"Nada más que un puro"

Hijo mío, só te escrevo para que você pare de se preocupar. Entenda de uma vez por todas: estou bem, muito bem mesmo, nunca me senti melhor na vida. Aproveito e te peço que fale com o teu irmão Raúl, mándalo parar de pôr aqueles capangas atrás de mim, porque aquelas barbas deles, que dão muito na vista e nos nervos, só fazem me aborrecer. E como por estas bandas não tem um paredón sequer, te digo que não foi fácil sumir com os últimos três.
Eu sei que fui embora sem dar notícias. Mas já devia ter se acostumado, ainda mais você, que puxou tanto a mim! Devia saber que já não agüentava mais, cansada que estava de viver feito fantasma, fingindo de morta, sem poder fazer o que qualquer viúva da minha idade pode se dar ao luxo: pintar o cabelo de roxo, torrar a aposentadoria em bingos, dançar salsa no Cabaret Tropicana até o raiar do dia, ir a shows de striptease, bolinar uns belos mulatos numa guagua(1) lotada… Mas não, sendo sua mãe, eu tinha sempre que dar o exemplo, falar baixinho, tomar sopa sem fazer barulho, né? Pois um dia “a casa caiu e a cobra fumou”, como dizia um coronel brasileiro, velho amigo do teu pai. Enchi o saco, peguei carona numa balsa em Puerto Mariel e, bem, o resto é história.
Ah, quero te dizer que a foto em anexo já tem alguns meses, mas que não mudei muito não. O par de tênis, que comprei em Miami — não pensava que eu fosse sair pelo Haiti, né?! —, continua nos meus pés, até hoje. Já as roupas eu peguei emprestado da prima Lupe. São a minha cara, não acha? Aliás, aposto que você está fazendo uma das suas caretas enquanto olha, hehehe! E já que está olhando, pegue logo uma lente de aumento — que você é tão míope quanto eu! — e veja, no cantinho esquerdo, junto da caixinha de fósforos, os restos da embalagem desse maravilhoso puro que eu estava fumando, na hora da foto. É sim, é aquele Diadema “240 milímetros de largo y calibre 60”, que você odiava ver na minha boca. Confesso que ainda acho graça quando você, quinze aninhos e roxo de raiva, dizia que aquilo parecia um pinto, hahaha! Mas lembre-se: de vez em quando, um charuto é só um charuto… (Marx explica, né?)
Bom, para terminar, vou logo avisando que não volto tão cedo. Talvez eu dê as caras quando você parar com essa bobagem de renegar o Fidel Hipólito, seu nome de batismo (tão lindo que é!), que trocou por esse Fidel Alejandro, ô fixação besta por Alexandre o Grande… E, quem sabe, depois que você voltar para a análise, porque eu não agüento mais o tamanho do seu complexo de Édipo.

Besos de tu mamá,

Lina Ruz

___________

(*) Mais um texto sob encomenda, da mesma forma que o Matemática, em que arrumaram a foto dessa figuraça daí e pediram que inventássemos alguma coisa. Essa besteira toda foi minha…

(1) Guagua [Guágua]: nome dos ônibus em Cuba.

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2 respostas para "Nada más que un puro"

  1. pingwyn disse:

    Revelador seu texto…Adorei!

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  2. Ricardo C. disse:

    Acaba “dialogando” um pouco com aquela interminável discussão sobre o Che, né?Bjs

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