1985

7:19 a.m. E o balanço do prédio lembrou uma rede, dessas vindas do Ceará, compradas com irritação em Copacabana quando saímos para levar algum amigo estrangeiro para conhecer a Princesinha do Mar, e que depois a gente pendura feliz na varanda para o cochilo pós-almoço, daqueles só interrompidos pelo sobrinho de três anos que quer porque quer “brincar de terremoto” conosco. Mas, neste caso, não se trata de Copacabana, e o vai-e-vem do lustre da sala, com a lâmpada em seu interior acompanhando-lhe o movimento pendular, parecia reproduzir em pequena escala o que acontecia com os nossos corpos, em número de quatro, balançando no apartamento 702 da Calle José María Velazco, número 72, Colonia San José Insurgentes, naquele 19 de setembro de 1985, o dezenove do dia em sincronia com os minutos daquela manhã.

Minha irmã caçula, do alto dos seus dezesseis anos, parecia não saber bem o que deveria sentir. Pelo menos foi o que os seus olhos me disseram, eu que nem sempre entendo essa língua que os olhos falam. Já os da empregada gritavam aterrorizados, dando um trabalho danado para as pálpebras e demais músculos — esses que formam a turma do “deixa disso” — conseguirem mantê-los dentro das órbitas por mais algum tempo. Por outro lado, meu pai e eu, com doutorado em terremotos — os outros dois em Lima, no Peru, em 1970 e em 1974 —, avaliávamos, ingenuamente, que “esse foi forte, né, pai?”, “É, filho”, crentes que a magnitude se devia à altura em que estávamos. E assim que o prédio deixou de pensar que era aquela rede cearense comprada em Copacabana e se aprumou, demos uma olhada rápida pela janela — menos a empregada, ainda paralisada e segurando o copo do liquidificador, como se ele fosse um aparelho anti-tremor — e saímos, ignorantes, cada qual para os seus afazeres. Meu pai, para o trabalho, levando minha irmã para a escola. Eu, para a universidade, dirigindo pelo anillo Periférico, com trânsito normal, até chegar em sala de aula e ouvir que caíra um prédio, um não, dois, e mais um hotel, uma maternidade, e que as ligações telefônicas internacionais estavam interrompidas, e que havia notícias de muitos mortos e feridos… Interrompem as aulas, volto para casa, agora ouvindo o rádio do carro que na ida ficara desligado, e por fim começo a me preocupar. Chegando ao apartamento 702, meu pai já tinha voltado, pois não havia luz no seu trabalho, e aproveitava para arrumar as malas e partir para o aeroporto, já que tinha viagem marcada para o Brasil, e deixando-nos sós, sem saber o que de fato acontecera. E vinte e quatro horas depois, minha irmã, a empregada e eu, já com uma razoável dimensão dos estragos do primeiro sismo, nos vimos descendo sete andares pelas escadas do nosso prédio, no escuro, depois que o segundo terremoto ocorreu. Agora sim, gelamos todos, mesmo com a sorte ao nosso lado, já que nenhum de nossos conhecidos mais próximos sofreu maiores perdas, exceto as emocionais, bem difíceis de mensurar.

Muitas experiências guardei daqueles dias. Participando de uma brigada de voluntários, tive acesso à área mais afetada da cidade, próxima ao centro. Deparei-me com o que considero a imagem mais próxima à de um cenário de guerra que conheci, com prédios caídos, ruas desertas e sem luz, grupos de soldados do exército aquecendo as mãos em fogueiras improvisadas, um forte cheiro de podre misturado ao de gás. E um silêncio sepulcral, sem metáforas. Em compensação, nunca mais em minha vida presenciei tanta solidariedade, tanta capacidade de mobilização espontânea, de que a lembrança de um sujeito, de cadeira de rodas, comandando o trânsito em um movimentado cruzamento, sendo obedecido até pelas viaturas policiais, parece ser a imagem mais representativa.

Mudei-me para o Brasil um ano e meio depois desse meu terceiro terremoto, de 8,1 graus na escala Richter, que causou danos estruturais em 53.000 edificações, das quais 880 vieram ao chão, segundo dados oficiais, e matando mais de onze mil pessoas — cálculos das brigadas de resgate com quem conversei falavam em oitenta mil —, provavelmente um terço delas no terremoto seguinte, 7,1 na mesma escala, o de número quatro em um parágrafo dispensável do meu currículo.

Estando aqui há vinte anos, não tornei a ver a terra tremer, pelo menos não daquele jeito. E nem contratei uma empregada, especialmente depois que aquela largou o copo do liquidificador.

Anúncios
Esse post foi publicado em memórias e marcado , . Guardar link permanente.

4 respostas para 1985

  1. Pax disse:

    Vocês podem me chamar de louco, porque sou, mas sempre quis pegar uma tempestade dentro de um bom avião e outra dentro de um bom barco.De barco peguei, atravessando o Atlântico num veleiro excepcional de bom, de avião só merreca.Mas juro que não queria estar num terremoto.

    Curtir

  2. pingwyn disse:

    Passei por um terremoto aqui na Inglaterra em outubro de 2001, foi um abalo de 4.1, nada comparado com sua experiencia, mas a sensacao daquele dia ainda esta bem viva dentro de mim….

    Curtir

  3. Ricardo C. disse:

    Não recomendo a ninguém, especialmente quando se sabe o quanto de gente morre ao redor, especialmente os mais pobres, como em todos os cantos do planeta…

    Curtir

  4. Pingback: La terra trema | Ágora com dazibao no meio

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s