Quero a minha alienação de volta

Há um livro novo na praça — se bem que, depois de três semanas, o que é novo? —, “Quem Pagou a Conta?”, da jornalista britânica Frances Stonor Saunders. Trata-se da investigação a respeito de um projeto da CIA de propaganda cultural pela Europa, nos anos da Guerra Fria. Li uma matéria sobre ele, assinada por Ana Paula Sousa, dizendo que o propósito do livro “… é mostrar que, até hoje, a cultura consumida pelo Ocidente é, em parte, aquela que um dia a CIA chancelou”. E aqui o sentido da palavra “cultura” é amplo, indo do cinema à literatura, das artes plásticas à música, passando até por ensaios filosóficos sobre o tema.

[Uma das curiosidades sobre as resenhas que li até agora diz respeito aos nomes que cada resenhista escolheu destacar. Uns optaram por Isaiah Berlin, outros por Hannah Arendt, e todos mencionaram o Jackson Pollock… A outra foi o maior ou menor tom de anti-intelectualismo nelas, caracterizando-se seja numa crítica pontual às atitudes de muitos intelectuais — que iria da ingenuidade à má-fé —, seja numa espécie de desprezo generalizado pelo papel dos intelectuais na sociedade. Deixo em aberto o que isso possa querer dizer, não é o centro das minhas atenções.]

Sobre livros, sei que há realmente muito o que ler, e cada um que estabeleça as suas prioridades. Em todo caso, este que acabei de mencionar não faz parte das minhas, ao menos não agora. Dito isso, talvez vocês perguntem: “então por que você resolveu falar nele?”1 Bom, respondo dizendo que há tempos, uma parte das minhas inquietações é justamente em que bases se daria a construção do gosto pessoal, do próprio senso estético, do apuro cultural de cada um. (E mais, indagaria até sobre as bases dos valores morais e princípios éticos que cada um carrega dentro de si, mas isso eu deixo para outra ocasião.) Acrescento que não adianta insistir: por mais que alguns pretendam destacar o quanto o aspecto individual é o que conta, não dá para simplesmente descartar o que há de construção social nesse processo. E nesse sentido, identificar todo um projeto político-ideológico que incidiu sobre o meu (e o seu) gosto estético, sobre aquilo que me, ou melhor, nos é caro em termos de cultura, sofreu influência de decisões de Estado tomadas há mais de 50 anos! Pois bem, foi no meio desse processo que encontrei numa livraria, entre um compromisso e outro, o livro A Distinção: crítica social do julgamento“, 2 de Pierre Bourdieu 3 — o original em francês é de 1979 —, trata justamente dos julgamentos de gostos e de preferências — que feliz coincidência para mim! —, partindo da idéia de que as pessoas emitiriam julgamentos de valor do gênero “detesto funk!” não propriamente por refletir a estrutura social em que vivem, mas como um meio de afirmar ou de confirmar sua vinculação a essa estrutura, diferenciando-se assim de quem estaria numa posição hierarquicamente inferior. Dessa forma, o mais esquizofrênico disso tudo é perceber que alguma parte do que suponho ser meu próprio gosto a respeito de música, literatura, artes plásticas e mesmo ciência política possa ter sido construída pelo trio formado por “Michael Josselson, comerciante judeu nascido na Estônia, o músico Nicolas Nabokov, irmão do escritor, e Melvin Lasky, militante político” (Ana Paula Sousa, op. cit.). E que, se o Bourdieu está mesmo certo, investi tempo e dinheiro — sim, já que livros, cinema, teatro e museus de arte moderna não costumam ser gratuitos — em conversas, posts, eventos, viagens e até mesmo cantadas (a maioria não funcionou), boa parte apenas para reafirmar um determinado tipo de vinculação social… Um crime, não?

Beleza, coloquei um monte de coisa pouco sedutora de se ler num blog, ainda por cima num blog que se pretende a minha “área de lazer”. Sinto muito, alguém tinha que dividir essa conta comigo, ora bolas!

P.S. Mas a leitura do calhamaço do Bourdieu ficará por minha conta, e na melhor (ou pior) das hipóteses, aparecerá indiretamente em algumas das minhas pretensões, digo, reflexões futuras…
_______________

1 Esse recurso é super canastrão, não é? Ponho frases “no teclado ” de gente que nem conheço, apenas para servir de “escada” para o que seria as minhas próprias idéias… Tsc tsc tsc!
2 São Paulo: Edusp; Porto Alegre, RS: Zouk, 2007.
3 Para quem nunca ouviu falar de Pierre Bourdieu, vale uma passada no verbete sobre ele na Wikipédia. E para quem gosta de um deboche, a Desciclopédia tem a sua própria versão

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25 respostas para Quero a minha alienação de volta

  1. Guilevy disse:

    É, Ricardo, um tema árido. Pessoalmente penso que as “lentes” ética e estética com que vemos o mundo são formadas a primeira principalmente na infância e a segunda na adolescência. Clichê?Claro que muitas vezes elas se sobrepõem, talvez todas, sei lá. Mas a infância é fortemente marcada pela influência e atitudes dos pais, com reflexos na personalidade etc…A adolescência é marcada por tribos, as quais determinam a estética desejável etc…Se passamos toda a adolescência em uma só tribo é óbvio que a nossa estética será a dela para toda a vida. Limitada portanto.Completando, acho que um mínimo de conhecimento da técnica e de cultura geral são imprescindíveis para o apuro estético. Sem esse mínimo é práticamente certo não saber porque um Picasso vale milhares de vezes mais do que um da minha sogra (hehe).Além do que esse conhecimento serve como um “filtro” para as “lentes”. Não é censura ou preconceito, mas as cores mudam, nénão?

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  2. Rê Piza disse:

    Tema pra se sentar com um barril de chopp ao lado, sem hora pra ir embora. Mas assim, de bate-pronto, arrisco discordar de Bordieu. Me veio a seguinte idéia: gostos mais rasos, efêmeros_modinhas, digamos_podem ser fruto dessa vontade de diferenciar-se. Mas nossas inclinações mais profundas, aqueles gostos que parecem vir da alma, estes não creio que tenham como base a vinculação/diferenciação.Quanto ao blog, não acho nada chato. Muito pelo contrário, gosto demás!! Viajo por aqui.:D

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  3. Ricardo C. disse:

    Guilherme, sim, faz sentido, é uma leitura algo psicanalítica — tenho lá as minhas pinimbas com a psicanálise, reconheço —, mas correta. E se vc falou no processo, acabou não tocando no conteúdo, que no caso deste post, fala sobre um apuro moldado ideologicamente… Essa é a parte que me incomodou mais no dia em que lia as resenhas do “Quem pagou a conta?”…!

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  4. Ricardo C. disse:

    , então agora vou discordar de vc. ;-)Tem um cara interessante, já meio datado, chamado Milton Rokeach, que fala sobre crenças, atitudes e valores, que de certa forma combina com o que vc diz. Para ele, as crenças estariam mais na superfície, as atitudes seriam intermediárias e os valores seriam mais centrais, e bem mais difíceis de mudar.Só que esses valores não nascem com a gente. Eles tb são construídos socialmente, ainda que depois se tornem muito difíceis de mudar, dando justamente a sensação oposta, a de que são nossos desde que nascemos!E que bom que vc viaja por aqui. Tomo isso como um elogio, viu?Bjs

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  5. Nat disse:

    Totalmente off topic: Ricardinho, tu tá com a bola toda!!!!

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  6. Ricardo C. disse:

    Ué, por que?

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  7. Nat disse:

    Acho que eu ouvi seu nome ser pronunciado hoje umas cinco vezes. Geralmente acompanhado do Caraca, bem que o Ricardo disse hehehehehe

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  8. Nat disse:

    Ainda teve outra coisa que ouvi de você, mas achei o comentário tão interessante que vou escrever algo sobre. Você vai ler.

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  9. Nat disse:

    Quanto ao Bourdieu, gosto da idéia de preferência baseada em vínculo social, de gosto pessoal na balança com o que o status exige que se tenha. Mas é difícil ignorar aquilo que se sente quando a arte toca. (Confesso que de vez em quando eu me sinto acuada pra dizer que gosto de Fagner e que não sacudo as cadeiras ao som do funk, mas ainda digo!) (E não, não vou colocar o Oswaldo Montenegro nesta lista).Voltando ao Bourdieu, fico feliz que o calhamaço dele fique por sua conta. É exatamente pra isso que entramos nos blogs dos outros, pra ler coisas digeridas, e decidir comer o resto ou pedir um novo prato.

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  10. Nat disse:

    Opa, eu quis dizer …que gosto de Fagner e que sacudo as cadeiras ao som do funk.

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  11. confetti disse:

    alienaçao ? ah nao vou comentar nao…)

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  12. confetti disse:

    pierre bourdieu é uma dadiva na vida da pessoa…..da nexo a varias coisas que a gente nao realiza a importancia…(se o ministro da cultura brasileiro fala assim, pq nao posso falar tbm ?)

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  13. Diego disse:

    Ricardo, já que você não se interessa pelo tema, vou indicar um livro pra você não ler (hehehe): A invenção das tradições, do Hobsbawm. Acho que no Brasil foi lançado pela Paz e Terra. Se você fosse ler, poderia gostar!

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  14. Ricardo C. disse:

    Hobsbawm? Putz, mais um calhamaço, Diego, e já tenho tanta coisa pra ler! Maldade sua, agora tenho que comprar…Te detesto por essa dica, hehehe!

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  15. Ricardo C. disse:

    Confetti, você sim é uma dádiva na vida de uma pessoa, e o nexo que você me dá faz de mim uma sincretude cheia de vitalidade, ou não… (Baianei direitinho?)

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  16. Ricardo C. disse:

    Nat, ainda bem que deixou o Oswaldo de fora, e o Fagner até dá pra suportar… ;-P

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  17. Monsores, André disse:

    Ricardo,Não vou comentar esse post. Todo comentário que escrevi até agora foi altamente preconceituoso.Acho que me enquadro nas pessoas que pensam que quem gosta de funk está numa posição hierarquicamente inferior. Se bem que acho que isso não tem muito a ver com hierarquia. Eu diria intelectualmente inferior.Viu o preconceito de novo? Pois é.Quanto ao outro aspecto do post, vou fazer assim, irei ler o livro e depois faço um post lá no meu blog sobre ele. A leitura não me interessa também, mas imaginar que meu gosto foi todo definido por outras pessoas me assusta um pouco.

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  18. Ricardo C. disse:

    Pois lerei com prazer, caro André, e espero ser um dos primeiros da fila!

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  19. Nat disse:

    Eu tenho o A Invenção das Tradições. Muito, muito bom.

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  20. Nat disse:

    É Paz e Terra mesmo, 1997.Eric Hobsbawn e Terence Ranger como organizadores.

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  21. confetti disse:

    “Acho que me enquadro nas pessoas que pensam que quem gosta de funk está numa posição hierarquicamente inferior. Se bem que acho que isso não tem muito a ver com hierarquia. Eu diria intelectualmente inferior.”andré, me enquadro perfeitamente ! adoro pancadao e como nat,sacudo as cadeiras ao som do funk, a verdadeira carioca trash ! ))))sera que ricardo vai me expulsar do agua por isso ? ((

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  22. Ricardo C. disse:

    Jamais te expulsaria por algo assim, Confetti, que idéia é essa? Vc tem cadeira cativa por aqui, e eu tenho a sorte de poder baixar o volume quando o som for de funk, hehehe!

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  23. Ricardo C. disse:

    Nat, hora dessas eu te peço o livro emprestado, tá?

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  24. Nat disse:

    Mas, claro, quando quiser.

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