Mea culpa, mea culpa, mea minima culpa…

Enquanto escutava Winning a Battle, Losing the War, do duo norueguês Kings of Convenience, não por acaso a minha mente passeou por uma imagem que anda teimando em se fazer notar: que tipo de sujeito que valoriza as (e respeita e se interessa pelas) diferenças sou?

[Preciso desenvolver um pouco mais o raciocínio antes de soltar este post. Enquanto isso, vou escrevendo, vejamos onde isto vai dar.]

Bom, dizia o que mesmo? Ah, sobre qual a minha atitude frente aos outros, aos diferentes de mim. Certo, concordo que ainda é muito vago… Então tentarei ser mais específico: qual a minha maneira de avaliar as atitudes, os posicionamentos ético-morais e as falas, entre outras coisas, daqueles com os quais não me identifico — só para começar — ou que transitam por mundos/culturas/tribos distantes daqueles por onde eu transito?

[Compliquei ainda mais, não é? O meu poder de síntese, que já não costuma ser dos melhores, há de estar de ressaca… Vamos lá, uma última tentativa.]

Acontece que de uns tempos para cá tenho lido diversos blogs, muitos deles de acentuado conteúdo político. E para sustentar o que considero uma atitude necessária para “oxigenar” minhas opiniões sobre seja lá o que for, tenho lido justamente alguns posts que andam, diria, na contramão daquilo que penso sobre o que deva ser a vida em sociedade e o que entendo por civilidade, por exemplo, sem esquecer daquilo que considero universal e atemporal. E mais, textos que criticam o que é distinto, diferente, atribuindo-lhe defeitos, falhas e traços de barbárie, justamente por negligenciarem a possibilidade de se tratar de questões peculiares, locais, referentes a grupos ou culturas específicas, e incorrendo no erro de julgar como atemporal aquilo que em verdade seria próprio de um determinado momento histórico. (Aliás, já estou abusando. Escrevi sobre algo parecido recentemente…)

[Pronto, comecei indagando a mim mesmo sobre uma questão, depois floreei sobre aspectos que já discuti noutro post. O que falta? Ah, uma tentativa de resposta. Será que agora vai?]

Beleza, com isso firmei uma posição: a de mostrar o meu empenho em investigar o maior número possível de opiniões sobre temas de cunho político (e de outros tipos também, devo ressaltar), tentando com isso, por um lado, valorizar o saber, e por outro, neutralizar crenças com pendor ao dogma…

[A estratégia não é de todo má, não é? Posar de equilibrado, razoavelmente humilde, de quem mantém a escuta aberta a opiniões que discordem da sua. Ao menos não posso ser acusado de incoerente, não até o presente momento. Mas não terminei, falta pouco.]

Vestido com trajes de analista maduro, ao mesmo tempo humilde por reconhecer-se também parcial, tão somente “um ponto de vista no mundo”, e também dono de um espírito que mesclaria curiosidade quase científica e respeito pelo diferente, sinto-me à vontade para (e plenamente autorizado a) fazer as minhas ponderações sobre os ditos, feitos e escritos dos outros, com especial atenção aos daqueles de quem discordo. Só que há uma armadilha nisso. No fundo não deixa de existir uma espécie de convicção de ter a melhor atitude frente ao mundo, a mais sensata, apenas por (parecer) estar disponível ao tal diálogo, mesmo com aqueles de quem se discorda. Daí um exemplo me vêem à mente. Imaginem a cena:

Uma criança que discute com adultos, de preferência parentes, argumentando com bastante propriedade sobre um tema qualquer. Em resposta, os adultos comentam: “Que bonitinho, olha só como ele fala feito gente grande!”

No tal fundo, é raro deixar de existir nem que seja um naco de etnocentrismo, daquele de quem se vê como um desses adultos olhando para os outros como se não passassem de crianças bonitinhas falando como adultas, mas reiterando que ainda não são adultas — e com tal atitude, simplesmente negando-lhes o direito à voz —; ou então como aqueles membros da Real Academia Geográfica Britânica, no fim do século XIX, classificando várias culturas fora da Europa como “primitivas” — o darwinismo social andava(?!) na moda —, já que a Europa da época seria, “obviamente”, o ápice da civilização…

Tsc tsc tsc…

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9 respostas para Mea culpa, mea culpa, mea minima culpa…

  1. Pax disse:

    Caamba, poder de síntese é isso. Deu mais volta que bolacha em boca de velho.Mas, vamos lá. Lendo o volteio, me lembrei do velho e bom Chesterton, com quem já tive disputas ferrenhas e troquei ofensas tamanhas (acho que mais ganhei que ofereci, mas tudo bem). Depois de alguns anos passei a gostar dos contra-pontos. Exatamente por serem contra os meu pontos de vista. Uma boa parte, quase totalidade. E vindo de alguém inteligente.Enfim, pra não repetir o novelo, é ótimo ter opiniões e posições contrárias, senão perde não só a graça, mas a capacidade de ratificar ou retificar seus pontos.Mas este óbvio ulula, portanto, arrume-me uma opinião contrária.

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  2. Pax disse:

    O melhor dos mundos é quando você consegue mudar de opinião. É um excelente sinal.

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  3. Ricardo C. disse:

    Sim, caro Pax, contrapontos são mesmo importantes, não tenho dúvida. O problema é quando sutilmente (e consciente ou inconscientemente, tanto faz) nos colocamos na posição de mais sábios e, magnanimamente, damos a palavra ao nosso oponente, como quem faz uma caridade… E tudo envolto em uma aura de “busca da sabedoria”!Como o ser humano é pretensioso, não?

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  4. Monsores, André disse:

    Ricardo,Boa tarde. Não li o post, mas já sei pelo menos que a trilha sonora foi boa.Irei retornar para ler com calma.Pax, Ajax Pax, saudade de você, porra.

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  5. confetti disse:

    ricardo, faço meus os comentarios de pax !!voces aceitam vir jantar la em casa hj à noite ? conversaremos sobre a sintese e a hipotese, sobre o ser ou nao ser ….vou me esmerar na encomenda de tudo que gostem…nao precisam trazer roupa de cama, nem escovas de dente !! queridos amigos !! ))

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  6. confetti disse:

    andré, esta convidado tbm, claro !!

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  7. Monsores, André disse:

    confetti, querida. De você aceito qualquer convite. Seria ótimo mesmo!

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  8. Guilevy disse:

    Bem, Ricardo, depende do assunto, ou melhor, do objeto do assunto, né não?Algumas coisas introjectamos de tal forma que passam a ser óbvias, daí é um passo para essa postura meio “arrogante”. Empatia com o contraditório é difícil, para não dizer impossível.O importante é o ponto que você colocou, estar sempre propenso a mudar de idéia, por mais que vá contra tudo que lhe é mais caro.

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  9. Ricardo C. disse:

    Guilherme, sempre me lembro de um provérbio persa (ou chinês, não lembro, hehehe!), que diz mais ou menos assim:”Enquanto não aceitar que o outro pense diferente de você, você estará muito longe do verdadeiro caminho da sabedoria”…

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