Wim Wenders, anjos e “Don’t Come Knocking”, dois anos atrás

Desconheço qualquer aspecto sobre a natureza dos anjos. Esguios, rotundos, rubicundos, pintados, filmados, sonhados, declamados, em obras literárias ou de auto-ajuda, nunca lhes dei muita atenção. Há dois anos, porém, ao assistir ao último filme do Wim Wenders (“Don’t Come Knocking” que recuso chamar pelo título infeliz que recebeu no Brasil), eles apareceram diante dos meus olhos. Não de forma invasiva, mas sutilmente, como provavelmente lhes cabe. (Volto a eles já já.)

Nesse filme, a ambientação de “Paris, Texas” reaparece. Tem o interior dos Estados Unidos como cenário, áreas desérticas, cidades pequenas e insossas, de amplos espaços cheios de um monótono vazio, com a (nossa) contemplação como principal exigência. E estão lá os personagens em busca de si mesmos, como acontece com freqüência na obra de Wenders. (Não é um filme “enorme”, como “Asas do Desejo” ou o próprio “Paris, Texas”, mas me deixei levar por ele, mesmo assim.)

Talvez agora eu devesse falar mais detalhes do filme, sobre a atuação do Sam Shepard (também roteirista) e da Jessica Lange, por exemplo, mas fica para outra vez. Tem anjos no título deste post, suponho que eu queira mesmo é falar disso. Mas o que essas questões têm a ver com os tais anjos? Estes, tão explícitos em “Asas do Desejo” ou em e em sua continuação, “Tão Longe, Tão Perto” (“Faraway, So Close!”), com asas e tudo, mas que não têm serventia em “Don’t Come Knocking” ou em “Paris, Texas”? O que pretendo com o assunto? Eu não dissera antes que sua “natureza” me escapa, e que nada sei sobre eles?

Então, para começar, esclareço: gosto de anjos apenas como metáforas, é claro. E acontece que nos dois primeiros filmes, os tais anjos e suas asas me falam de uma espécie de saber, de uma capacidade de olhar muito além da dos humanos, dos mortais. (Existe algo/alguém sobre-humano e/ou imortal? Ignoro. E até aqui não tem feito muita falta saber, reconheço.) Muito além, sim, mas com algo que lhes falta, e que percebem justamente nos próprios humanos, frágeis, confusos, ignorantes de si mesmos. Eles percebem, mas não entendem — ainda que (quase) invejem —, e desconfiam que só entenderão se abdicarem de sua condição de anjos e se tornarem humanos, mote das duas películas rodadas em Berlim.

Volto então às anteriores, “Paris, Texas” e “Don’t Come Knocking” onde vi anjos escondidos na pele de alguns personagens. Talvez não mais anjos, talvez anjos caídos, terrenos, humanizados, mas ainda “em busca de“. E Alex, o filho de Travis, é o meu primeiro escolhido, personagem do primeiro (ambos na primeira foto). Poderia bem ser o próprio Travis, o Traveler, como já li por aí, desmemoriado, vagando pelo deserto, seguindo uma linha de trem em busca da identidade perdida; mas fico com o Alex mesmo. É uma escolha intuitiva, prometi a mim mesmo rever o filme, já que ele está guardado em gavetas empoeiradas da memória. Em “Don’t Come Knocking”, reservo o lugar de anjo para Sky (Sara Polley, na pele da personagem), linda, serena, de contados sorrisos, todos plenos. Ela, carregando a urna azul com as cinzas de sua mãe durante boa parte do filme. Uma Sky que observa, pontua, pouco interfere, sabe, mas também busca. Ambos, Alex e Sky, têm uma natureza ligeiramente diferente da dos outros, uma vivência e uma percepção sobre o sofrimento que os demais não possuem, mas invejam — lembrem-se, falo é dos demais… —, ainda que sem saber disso.

Esses são os anjos, os meus anjos, os que encontrei nos filmes do Wenders, e que talvez nem ele nem ninguém reconheça como tais. Anjos que provavelmente só eu veja, tal e qual todos os amigos imaginários que não tive em minha infância.

Eles o são. Eu, nem sempre.

[“Don’t Come Knocking”, último filme Wim Wenders, roteiro dele e do Sam Shepard, a mesma parceria de “Paris, Texas”. Em “Asas do Desejo”, a parceria de Wenders é com Peter Handke. Mais detalhes técnicos deixo de fora, como de costume.]

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