de jeito a esfriar o ânimo de um fauno. Mas são gente, são boas, são alegres e sabem trabalhar.”

Está faltando pouco — resignou-se a dizer com entusiasmo; bateu no joelho de Maria Bonita e sorriu para as outras duas, para o rosto infantil, redondo, de Irene e para as sobrancelhas amarelas de Nelly, muito altas, retas, desenhadas a cada manhã para coincidir com o desinteresse, a imbecilidade, o nada que podiam oferecer seus olhos.’


[ONETTI, Juan Carlos. Junta-Cadáveres. Tradução Luis Reyes Gil. São Paulo: Editora Planeta do Brasil, 2005, pp. 20-21]

* * * * *

Meu domingo começou com a entrevista do Milton Hatoum. (Bom, começou mais cedo, mas escolhi dizer que foi ali e pronto.) E logo depois dessa leitura, deparar-me com outro começo, o de Junta-Cadáveres, foi quase mortal (só vi o trocadilho depois, desculpem). Parecia que, de alguma forma meio mágica, os dois quiseram falar comigo. Resolvi então destacar alguns trechos dos dois, grifando partes desses trechos. Do Hatoum, no que ele ressoa em meus ouvidos, sobre o romance, o romancista e o ser humano que está dos dois lados da escrita: lendo e sendo lido. Do Onetti, grifei a frase onde parei de ler. Nesse começo, quem fala é Larsen, “colecionador de putas pobres”, como diz a orelha do livro, daí a alcunha de Junta-Cadáveres, na chegada a Santa Maria com Maria Bonita, Irene e Nelly para fundar o “prostíbulo ideal”.

Não cheguei nem ao meio da segunda página do livro, eu sei, mas não pretendia lê-lo agora, já que há outros em andamento. Foi só uma folheada, mas que já me assustou. Assim, na frase grifada, lida em voz alta num café, domingo pela manhã, palavras de uma crueza que socaram meus olhos, fui obrigado a me deter. Como ele pôde, numa frase como aquela, descrever tanto? Como pôde, ontem, também ser a mais fiel descrição do que o Milton Hatoum dissera para mim, e só para mim, minutos antes?

De Hatoum ainda não li nada, mas já me animei. Já Onetti, sabia exigir algum preparo, mas me distraí. Não, não falo de preparo intelectual, mas emocional. E ando meio fora de forma, com uns quilinhos sobrando.

[Adendo: Já li o Junta-Cadáveres faz tempo. Pena que os dois livros do Hatoum que tenho continuem esperando na fila, que tem andado muito devagar…]

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5 respostas para Requentando posts

  1. confetti disse:

    in-te-lec-tu-al !! chega doer os zoios…)

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  2. Ricardo C. disse:

    Sacana que dói, você, Confetti!!!Mas vai dizer que aquela história do purgatório não é interessante?E vai dizer que o grifo do que o Junta pensa, aquela parte final, não é a cara do Josef Mario?

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  3. confetti disse:

    interessantissimo ricardo ! nao tava sacaneando…mas nao tenho neuronio desocupado essa manha pra entender direito….fiquei no estilo…otimo

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  4. Ricardo C. disse:

    É a tirania da intimidade, Confetti. Já tomei como tirada sacana tua, sempre espero o teu bom-humor pela manhã, hehehe!Beijos e bonne journée

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  5. confetti disse:

    tirania da intimidade, é meu, vou usar !!! ah que inveja, queria ter “achado” isso…))

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