Paisagem na neblina, uma única cena

Dois irmãos, Voula e Alexander, em busca do pai que nunca conheceram, numa Grécia seca, abandonada, cinza, suja, e por isso densa, misteriosa, poética.
Vou à (minha) imagem.

Câmera estática, acostamento de uma estrada vazia, reta sem fim. Pela esquerda um caminhão encosta e para na (nossa) frente, uns dez metros. O motorista salta, puxando Voula pelo braço — teria ela uns doze anos? Não sei, mas era nova —, ela que com o irmão pegara carona cenas atrás. O motorista força a menina a subir na traseira do caminhão, que é coberta por uma lona, e segue atrás dela, desaparecendo na escuridão.

(Não lembro de ouvir som algum, nenhuma pontuação.)

A câmera segue fixa, insuportavelmente fixa durante dezenas, centenas, milhares de segundos, naquele breu, naquele escuro nada, mais denso do que a morte. Sem sobressaltos, exceto o dos nossos estômagos, surge o corpanzil do motorista, o primeiro a descer, e somos violentamente obrigados a vê-lo abotoar a calça, ajeitar a braguilha e a camisa, e seguir com toda a tranqüilidade (que nos falta) pela lateral esquerda do caminhão, retomando o seu lugar na direção. (Essa última frase é subentendida, não há nada em celulóide, já que o ângulo não nos permite ver.) Logo atrás dele, desce a menina, com um pouco de dificuldade — o caminhão é alto —, ajeita a saia em desalinho, abotoa a blusa, caminhando lenta e desconfortavelmente, parece. Ela segue à nossa direita, em direção ao lugar do carona, onde Alexander permaneceu todo esse tempo. E nem chega a subir novamente, é o irmão que sai, posto para fora pelo motorista, ficando ao lado da irmã. E entre eles e nós segue a mesma, nem tão próxima a ponto de permitir-nos ajudá-los, quem sabe espantando aquele monstro, amparando-os de alguma forma; nem o suficientemente distante, de um jeito que nos permitisse fingir que aquilo não acontecera.

O caminhão segue a estrada. As crianças começam a andar, afastando-se também. E nós, atados à câmera, ficamos.

Não lembro de ter visto cena tão violenta antes. Violação dos meus olhos, que se pensavam já tão calejados.

* * * * *

Título original: Topio stin omichli
Direção: Theo Angelopoulos
Direção de fotografia: Yorgos Arvanitis
Roteiro: Theo Angelopoulos, Tonino Guerra, Thanassis Valtin
Produção: Theo Angelopoulos, Eric Heumann, Stéphane Sorlat
País: Grécia
Ano de produção: 1988
Duração: 127 min.

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4 respostas para Paisagem na neblina, uma única cena

  1. Alba disse:

    Ricardo,Compartilho com você o horror dessa cena. Não estou bem lembrada se a mão (de Deus?) aparece logo em seguida, mas certamente saí do cinema com aquela imagem poderosa nas retinas.Mas estou me esforçando para não pensar muito, pelo menos, nesse tipo de coisas.Um grande beijo e boas festas!

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  2. confetti disse:

    eu vi, tinha esquecido…cinicamente…theo angelopou, acho bobamente pesado…ou talvez seja muito fino pro meu bico…conclusao : nao

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  3. Pax disse:

    Minha relação com a vida é um reflexo da relação que tive na infância. Por sorte fui bem tratado, tive educação, tive estudo, sei matemática, sei português, mas, mais que isso, sei o que significa gostar de gente. Quando gostam da gente, a gente aprende e gosta dos outros.Cada crime que sei contra crianças me mata um pedaço. Sofro no mais sentido e profundo das minhas terminações.

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  4. Ricardo C. disse:

    Desculpem o fora de hora que foi esse post sobre o Paisagem na Neblina. Quando for falar de assunto semelhante, farei as minhas considerações sobre o porquê dele, mas não agora, às vésperas do Natal, combinado?E Pax, nos parecemos em relação a como lidamos com o tema, só para não variar…

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