Parece coisa do além

PanairEm meados de 1944, contando com 33 anos, três filhos e uma fiel clientela em seu consultório médico de Teófilo Otoni, Dr. J. encasqueta que é sua obrigação patriótica alistar-se como voluntário na 2ª Guerra Mundial, desconhecendo não faltar tanto assim para que a guerra acabasse. Nem vem ao caso especular sobre motivações de qualquer espécie, ocultas ou não. No máximo, vale destacar o seu idiossincrático senso de dever, algo que todos os que com ele conviviam já nem estranhavam mais. E que, findas as providências logísticas — extensas, já que sequer sabia se voltaria —, seguiu em direção ao aeródromo mais próximo para embarcar nas asas da Panair, em um Lockheed L-18 Lodestar — esse mesmo das fotos — rumo ao Rio de Janeiro. Era de lá que enfim partiria, incorporado às tropas pátrias, sem saber qual destino do continente europeu o aguardava.

(A filha mais velha, anarquista de primeira hora, ainda se lembra da emoção de tê-lo visto impecável e reluzentemente fardado. E antes que lhe cobrem coerência, informa que “pai é pai”, e que aos seis anos de idade não haveria anarquismo que desse conta de um bem fornido Complexo de Electra…)

De volta ao abarrotado saguão do aeródromo, naquele voo também repleto, eis que surge do nada e em trajes civis um oficial do exército, minutos antes do embarque, dizendo em altos brados que lançaria mão de suas prerrogativas militares — afinal de contas, eram tempos de guerra —, e que viajaria porque viajaria naquele avião, simples assim. Para azar de Dr. J., coube a ele ser o escolhido para ceder o lugar ao dito oficial, num sorteio com critérios um tanto quanto obscuros, o que só não o tirou totalmente do sério por conta daquele senso de dever lá de cima, o tal idiossincrático. E não lhe restou outra opção além da de abrir mão do seu assento para o empertigado militar, responsável direto pela drástica mudança nos planos do nosso protagonista que voltou para casa soltando fogo pelas ventas — figura de linguagem habitual à época — maldizendo a existência das forças armadas e prometendo a si mesmo rever seus critérios sobre sensos, sisos e assemelhados.

Mas não, não é bem aí que a história termina. Mal chegou em casa, foi recebido por sua aflita esposa e os três chorosos filhos que, entre surpresos e aliviados, lhe contaram a notícia, irradiada há pouco pela rádio local, sobre a queda de um avião ocorrida minutos depois da decolagem. E como naquele então a frequência dos voos não era muita, sabiam tratar-se daquele em que Dr. J haveria de estar. Por último, para dar mais drama ao acontecimento, só faltou acrescentar que, daquele infortúnio, não sobrou viva alma para contar a história.

Reza a lenda que algumas pessoas chegadas ao extra-mundo costumavam ver, postada ao lado do Dr. J, a figura de um índio alto, forte, que supostamente o acompanhava onde quer que ele fosse. Da parte do Dr. J. nem tanto, já que sem chegar a dizer-se nem ateuPanair no JB nem religioso, defendia uma certa “energia cósmica”, em nada parecida com qualquer espécie de aborígene americano. Mas como veio dele toda essa estranha história, contada e recontada sorrindo com um quê de enigma, não seria de estranhar se o que o destino lhe reservou não teve nem que fosse um dedo do tal índio…

P.S.1. Um pedido aos sensitivos: se por acaso na foto abaixo virem um décimo oitavo passageiro entre os dezessete que eu consegui contar, me avisem. E se for o caso, por favor digam qual a tribo dele.

Panair PP-PBH embarqueP.S.2. Este relato tem mais de estória do que de história. Não pela presença do índio ao lado do Dr. J, que essa só daria para confirmar por meios heterodoxos, mas por conta de uma pesquisa um pouquinho mais cuidadosa que fiz sobre acidentes com aviões da Panair na época. É que dos dois que caíram no ano de 1944, um saía de Salvador com destino a Belém e, ao que parece, não seria a cidade para onde o Dr. J deveria ir. E o outro foi num voo entre o aeroporto Santos Dumont e o de Congonhas, tendo ocorrido à noite, durante a aproximação para o pouso.

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14 respostas para Parece coisa do além

  1. confetti disse:

    eu !!saudade seu ricardo obrigada pelo erase ali de baixo quero esquecer vamos esquecer so nao esqueço que a amizade e o sal da vida …;))

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  2. Ricardo C. disse:

    Saudade tb… Tá se divertindo muito? Já comeu todos os acarajés, abarás, moquecas de siri-mole (êpa, isso vc come?), vatapás, carurús e cia?”Emêiou-me” contando!Beijos salgados!

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  3. confetti disse:

    aviao da panair, ich ! tenho uma bolsa vintage, comprada num charity shop londoniano…imagina o percurso dessa bolsa pra chegar ate la….ela e branca e ta escrito panair em azul marinho, ja bem usadinha, viajou pra caramba !

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  4. confetti disse:

    tou na chapada seu ric…melhor impossivel ! tem lan house todo 10 kms….kkkkvc ta me devendo mel reply…nao ta…e cada teclado que me aparece, sem falar em tudo que ingiro, kkkkaquele selo q lambi chegou (nao consigo achar o ponto de interrogaçao aqui)

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  5. pingwyn disse:

    So quem viveu uma experiencia parecida sabe o arrepio que da ao ler esse seu post..Nao, nao vi nenhum indio na foto…

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  6. pingwyn disse:

    Confetti no Brail!!Aproveita o sol,e o calor dai…Chapada, que delicia!!!So de ler voce da uma vontade de estar ai…

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  7. Rachel disse:

    Pobre índio. Nem apareceu na foto, olha que absurdo…!

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  8. Pax disse:

    De onde você desenterrou essa história Ricardo?Confetti e Tíchia no blog !

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  9. Ricardo C. disse:

    Vamos por partes:

    Confetti, verdade, te devo uma resposta pro seu “mel” sim, hehehe! Tô no consult, quando voltar pra casa te escrevo decentemente. Ah, nada de correio ainda não…

    Gwyn, eu mesmo nunca vi nada não, mas conheço alguns que enxergam coisas do arco da velha, e sem fazer uso de nenhum tipo de “auxílio” químico ou de qualquer tipo de distúrbio mental… Aos poucos vou lembrar de algumas histórias e ponho por aqui, nem que seja meio romanceadas.

    Rachel, é por isso que peço a ajuda de vocês, ora bolas, duvido que qualquer fotografia seja mais interessante do que as visões que alguns de vocês possam vir a ter, não é? 😛

    Pax, trata-se de uma mistura de fatos reais — esse avião existiu, é o da segunda foto (o da primeira é do mesmo modelo e tb é da Panair, mas acho que o prefixo é outro), e caiu no município de Rio Doce, MG, no dia 21/09/1944, e todos os seus 17 ocupantes morreram… — com um monte de ficção tb. E se tem personagens fictícios — a filha anarquista, p. ex. —, a conversa sobre esse tal Dr. J ter se alistado na 2a. Guerra Mundial e dele tb ter perdido um vôo por conta de um milico que ocupou o seu lugar é verdadeira, ouvi do próprio protagonista… Por último, o papo sobre o índio tb me foi contado por ele, só não sei se em referência à perda do tal vôo, e tb não sei se o avião que ele perdeu se acidentou mesmo. Só sei que ele não foi à guerra e morreu muito tempo depois, em 1993…Se quiser saber sobre acidentes e incidentes da aviação brasileira, siga o link pro site que encontrei.

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  10. EU achei o 18º passageiro – só não sei dizer qual deles é o décimo-oitavo, mas você pode vê-lo direitinho aqui: http://images.alexiskauffmann.multiply.com/image/1/photos/178/1200×1200/14/panair-2.jpg?et=aTXpanYFjJDt%2CqqyUW9Gpg&nmid=194840023

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    • Ricardo C. disse:

      O 1 e o 2 que vc marcou estão na mesma pessoa, Alexis. Ali só há uma moça com uma mão na barriga e a outra evitando que o sol lhe chegue aos olhos, só isso. A não ser que ela esteja grávida de 2 meses e ainda não dá pra ver… 😛

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  11. Será o Bendito que todo incrédulo é míope? Então não vê que a moça não está se protegendo do sol mas, sim, fazendo cafuné no caboclo?

    Troca os ócros, Ricardão!!!

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  12. Pingback: Ricardo C.

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