Pílulas de sabedoria

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Este livro (Como Conquistar Mulheres Sem Fazer Fôrça. Rio de Janeiro: Distribuidora Record, 1965), da autoria de Shepherd Mead e com prefácio de Jorginho Guinle, estava numa velha e empoeirada estante — hoje pintada de branco, na sala lá de casa —, e sei de sua existência há anos. Hoje resolvi compartilhar um pouco da “filosofia” e “antropologia” contidas nele. Mas só um pouco, para não dar indigestão. Não estranhem os acentos, lembrem-se que a edição é mesmo de 1965.

O homem casado jamais está só. Terá sempre em tôrno de si, muita gente, especialmente depois da chegada dos filhos.

Na verdade muitos maridos e pais jamais conseguem ter um único momento de isolamento e tranqüilidade num período de muitos anos.

O espôso egoísta que esperar a companhia de ‘sua espôsa’ sofrerá todavia uma tremenda decepção. A primeira espôsa, como veremos em breve, precisa trabalhar de quatorze a dezesseis horas por dia, e terá muito pouco tempo para fazer companhia ao marido.

Seja razoável. Se você deseja a companhia de mulheres adultas, não case de jeito nenhum. Procure môças livres de qualquer compromisso, com gostos semelhantes aos seus e então terá o calor da boa companhia. (p. 74).

O capítulo 6 (“A boa moldura”), por exemplo, trata sobre como os homens devem ajudar a mulher a analisar um caráter masculino e fazê-la ver o óbvio, isto é, que ela deve sentir orgulho de ter sido escolhida por ele. Isto se faz necessário porque, segundo o autor do livro, “[…] Poucas mulheres sabem analisar um caráter e poucas saberão reconhecer seu verdadeiro valor. É preciso ajudá-las” (p. 56).

suposto-intelectual

O sub-item “Seja intelectual”, cuja imagem correspondente é essa aí de cima (clique nela para ampliá-la) diz assim:

Tôdas as mulheres gostam de pensar que estão na companhia de um intelectual. Faça o impossível para que acreditem que estão mesmo.

Contudo, é muito melhor parecer um gigante mental do que sê-lo na realidade. Ser um gênio intelectual fará com que tôdas as mulheres o desejem, mas deixará muito pouco tempo para você dedicar-se a elas. Muito cedo aprenderá que, se existe uma coisa que as mulheres exigem em abundância, é tempo.

O primeiro passo será adquirir a aparência intelectual. […] Mantenha a testa permanentemente franzida, e ao mesmo tempo treine uma mecha de cabelo para cair descuidadamente sôbre a testa.

O ambiente é importantíssimo também. Pelo menos uma parede repleta de livros é indispensável. Em lugar de destaque deve haver duas ou três prateleiras cheias de brochuras em francês.

‘Sartre! Puxa, Lulu, eu o acho positivamente divino, e você?’
‘Bem, jamais li obra alguma de Sartre em tradução, minha querida. Questão de ritmo. É completamente diferente.’
(Agarre imediatamente um volume qualquer e leia uma ou duas frases, sem jamais traduzi-las, porém.)
‘Compreendeu o que eu queria dizer? A coisa flui, positivamente flui!’
‘É mesmo, Lulu, é tão!… tão francês, não é?’

Meia dúzia de volumes em algum idioma obscuro, digamos árabe ou sânscrito, será excelente. Finja uma ignorância quase completa em relação à língua.

‘Não, positivamente não! Mas consigo distinguir uma palavra ou outra. Trata-se de uma questão de imaginação, nada mais.’ […]

Com certas mulheres é possível exibir uma formidável quantidade de virtuosidade intelectual com um mínimo de estudos.

‘Oh, Lulu, Stravisnky!
‘Você também gosta dêle? Acho que êle é muito, bem… compassado.’
‘E vital também’
‘Você encontrou a definição exata. Vital. De uma maneira mais ou menos moribunda, não acha?’

O homem inteligente poderá manter a conversa nessa base durante horas e horas, apesar de não estar familiarizado com a obra de arte em discussão. O único perigo é tornar-se específico. Por exemplo, a conversa acima pode vira a ter um fim melancólico:

‘E vital também.’
‘Vital? Que quer dizer com isso? Na verdade os trinta primeiros compassos do prelúdio têm uma força definida, mas depois… quer me assobiar…’

Conversas assim acabam com qualquer amizade.” (p. 63-66). [Os trechos sem itálico são do autor, os em negrito são meus.]

Do capítulo capítulo 3, “Como ser irresistível em calças curtas”, tirei a imagem abaixo:

homens-altos-meninos-pequenos

A nota dissonante na imagem acima é o cigarro, que hoje em dia não tem mais o apelo charmoso de antanho (palavra tirada do baú). O resto parece que está em seu devido lugar.

* * * * *

O curioso disso tudo é que, com as devidas adaptações aos tempos atuais — e levando em consideração o fato das mulheres terem muito mais acesso à informação e, quase sempre, serem mais cultas e intelectualmente preparadas que os seus coetâneos, por exemplo —, muito do que está nesse livro parece continuar sendo usado pela macharada. E
o pior: goste-se ou não, ainda cola.

O livro é mesmo divertido, um achado antropológico. Dá para “ler” a história das relações heterossexuais, dos anos 50 até o presente.

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12 respostas para Pílulas de sabedoria

  1. Nat disse:

    “Seja razoável. Se você deseja a companhia de mulheres adultas, não case de jeito nenhum. Procure môças livres de qualquer compromisso, com gostos semelhantes aos seus e então terá o calor da boa companhia.”É… Acho que pouca coisa mudou desde aquela época hehehehe A única diferença grande que vejo é na parte do “Ser intelectual”. Que as mulheres gostam de pensar que estão na companhia de um intelectual está certo, mas hoje em dia não é só pensar, é ter certeza. O mundo está povoadíssimo de informações, e as mulheres não se contentam mais em manter suas opiniões para si em troca de um bom casamento. Pelo contrário, hoje em dia leva mais vantagem quem for capaz de desafiar uma mulher inteligente. É difícil posar de intelectual sem sê-lo.

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  2. Ricardo C. disse:

    Só posso concordar com você, Nat, mas ao mesmo tempo as pessoas continuam posudas, carregando uma sacola cheia de frases de efeito e de citações de Nietzsche, Deleuze, física quântica (e medicina quântica, cozinha quântica, sexo quântico…), aos quais se responde “isso, é por aí!”.Lembra do texto do cara bem trajado, globalizado e com alto índice de empregabilidade? É o que mais tem por aí!

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  3. pingwyn disse:

    Ricardo voce tem feedburner?? nao sei se escrevi certo. E que do meu trabalho nao posso acessar o blogger, so atravez do feedburner, que nao da para ler os comentarios, mas da para ler os posts..

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  4. Ricardo C. disse:

    O que eu preciso fazer para ter o feedburner, Tichia?

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  5. Nat disse:

    Vamos ao passo a passo.Ricardito, entre no feedburner, muda a língua pra português e siga as instruções para queimar seu blog. No bom sentido.Depois você vai no Blogger, em Configurações, acrescenta a URL que o FeedBurner vai dar a você. Escolha se você quer feeds pequenos ou completos.Depois você volta ao FeedBuner, entre em Meus Feeds, depois em Publicar, Chicklet Chooser, escolhe o tamanho do ícone, em Use as widget in vc escolhe Blogger, vai abrir uma página do Blogger, você dá o nome que quiser ao novo elemento de página. Salva e pronto!

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  6. Ricardo C. disse:

    Nat, vc é um anjo! Fiz tudo, e agora aparece lá, os 5 últimos do lado direito… Fiz direitinho né fessora?

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  7. Nat disse:

    Ricardo, você não precisa colocar seu feed no seu próprio blog, vc vai lá no feedburner e adiciona um iconezinho, ve lá no meu, eu fiz.Ou então dá o link pra Gwyn pra ela colocar no programa dela que vai ler feeds.

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  8. Ricardo C. disse:

    Pronto, corrigi! Valeu Nat!

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  9. Pax disse:

    Ricardo e suas meninas…Intelectualidade pela intelectualidade é um saco. “Você já leu Fulano? Ah, se você não conhece Beltrano então não dá? Mas no livro do Cicrano, na página 32, segundo parágrafo ele diz que…”. Um puta pé no saco. Gente muito intelectualizada não fala nada disso, pelo contrário. Transportam as visões que conhecem para seu dia-a-dia e trazem as conversas para o cotidiano. Raramente citam, e, quando citam, o fazem com uma propriedade singular, fácil.Aula de filosofia é aula de filosofia. Já estive em várias. Aí é outro papo.Por outro lado, case com uma mulher (ou homem) que você goste de conversar. Farás mais isso que sexo na vida. Acho que infelizmente, mas é fato.Portanto: conteúdo é tudo, mas vamos maneirar, por favor.

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  10. Ricardo C. disse:

    Pax, em gênero, número e grau é a minha concordância contigo!E a minha constante crítica é à hiper-valorização da forma em detrimento do conteúdo. Forma pela forma só em alguns casos. Em boa parte das vezes deve funcionar como auxiliar do conteúdo, caso contrário vira casca, oco, não é?

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  11. Nat disse:

    Concordo com os dois. E tá cada vez mais difícil achar conteúdo por aí.E quando se acha, bem, aí vem outros problemas… As pessoas inteligentes costumam ser bem difíceis.Mas aí é assunto para um outro post inteiro hehehehehehebjs

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  12. Ricardo C. disse:

    Tenho um amigo que costumava dizer: as melhores mulheres do mundo são as estudantes de enfermagem. Um arraso na cama, adoram cuidar de você (ou “maternais na medida certa”, hehehe!) e ainda por cima super desencanadas e descomplicadas, coisa dificílima de se encontrar em seres tão cíclicos como elas. E acrescentava que uma das piores era a psicóloga, que trepava cheia de culpas, interpretava todas e, quando não “problematizava as questões”, chorava. E quando não chorava, projetava tudo no parceiro…Mas isso tudo é maldade do meu amigo. Quem mandou ele dar aulas para estudantes de enfermagem e ter casado com uma psicóloga?

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