Uma casa japonesa com certeza

Lá se vai quase um ano do primeiro sarau literário de que participei. Logo eu, que sempre vi nesses eventos um cheiro de patchouli, aquela modorra setentista, cheia de batas indianas, ponchos peruanos, “chinelas” de corda com sola de pneu, terapias de grupo e antiginástica, além de discípulos do Chacal vendendo suas “puisiazinhas” no Baixo Gávea, no Baixo Leblon, nas portas dos cinemas e no diabo que os carregue. Mas há o pior, o muito pior: gostei de participar da brincadeira! É bem verdade que quando somos nós que fazemos essas coisas, parece que a nossa (suposta) imensa capacidade de não levar-nos a sério funciona como uma espécie de blindagem, convencendo-nos de que se houver algum vexame a pagar, será sempre dos outros…

A “saga” em questão foi levada adiante por uma turma de amigos que costumava almoçar na tradicional Casa Villarino — aquela onde o Tom conheceu o Vinícius —, e que por pura farra, em meio a inúmeras cervejas — afinal de contas, amenizar o calor infernal do centro do Rio é questão de saúde pública! —, resolveu que seria divertido ler, em público, trechos de autores de que gostavam, pelos motivos que lhes desse na telha. A única condição para tal empreitada era a de que, fosse o texto que fosse, deveria ser em prosa — tentando iludir-nos com isso de que não se trataria de nenhum daqueles revivals cheios de gente que acabou de chegar de Woodstock à pé… E de conversa em conversa, convencidos de que no nosso caso inexistia da possibilidade de qualquer mico, decidiu-se que a primeira leitura giraria em torno do Julio Cortázar, já que um dos mais entusiasmados da turma, o jornalista (escritor e tradutor) Cassiano Viana, tinha acabado de traduzir uns textos do autor para o português. Foi assim, de pretexto em punho, que ocorreu a primeira leitura da “confraria do Villarino” — ou dos “loucos por leitura”, duas alcunhas informais desse povo —, no dia 12 de fevereiro de 2007, intitulada Um certo Julio Cortázar. E não é que funcionou?

Bom, vários almoços e cervejas depois, decidimos que tinha sido realmente divertido, e que valia a pena uma segunda rodada. Foi quando surpreendi a mim mesmo propondo a leitura de escritores japoneses, só porque acabara de ler (e gostado muito de) “Caçando Carneiros“, do Haruki Murakami — muitos já sabem que coloquei um trecho do livro por aqui — e como havia na turma dois filhos de japoneses, imaginei que eles fossem topar a idéia… e toparam! O meu amigo Cassiano, que adora comandar uma tropa, resolveu distribuir as tarefas, pedindo que eu ficasse à frente das leituras, e ainda por cima que fizesse o texto sobre o evento. (É nessas horas que se percebe o quanto a vaidade é um poderoso combustível, principalmente quando fazemos um monte de coisas que não faríamos normalmente, gostamos dessa trabalheira não-remunerada e nem nos damos conta de nada disso…) E aceitando a tarefa que me sobrou , fiz um “não-release” — é o mesmo artifício em relação às leituras: não sou jornalista, portanto não pretendi escrever um release como manda o figurino, do mesmo jeito que não éramos escritores, críticos literários ou acadêmicos da palavra, por isso estávamos ali para divertir-nos lendo… —, este que segue aqui embaixo:

Japonês em português

“Tem um japonês trás de mim”, disse o Chico. E atrás daquele mais uma leva, empunhando câmeras e filmadoras e guarda-chuvas coloridos, guias e modos e risos envergonhados. Uma leva, sim, pois reza a lenda que tudo o que vem do Japão é múltiplo, aporta em bando: eletroeletrônicos, desenhos animados, sushis e sashimis, karaokês, videokês, mangás e escritores… Escritores?!? Bem, de todo o arrazoado de clichês que aqui se lê, este último é o único suspeito. Que bando de escritores japoneses seria esse? E mais: se são mesmo muitos, para além de seus olhos rasgados, será que de fato se parecem? Assim sendo, o que têm em comum Ryunosuke Akutagawa, Yasunari Kawabata, Jun’ichiro Tanizaki, Yukio Mishima e Kenzaburo Oé? E outro autor ainda recente em português, Haruki Murakami? Tirando a letra “k” em algum lugar do nome ou do sobrenome, aos nossos (amendoados) olhos eles carregam a representação do outro, a marca do estranho, do distante, do difícil de definir ou encaixar em nossos parâmetros, numa tentativa parecida com a “quadratura do círculo”…

Bem disse o Paulo Leminski: “Classicismo. Barroco. Neo-classicismo. Romantismo. Realismo. Parnasianismo. Naturalismo. Simbolismo. Vanguardas e modernidade. Esse quadro histórico nos é tão cômodo quanto um chinelo velho. E baseia-se na evolução da literatura francesa. Quando abordamos a literatura japonesa, porém, esse esqueminha mental que mediterrânea a subterraneamente, dirige nossa lógica, simplesmente não funciona.”

Pronto, Leminski deu o álibi. O evento “Uma casa japonesa, com certeza”, marcado para esta segunda-feira, 12 de março, na livraria Dantes, lá no Cinema Odéon (Cinelândia – Centro), é tão somente um recorte, ou melhor, alguns recortes de autores japoneses contemporâneos – e por “contemporâneos” leia-se publicados no século XX –, feitos por um bando (não-japonês) de leitores, alguns vorazes, outros comedidos; dois deles filhos de japoneses, enquanto os demais no máximo donos de câmeras e/ou filmadoras e/ou aparelhos de DVD supostamente japoneses, mesmo que made in Taiwan. E existe uma reza forte, muito forte, para garantir que nenhum deles seja fã de videokê.

Os recortes, a princípio pessoais – mas não intransferíveis –, talvez venham acompanhados de uma ou outra idiossincrática explicação, seja falando de estranhamento, identificação ou qualquer coisa que o valha. O resto fica por conta de quem resolver aparecer por lá, às oito da noite.

Quase um ano. E a livraria Dantes nem está mais no Odeon… Pois ontem, conversando com uma nova amiga e admirando a sua enorme biblioteca, não tive como não lembrar desse e de outros encontros para lá de divertidos, ainda que nem um pouco originais. Não importa. Se puderem, um dia juntem uma turma e façam algo parecido. Fará um bem danado à saúde mental e afetiva da maioria, garanto. E se não bancarem de ficar no palco, na platéia também serve. Quem foi a um desses, cheio de gente que sabe debochar de si mesma, costuma querer mais.

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14 respostas para Uma casa japonesa com certeza

  1. Nat disse:

    Adorei a sugestãooooo. Acho que o máximo de deboche que eu consegui que alguns amigos se concedessem foi uma edição do Se vira nos 30 que fizemos lá em casa…Muito bom!!!!!Tenho uma amiga cuja bunda bate palmas… Inesquecível…

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  2. Ricardo C. disse:

    Nat, não teria algum filminho da sua amiga? Isso é caso pro Nat…Geo! 😛

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  3. Pax disse:

    Adoro saraus. Música e poesia. Prosa ainda não. Gostei da idéia.Agora, assistir a amiga da Nat Hiperbólica batendo bundas deve ser o sentido da vida.Nat, tá muito sumida.

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  4. Nat disse:

    (Perdão pelo Open Thread aqui Ricardinho hehehehe) Pax, amore, tô mesmo. A vida anda muito complicada, mas eu tou começando a ajeitar. Morrendo de saudades de tu… Quero saber quando vou conhecer o Mortadela ;- )

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  5. Alexandre A. disse:

    Sarau só conheço de literatura, nunca participei.Bom, se pintar eu encaro.:-)proftel

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  6. Monsores, André disse:

    Ricardo, e-mail pra você.Nat, saudade. Fui no MSN e vc não estava. BeijosDesculpe, sei que aqui não é mural de recados e eu confesso que nem li o post :/Vou ler depois.

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  7. Ricardo C. disse:

    Pax, é algo muito bacana. O texto que li do Murakami foi editado, caso contrário ficaria muito longo. E li junto com uma amiga nissei, que fez o papel da “mulher de 3 profissões”. Divertidíssimo! E como viu, a coisa foi profissa, com esse cartaz e tudo!

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  8. Nat disse:

    Monsores, nos desencontramos legal. Depois que vi seu comentário, eu entrei lá, mas vc naum estava mais.Ricardinho, mandei um e-mail confirmando nosso chopp hj. Bjs

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  9. Ricardo C. disse:

    Nat, já respondi!

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  10. Ricardo C. disse:

    Alexandre, se anime aí. Basta pegar um trecho ou mesmo o capítulo de um livro e mandar ver. No caso dos meus amigos, dos 3 saraus, o primeiro foi o dos inéditos do Cortázar, o segundo foi esse dos japoneses, e o terceiro, chamado de “Ilustres Desconhecidas”, foi de obras de mulheres pouco traduzidas no Brasil, assim como de autoras que acabaram de ser lançadas e ainda não caíram nas graças da mídia.

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  11. Ricardo C. disse:

    Mural de recados, André? Esqueceu que Dazibao é justamente um tipo de jornal mural? Pode deixar recados sim, a casa está aberta pra isso!

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  12. Gwyn disse:

    Ricardo,um beijo para comemorar Valentine’s Day ;*E para todos os queridos amigos aproveitem o dia e distribuam muitos beijos e abracos gostosos…

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  13. Ricardo C. disse:

    Gwyn, delícia esse beijo, outro bem grande pra você também!

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  14. Alexandre A. disse:

    Cabral, talvez quando aposentar.Por enquanto é só trabalho, casa, trabalho.Manhã/tarde/noite de segunda a sexta, sábados e domingos não tenho pique prá sair, é cama/net/cozinha.De vez em quando uma viagem à Sampa pra ver a família.Tá brabo prô meu lado.:-/proftel

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