Ocidente, Oriente, cérebros e silêncios

Sem polêmicas nem provocações para deixar por aqui, e sobretudo por ter lido alguns posts muito bons sobre biologia, violência, neurociências e neuromarketing — Catatau!, O Hermenauta e Idelber Avelar foram os “culpados”—, lembrei de um texto de que gosto muito, uma comparação entre Oriente e Ocidente feita pelo Dr. Daisetz Teitaro Suzuki (uma autoridade, quanto aos aspectos místicos do Zen), numa conferência realizada no México, na cidade de Cuernavaca, em 1957.
Há, no texto, aspectos datados, que não previam tamanha ocidentalização do Oriente. Mesmo assim, acredito que muito do seu valor permanece atual. Vou só destacar alguns trechos que me interessam, porque o texto original é longo. Lá vai:

Conferências sobre Zen-budismo

(…) Basho (1644-1694), grande poeta japonês do século XVII, compôs, de uma feita, um poema de dezessete sílabas conhecido como haiku ou hokku. Traduzido para o português, diz mais ou menos o seguinte:

Quando olho atentamente
Vejo florir a nazuna
Ao pé da sebe!

Yoku mireba
Nazuna hana saku
Kakine kana.

É provável que Basho estivesse andando por uma estrada do campo quando reparou em alguma coisa quase junto à sebe. Aproximou-se, olhou bem para ela e verificou que se tratava de uma planta silvestre, pouco mais que insignificante e raras vezes notada pelos transeuntes. Eis aí um fato singelo, descrito no poema sem qualquer expressão de algum sentimento especificamente poético, a não ser talvez nas duas últimas sílabas, que em japonês se lêem kana. Freqüentemente ligada a um substantivo, a um adjetivo ou a um advérbio, essa partícula significa certo sentimento de admiração, de louvor, de tristeza ou de alegria e pode, às vezes, traduzir-se apropriadamente numa língua ocidental por um ponto de exclamação. Neste haicai o verso todo se conclui com esse ponto.
O sentimento que perpassa pelas dezessete, ou melhor, pelas quinze sílabas rematadas por um ponto de exclamação talvez não se comunique aos que não estão familiarizados com a língua japonesa.[…]
Primeiro que tudo, Basho era um poeta da natureza, como o são quase todos os poetas orientais: amam tanto a natureza que se identificam com ela, sentem todas as pulsações que lhe percutem as veias. A maioria dos ocidentais propende a alhear-se da natureza. Acreditam eles que o homem e a natureza nada têm em comum senão em alguns aspectos desejáveis, e que esta existe apenas para ser utilizada por aquele. Para o povo oriental, todavia, a natureza está muito próxima. Esse amor à natureza foi avivado quando Basho descobriu uma plantinha modesta, quase desprezível, que florescia à beira da velha sebe dilapidada, ao longo da longínqua estrada campesina, tão inocente, tão despretensiosa, sem nenhum desejo de ser notada por quem quer que fosse. Entretanto, quando olhamos para ela, vemo-la tão terna, tão cheia de glória divina e de esplendor, um esplendor mais glorioso que o do próprio Salomão! Sua humildade, sua beleza sem ostentação, nos provocam admiração sincera. O poeta sabe ler em cada pétala o mais profundo mistério da vida ou do ser. É possível que o próprio Basho não tivesse consciência disso, mas estou certo de que em seu coração, naquele momento, vibrava um sentimento algo semelhante ao que os cristãos denominam acaso amor divino, que atinge as maiores profundezas da vida cósmica.

As cordilheiras do Himalaia podem despertar em nós o sentimento de um sublime e respeitoso temor; as ondas do Pacífico sugerem, porventura, algo do infinito. Mas quando temos o espírito franqueado ao poético, ao místico ou ao religioso, sentimos, como o sentiu Basho, que até numa haste de relva silvestre há qualquer coisa que, transcende realmente todos os sentimentos humanos baixos e venais, que nos eleva a um reino cujo esplendor iguala o da Terra Pura. Em tais casos, não importa a magnitude. Nesse sentido, o poeta japonês tem um dom específico, que descobre grandeza nas coisas pequeninas e transcende todas as medidas quantitativas.

Tal é o Oriente. Vejamos agora o que tem o Ocidente para oferecer-nos em situação semelhante. Escolho Tennyson. Talvez não se trate de um poeta ocidental típico, que se possa destacar para cotejar com o poeta do Extremo-Oriente. Mas o seu poemeto aqui citado possui algo que se relaciona muito estreitamente com o de Basho. Ei-lo:

Flower in the crannied wall,
I pluck you out of the crannies; —
Hold you here, root and all, in my hand,
Little flower — but if I could understand
What you are, root and all, and all in all,
I should know what God and man is.

Flor no muro fendilhado,
Eu te arranco das fendas; —
Seguro-te, com raiz e tudo, em minha mão,
Florzinha — mas se pudesse compreender
O que és, com raiz e tudo, e tudo em tudo,
Eu conheceria o que são Deus e o homem.

Dois pontos há que eu gostaria de sublinhar nestes versos:

1. Tennyson colhe a flor, segura-a na mão, “com raiz e tudo”, e olha para ela, talvez intensamente. É muito provável que experimentasse um sentimento semelhante ao de Basho, que descobriu uma flor nazuna ao pé da sebe, à beira da estrada. Mas há uma diferença entre os dois poetas: Basho não colhe a flor. Limita-se a contemplá-la. Absorto em seus pensamentos. Sente o que quer que seja no espírito, mas não o expressa. Deixa que um ponto de exclamação diga tudo o que ele quer dizer. Pois não tem palavras para dizer; seu sentimento é tão pleno e tão profundo que não sente o desejo de conceptualizá-lo.
Tennyson, porém, é ativo e analítico. Primeiro, colhe a flor do lugar em que ela cresce. Separa-a do chão a que ela pertence. À diferença do poeta oriental, não a deixa em paz. Precisa arrancá-la do muro fendido, “com raiz e tudo”, o que significa que a flor terá de morrer. Não lhe interessa, aparentemente, o destino dela; é mister que sua curiosidade seja satisfeita. Como o fazem alguns cientistas médicos, ele chegaria à vivissecção da flor. Basho não toca sequer a nazuna, limita-se a contemplá-a, a contemplá-la “atentamente” — e é tudo o que faz. Totalmente inativo, representa excelente contraste com o dinamismo de Tennyson.
Eu gostaria de frisar este ponto especificamente aqui, e talvez tenha ocasião de voltar a ele. O Oriente é silencioso, ao passo que o Ocidente é eloqüente. Mas o silêncio do Oriente não significa apenas ser mudo e permanecer sem palavras ou sem fala. Em inúmeros casos, o silêncio é tão eloqüente quanto a verbosidade. O Ocidente aprecia o verbalismo. E não é só isso, o Ocidente transforma a palavra em carne, e faz que essa carnalidade sobressaia, às ve
zes de maneira demasiado notável, ou melhor, demasiado gritante e voluptuosa, em suas artes e religião.
2. Que faz Tennyson a seguir? Olhando para a flor colhida, que muito provavelmente já principiou a murchar, formula a pergunta dentro em si mesmo: “Acaso te compreendo?” Basho não faz perguntas. Sente todo o mistério que lhe é revelado em sua humilde nazuna — o mistério que penetra fundo na origem de toda a existência. Embriagado por esse sentimento, exclama, e sua exclamação é um grito indizível, inaudível.
Tennyson, ao contrário, prossegue em sua intelecção: “Se [que eu grifo] pudesse compreender o que és, eu conheceria o que são Deus e o homem”. O seu apelo à compreensão é caracteristicamente ocidental. Basho aceita, Tennyson resiste. A Individualidade de Tennyson mantém-se apartada da flor, de “Deus e do homem”. Ele não se identifica com Deus nem com a natureza. Está, sempre apartado deles. Sua compreensão é o que as pessoas, hoje em dia, denominam “cientificamente objetiva”. Basho é inteiramente “subjetivo”. (Esta palavra não é boa, pois sempre faz que o sujeito se oponha ao objeto. Meu “sujeito” é o que eu gostaria de chamar “subjetividade absoluta”). Basho se mantém ao lado dessa “subjetividade absoluta”, em que ele vê a nazuna e esta o vê. Aqui não há empatia, nem simpatia, nem identificação nesse sentido.
Diz Basho: “olho atentamente” (em japonês, “yoku mireba”). A palavra “atentamente” supõe que Basho já não é aqui um espectador, senão que a flor, consciente de si mesma, silenciosa e eloqüentemente a si mesma expressa. E esta silenciosa eloqüência ou este eloqüente silêncio da flor ecoa humanamente nas dezessete sílabas de Basho. Sejam quais forem, a profundidade de sentimento, o mistério de enunciação ou mesmo a filosofia da “subjetividade absoluta” só serão inteligíveis aos que, de fato, experimentaram tudo isso.

Em Tennyson, pelo que me é dado ver, não existe, em primeiro lugar, profundidade de sentimento; ele é todo intelecto, típico da mentalidade ocidental. Advoga a doutrina do Logos. Precisa dizer alguma coisa, fazer abstrações ou intelectualizações acerca da sua experiência concreta. Precisa deixar o domínio do sentimento e penetrar o do intelecto, sujeitando o viver e o sentir a uma série de análises para satisfazer ao espírito ocidental de indagação.

Escolhi os dois poetas, Basho e Tennyson, como indicativos de dois enfoques fundamentais e característicos da realidade. Basho é do Oriente e Tennyson do Ocidente. Ao confrontá-los, descobrimos que cada qual revela seus antecedentes tradicionais. Nessas condições, o espírito ocidental é: analítico, discriminativo, diferencial, indutivo, individualista, intelectual, objetivo, científico, generalizador, conceptual, esquemático, impessoal, formalista, organizador, exercitador do poder, dinâmico, inclinado a impor sua vontade aos outros, etc. Em contraste com esses traços ocidentais, os do Oriente podem enumerar-se assim: sintético, totalizador, integrador, não discriminativo, dedutivo, não sistemático, dogmático, intuitivo (ou melhor, afetivo), não discursivo, subjetivo, espiritualmente individualista e socialmente com mentalidade grupal, etc. […]

[SUZUKI, Daisetz Teitaro; FROMM, Erich; DE MARTINO, Richard (1979). Zen-Budismo e Psicanálise. São Paulo: Cultrix.]

Faço aqui uma interrupção, sabendo que o corte foi abrupto, que deixou tudo muito em aberto (retirando até mesmo algo da força do texto). Mas o que gosto dele é justamente o fazer da poesia o mote para tal comparação Oriente/Ocidente. E essas diferenças, que se refletem até mesmo na utilização do próprio cérebro — mapeamentos com tomógrafos já apontaram isso —, sempre me interessaram, esse extranhamento, esse silêncio.

Não sei o que pretendi com este post, nem sei se quero saber tanto assim. Mas hoje, resolvi falar novamente de japoneses. Não mais os que somos, a que me referi em outro texto, mas os japoneses que não somos. Para esses, o meu silêncio. Embora ocidental, é respeitoso e de profunda admiração.

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4 respostas para Ocidente, Oriente, cérebros e silêncios

  1. Nat disse:

    E por falar em Oriente e Ocidente, me agrada mais ler os posts à esquerda do que como tava ontem, no lado direito.

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  2. Ricardo C. disse:

    Que bom, a mim tb. Estou experimentando, gosto de visuais mais limpos.

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  3. osrevni disse:

    Realmente, Ricardo. Vejo claramente a ponte que você estabeleceu. Pergunto onde entraria a mulher que cheirou-não cheirou a rosa que pegou do chão. Não é eloqüente, nem aceita: é mecânica! Sinal dos tempos…Por sinal, outra ponte que pode ser estabelecida é entre o kana de Basho e o simplesmente de Cartola… não acha?Abração,Diego

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  4. Ricardo C. disse:

    Por sinal, outra ponte que pode ser estabelecida é entre o kana de Basho e o simplesmente de Cartola… não acha?Ponte fantástica essa, Diego!

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