Duas notas: primeiro a ruim, depois a boa. Boa??

1) Um daqueles aforismos do Cioran* de que lembro mal, mas que ainda me incomodam um pouco. Diz mais ou menos assim:

“Você pode matar uma, dez, cem pessoas. Mas ao se matar, no que te diz respeito, consegue eliminar toda a humanidade.”

2) Sobre o temor da morte, eis um raciocínio** interessante, que soube pertencer aos estóicos, apesar de uma amiga filósofa garantir ser de Epicuro:

“Não há por que temer a morte. Onde estou, ela não está. E onde ela está, eu não estou.”

________
* Emil Cioran (Ra?inari, 08-05-1911 — Paris, 20-06-1995) foi um escritor e filósofo romeno radicado na França. Em 1949, ao publicar “Précis de Decomposition”, passa a assinar E.M. Cioran, influenciado por E.M. Forster — esse “M” não tem nenhuma relação com outros nomes do filósofo (como Michel, Mihai, etc.). (Vá à Wikipédia se quiser ler mais sobre ele.)

** Corre o boato de que o neurótico do Woody Allen quis comprar os direitos dessa sentença, só para proibir a sua publicação. (Aliás, duas frases dele: “Não é que eu tenha medo de morrer. É que eu não quero estar lá na hora que isso acontecer”. E “Não quero atingir a imortalidade através de meu trabalho. Quero atingi-la não morrendo.”)

*** Na foto acima, a lápide do médico neurologista português António Egas Moniz, prêmio Nobel de medicina em 1949, criador da Leucotomia Pré-frontal (a “popular” lobotomia). A escolha da foto foi casual, mas como é sabido que gosto de uma referência “psi”, nem que seja para avacalhá-la, creio que deixou de ser mero acaso.

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12 respostas para Duas notas: primeiro a ruim, depois a boa. Boa??

  1. Monsores, André disse:

    Quanto ao Emil Cioran, seria tão mais fácil se Hitler, por exemplo, tivesse lido esta frase e seguido, não? Talvez não…Quanto a segunda, eu não temo a morte também não. Acho completamente sem sentido temer a única coisa que não vou conseguir administrar.Claro, claro… eu sei que tem toda aquela coisa de cuidar da saúde e etc. Ainda assim, a unica coisa que eu irei possuir pra sempre é meu corpo. Devo ser eu a escolher o que quero fazer com ele.

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  2. Ricardo C. disse:

    Risos para a primeira, André, hahaha!E quanto à segunda, aqui vão as provocações:1) Tá, vá lá que é mesmo sem sentido temer a morte, e o post fala mesmo disso. Mas, por outro lado, e sobre perder a única coisa que vc (mal e porcamente) conhece, essa tal de vida, tá tudo bem pra você?2) “(…) a unica coisa que eu irei possuir pra sempre é meu corpo“. Ué, quem é esse “eu” que está dizendo que “possui” um corpo? Onde esse “eu” está? Ele não seria “o” corpo?Para um ateu, você anda saindo um dualista “a la Descartes”, que por sinal acreditava em Deus e supunha que a alma se encontrava com o corpo na glândula pineal… É lá que vc está?

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  3. Rachel disse:

    AaaaaahahahahahahahaEnfim, não tem nada de engraçado. A lobotomia é uma intervenção do DEMO e nunca deveria ter sido utilizada, sob alegação nenhuma. Vim aqui na verdade pra te trazer isso:http://maejaacabei.blogspot.com/2007/11/favor-do-erro-e-das-iluses.htmlAchei por aí, nas minhas andanças e pensei que gostaria de ler. beejo

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  4. Sidney Mirandão disse:

    Ô Ricardo, meus blogs andam tão abandonados que só agora vi sua visita. Obrigado e volte sempre. Coloquei um link para meu blog velho lá, ao menos tem o que ler…Agora eu vou mesmo. A gente se fala depois do carnaval. Abraços.

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  5. Monsores, André disse:

    Não não, Ricardo. Quando digo eternidade, isso não significa que estarei lá no céu naquela coisa chata de harpas e anjos. Tampouco queimando no tal do inferno, com o capeta espetando minha bunda com seu tridente.Estarei enterrado, ou cremado, em algum lugar. E ainda será meu corpo. Ainda serei eu. São minhas moléculas, meu DNA, minhas células, ainda que mortas. Quanto a perder a tal vida, olha, não está tudo bem não, mas isso não me tira o sono. Como eu te disse, é uma coisa que não posso administrar. Agora mesmo, depois de postar esse comentário, saí do escritório e fui no bar de um amigo pagá-lo. Quando eu estava quase chegando no meu destino, levei uma cortada de um filho da puta e bati com o retrovisor esquerdo do carro num outro que estava parado. Poderia ser pior se eu estivesse distraído. Certamente isso não fará com que eu deixe de dirigir. Minha vida não ficou nem mais nem menos importante do que era antes. Ela continua sendo minha vida, a qual eu gosto.Gostaria de acreditar que quando a morte vier, jogarei xadrez com ela. Vou ganhar e ela que vá atacar outro vidente. Mas não é assim que acontece, eu acho.

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  6. Monsores, André disse:

    Ricardo, se me permites um off-topic, você é o único sujeito que respeito intelectualmente e que morou no México. Então me diga, o que tem de bom de música mexicana, hein? Sou um completo analfabeto nesse sentido.Não entenda mal, por favor, gosto do México. Nada contra os Mexicanos. É que só levo em consideração determinadas dicas, principalmente no tocante a música, cinema e literatura, de algumas poucas pessoas que conheço. Preciso conhecer mais pessoas, eu sei.

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  7. Nat disse:

    Eu tb conheço a segunda como sendo de Epicuro, e a conheço assim:”Por que ter medo da morte?Enquanto somos,a morte não existe;E quando ela passa a existir,nós já deixamos de ser.”

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  8. Pax disse:

    Papo de morte? Tô fora. Deixa de lado por enquanto, afinal casaremos com ela ad eternum. Antes disso, melhor traí-la sempre.

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  9. Thiago Azevedo disse:

    O cara que criou a lobotomia ganhou um premio Nobel? Foi por esse motivo? Viche!

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  10. Alexandre A. disse:

    Bom, esse negócio de morte é a única coisa certa na vida e não estou muito a fim de falar sobre o que já é certo e sabido.kkkkk rsrsrss:-)(proftel)

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  11. Rodrigo disse:

    Existe uma lista de discussão sobre Cioran em português. Não queres participar? Saudações, Rodrigo.http://br.groups.yahoo.com/group/Planeta_Cioran/Planeta_Cioran-subscribe@yahoogrupos.com.br

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  12. Ricardo C. disse:

    Rodrigo, vou dar uma passadinha por lá. Não prometo participar, pois o meu conhecimento sobre o Cioran é mínimo, na melhor das hipóteses eu ficaria lá só lendo e aprendendo… Mesmo assim, obrigado pelo convite!

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