Susto

Tá bom, sustinho, pois não quero assustar ninguém. Mesmo assim, lembro de ter sentido espanto, no mesmo dia em que surrupiei uma conversa ao ouvir as pessoas daquela mesa de restaurante falando de uma palavra cotidiana, tão freqüente no discurso adocicado dos enamorados, e dando-lhe umas belas chibatadas, supondo que existam chibatadas belas. Trata-se de uma palavra que, como tantas, com o tempo acabou perdendo características e significados que sempre lhe pertenceram, justo pelo “privilégio” que os seus usuários deram a um de seus sentidos.

(Bom, para não contradizer o espírito “prolegomênico” deste blog — tem razão, exagerei, esse “espírito prolegomênico” ficou uns cinco tons acima do razoável —, lembrei de outra expressão que vive um drama (?!) análogo ao que descreverei mais abaixo. Falo do que ocorreu com a expressão “para variar”. Esta, que em priscas eras costumava ser dita com ironia — indicando justamente o contrário, que o objeto do comentário não só não variava, como se repetia ad nauseam! —, com o passar do tempo deixou de ter a companhia do tal “componente irônico”. Resultado: cada vez mais e mais pessoas a usam acreditando piamente que essa é a forma correta de falar… )

Há palavras e expressões que aos poucos se impõem, enquanto outras caem no mais absoluto descrédito. Digo isso por não ser ingênuo a ponto de crer na existência de línguas que não se movimentem — nem tampouco quero imaginar beijos de línguas mortas… —; mas confesso, >só para dar (mais) um exemplo, que cada vez que ouço a palavra “autópsia” no lugar de “necrópsia”, o único que me vem à mente é alguém cometendo harakiri

Depois de tanta enrolação — ando mestre nisso! —, quer avisar-lhes que fui obrigado a refazer a imagem que tinha sobre uma palavra comumente usada na esfera das relações amorosas: “cumplicidade”. Acontecia, até alguns anos, de usá-la do jeito que a maioria o faz, isto é, indicando aquilo que haveria de especial e exclusivo nas relações afetivas, sobretudo as relações amorosas. Desta forma, a “compreensão de uma nota só” que a palavra “cumplicidade” adquiriu deu-lhe uma dimensão sagrada, a de algo a ser buscado, cultuado e até mesmo invejado, especialmente quando alcançado por algum casal. E mergulhado até o último fio de cabelo nesse senso-comum, ainda em meio à sobremesa e sem ter ainda pedido o sagrado expresso e dolorosa a conta, ouvi um dos inimagináveis amigos engravatados da mesa ao lado (assumo o preconceito) a seguinte frase:

“A nossa relação amadureceu de verdade na hora em que deixamos de ser cúmplices e viramos parceiros.

Foi naquele momento em que me vi resgatando um sentido esquecido, uma incômoda verdade que pode muito bem se esconder sob o belo manto dessa tal cumplicidade: o de sermos cúmplices em nossas neuroses, em nossas sabotagens, em nossas queixas. Enfim, sermos cúmplices de um crime “lesa humanidade”: perder-nos de nós mesmos. Desde aquele dia, passei a pensar entre duas e cinco vezes antes de usar novamente essa palavra. E nem precisei de uma CPI para saber até onde ela poderia chegar.

Foi mesmo bom relembrar daquele almoço. Aprendi um monte de coisas que sequer sabia que tinha esquecido.

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2 respostas para Susto

  1. Nat disse:

    Nossa Ricardo, se você gostasse de Oswaldo Montenegro e não fosse casado (sinceramente, não sei qual pesa mais hehehe) eu te pediria em casamento neste exato momento. Explico-me: Estava eu aqui em casa pensando em qual verbete iria explicar no meu novo blog lá das origens das coisas e nem sei porquê me lembrei de uma conversa que tive com um amigo sobre a palavra cúmplice e como ela era mal utilizada para explicar certos níveis de entendimento ou “status” que as pessoas queriam ter nos relacionamentos… Enfim, você resumiu meu pensamento neste post. Amo-te por ter essa habilidade que me foi dispensada na hora do nascimento em prol de outras coisas, claro ;- )

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  2. Ricardo C. disse:

    Sobre a origem das coisas, sempre me vem à mente o Cortázar, o Borges e o Manoel de Barros. Ah, vou colocar um texto do Benedetti que adoro, é um trecho do romance “Primavera con una esquina rota”. Afie o seu espanhol, porque acho que vc vai gostar!

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