Veríssimo, a mãe do Bambi e eu

Fiquei ao mesmo comovido e constrangido com a confissão que o Luís Fernando Veríssimo fez em uma de suas (ainda não tão) velhas crônicas. Ele disse, com todas as letras, que pertencia à geração que nunca se recuperou da morte da mãe do Bambi. Não satisfeito, ainda acrescentou que dessa trágica experiência — criada pelo maléfico Walt Disney (o maléfico é por minha conta, não do Veríssimo) — vieram os parâmetros de “maldade, injustiça e perda” que ele e seus contemporâneos adquiriram.

E eu, onde entro nessa história? Pois é, essa crônica levou-me de volta ao passado, a um momento em que me senti pouco digno de ser membro da espécie humana. O fato deu-se numa festa na casa de um velho amigo, numa cobertura na rua Gastão Bahiana, em Copacabana, na segunda metade da década de 80. Depois de muita dança, muita cerveja e “otras cositas” de que não lembro, lá pelas cinco da manhã os poucos que ainda resistiram sentaram-se para uma conversa sem roteiro fixo e nem grau de seriedade previamente estabelecido. Não sei se foi o teor alcoólico ou o cansaço da dança, mas lá pelas tantas o papo enveredou para as experiências mais traumáticas de cada um. Foi aí que a morte da mãe do Bambi surgiu, quase da mesma forma descrita pelo Veríssimo. Sim, aquela turma, mesmo sendo de uma geração posterior, também conhecia aquela dor, aquele pavor, aquela perda que beirava o absoluto, e que, para muitos, ficou associada a uma tonitruante frase: “Fogo na floresta!, fogo na floresta!” *. E aos poucos, uma tristeza se abateu sobre quase todos, num momento de contrição coletiva, de luto congraçado. Pois aí entro eu, envergonhado, já não merecendo a qualidade de humano, mas sim a de monstro insensível. Reconheço: eu que também assistira ao desenho do Bambi na minha infância, percebi ser o único naquela sala, talvez o único de toda uma geração, que não se abalou com a morte da mãe daquela frágil corça (que alguns dizem ser um veado, e outros chamam de cervo). E com receio de causar comoção, fingi pertencer àquele coletivo sofrimento…

Pronto, admito: eu não sofri com a morte da mãe do Bambi! Agora posso ir, cabeça baixa, direto para a cadeira elétrica.

___________
* Fui lembrado por amigos que quem matou a mãe do Bambi não foi o incêndio, mas sim um caçador. Não importa. Para a geração que além de ver o filme ouviu o LP, isso não faz muita diferença…

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