Bons-modos mal-educados

Operadora Francilene Gomes, bom dia. Informe seu nome e o número do seu celular com o DDD, por favor.

— Ricardo C., vinte e um, número-número-número-número, número-número-número-número.

Para sua segurança, precisamos confirmar alguns dados. Diga o seu nome completo e os três primeiros números do seu CPF.

— Acabei de de dizer o meu nome completo, mas tudo bem, digo de novo: Ricardo C., número-número-número.

Oi Ricardo, em que posso lhe ajudar?

Começa assim, esquizofrênico, qualquer contato com a operadora do meu celular. Do formal para o “íntimo”, passando pelo “surdo” — aquela hora em que digo, pela segunda vez, o meu nome completo, e que pouco importa, porque a Francilene ou qualquer outro que me atender vai continuar com seu “Oi Ricardo”, soltado à minha revelia…

A sensação de desconforto — redundante em se tratando desse tipo de serviço — permanece até o fim da ligação. “Quem disse que você é a minha amiga, Francilene, para sair falando comigo assim, tão informal?”, é o que penso sempre, mas não ouso dizer, até por ser óbvio que ela apenas obedece às instruções do telemarketing de sua empresa, e não tem culpa disso. Mas não tem jeito, só fico feliz quando desligo, ou quando a Francilene da vez se atrapalha e solta um “senhor” antes do Ricardo, e depois quase pede desculpas pela pecaminosa formalidade.

(Antes de parecer a encarnação de um senhor-de-engenho reivindicando tratamento à altura, quero dizer que gosto da informalidade, mas quando vem “alguns minutos depois” de um mínimo de formalidade. “O Senhor está no céu, pode me chamar de você”, é o clichê que digo aos meus alunos. Se bem que, apesar disso, procuro manter uma certa formalidade com eles, por exemplo, via e-mail, senão acabo com a minha caixa postal entupida de mensagens em Power Point sobre as benesses de Jesús…)

Na verdade, toda esta conversa surgiu quando fiquei pensando sobre como se conquista, legitimamente, alguma intimidade no Rio de Janeiro, a “capital mundial da informalidade”. E automaticamente veio a minha mente que em todas as vezes que alguém disse “Senhor Ricardo… posso te chamar de ‘você’?”, eu acabei respondendo “Claro que pode!” — e satisfeito, diga-se de passagem. O ruim é quando, em relação a algumas dessas pessoas, eu me odiei por não ter bancado de dizer, simplesmente, um simples “Não”, pode até que sorridente.

Sobre o último parágrafo, pergunto: vocês conseguem dizer “não” com facilidade? Me emprestam a fórmula?

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6 respostas para Bons-modos mal-educados

  1. confetti disse:

    seu ricardo, eu nem perguntei se podia lhe chamar de seu ricardo ! 🙂

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  2. Mariana disse:

    Não… Mas, prometo que, quando descobrir, escreverei uim livro de auto-ajuda baratinho e imperdível!Gostei muito daqui (a da areia movediça é fan-tás-ti-ca!!!). Considere-se meu vizinho.Bjo.

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  3. Ricardo C. disse:

    Confetti, você pode tudo, faz tempo!!Beijão de bom dia!!

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  4. Ricardo C. disse:

    Mariana, a recíproca é verdadeira. Além de vizinha, vc escreve bem pra caramba!Bjs

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  5. Monsores disse:

    Ricardo,A fórmula você conhece. Para dizer um sonoro “não”, basta olhar nos olhos da pessoa, com um largo sorriso para daí entoar sua negação.Claro que vai gerar desconforto, mas repare – as pessoas reagem ao sorridente “não” com um sorriso, mesmo que amarelo e constrangido. Em seguida, mude de assunto. Se a pessoa insistir, diga que é seu direito constitucional e até mesmo genético (sim, genético) dizer não.Agora vou almoçar e a tarde vou trabalhar quer você queira, quer não 🙂

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  6. Ricardo C. disse:

    Até que enfim alguém deu uma dica!Obrigado, Monsores, e bom almoço, que eu não sou besta de querer o contrário…

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